Deixei uma mão quente e outra fria
nas pedras do outro lado do rio,
rio esse que lava as pedras que tinha
para atirar nas minhas mãos,
e as ondas agitadas dos barcos que
atiram espuma suja contra as rochas.
No céu funde-se o azul dos teus olhos
que desaprece no horizonte com a imagem cega do Rei.
Desaparece...
e desaparece...
As ondas retraem-se enquanto os barcos zarpam
enquanto o sol se põe e
os comboios passam.
Levo comigo uma mão quente e outra fria.
Uma do teu toque, outra da agonia...
E os teus olhos desaparecem...
porque eu levo uma mão sempre quente,
e a outra
trago sempre fria.
Monday, February 26, 2007
Tuesday, February 20, 2007
Caravelas
Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.
Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!
Se eu sempre fui assim este Mar morto:
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!
Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...
Florbela Espanca, Livro de Soror Saudade
De tanto caminhar! Já me perdi!
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.
Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!
Se eu sempre fui assim este Mar morto:
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!
Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...
Florbela Espanca, Livro de Soror Saudade
Saturday, February 03, 2007
"Pães"
Se deixasse passar a época das frequências com a desculpa de não ter um minuto sequer para escrever aqui o que quer que seja, poderiam ser quase dois meses até voltar a aparecer finalmente alguma coisa. Não é que muitos leiam mas a verdade é que isso não me importa pão, quem lê, lê porque quer e gosta e a verdade é que apesar de eu não perceber pão do que se tem estado a passar ultimamente, não tenho tido a minima vontade de escrever e menos ainda de publicar. Admito que me passaram pela cabeça umas mil ideias para posts novos mas como é de verificar não escrevi nenhuma.
Acho que efectivamente acabavam por não fazer qualquer sentido, senão estariam de certeza aqui escritas em vez de ter pensado duas vezes e as ter mandado para de onde elas tinham vindo.
Simplesmente sem sentido, ou seria talvez porque não tenho mesmo pão para dizer?
Felizmente há coisas que acabam sempre por correr bem e o cérebro é o mais feliz de todas essas coisas já que se tem estado a alimentar decentemente, a verdade é mesmo que diarreia mental não faz bem a ninguém, e eu fartei-me um bocadinho "assim" dela.
Imagino que não estejam a perceber pão deste post e que se estejam mesmo a perguntar se estarei meia doida ou até a razão desta repetição doentia da palavra pão.
Ora bem, eu também não sei, porque como já referi acima, não percebo pão de "tudo isto".
No entanto acho que uma vez ouvi dizer qualquer coisa como "pão é alento" e talvez seja esse chamado alento coisa que eu não tenho, ou coisa que me tem estado a faltar.
Nada grave claro, mas de certo modo confuso, talvez tenha outro nome mas foi este que encontrei agora para lhe dar e não pensei que viesse a perceber que me faltava.
Por agora pode pasar a chamar-se melhores dias de realização concreta virão. Ou apetite, foi isto agora que pura e simplesmente me apeteceu escrever. Mesmo que não tenha grande sentido.
Melhores poesias, melhores rimas e pensamentos que não tenho tido alento nem disposição para publicar virão.
Porque no fundo o alento vem assim como vem o pão.
Enquanto um verso vai e volta, um sentimento passa e um momento segue, passam e voltam as vontades para se perceberem o que são.
Acho que efectivamente acabavam por não fazer qualquer sentido, senão estariam de certeza aqui escritas em vez de ter pensado duas vezes e as ter mandado para de onde elas tinham vindo.
Simplesmente sem sentido, ou seria talvez porque não tenho mesmo pão para dizer?
Felizmente há coisas que acabam sempre por correr bem e o cérebro é o mais feliz de todas essas coisas já que se tem estado a alimentar decentemente, a verdade é mesmo que diarreia mental não faz bem a ninguém, e eu fartei-me um bocadinho "assim" dela.
Imagino que não estejam a perceber pão deste post e que se estejam mesmo a perguntar se estarei meia doida ou até a razão desta repetição doentia da palavra pão.
Ora bem, eu também não sei, porque como já referi acima, não percebo pão de "tudo isto".
No entanto acho que uma vez ouvi dizer qualquer coisa como "pão é alento" e talvez seja esse chamado alento coisa que eu não tenho, ou coisa que me tem estado a faltar.
Nada grave claro, mas de certo modo confuso, talvez tenha outro nome mas foi este que encontrei agora para lhe dar e não pensei que viesse a perceber que me faltava.
Por agora pode pasar a chamar-se melhores dias de realização concreta virão. Ou apetite, foi isto agora que pura e simplesmente me apeteceu escrever. Mesmo que não tenha grande sentido.
Melhores poesias, melhores rimas e pensamentos que não tenho tido alento nem disposição para publicar virão.
Porque no fundo o alento vem assim como vem o pão.
Enquanto um verso vai e volta, um sentimento passa e um momento segue, passam e voltam as vontades para se perceberem o que são.
Tuesday, December 12, 2006
Dust in your eyes
"As pessoas são como janelas de vitrais.
Reluzem e brilham quando o sol se expõe, mas quando a escuridão se instala, a sua verdadeira beleza é apenas revelada se houver uma luz proveniente do seu interior."

He who controls the present, controls the past.
He who controls the past controls the future.
George Orwell
And yet there is nothing needing to be controlled, for there is no control of nothing at all.
Para os vitrais presentes na minha vida. Vocês que ainda brilham mais intensamente na escuridão.
Há sem dúvida muita luz aí dentro do seres únicos que são.
Saturday, December 09, 2006
Fim
Neste infinito fim que nos alcançou
guardo uma lágrima vinda do fundo
guardo um sorriso virado para o mundo
guardo um sonho que nunca chegou
Na minha casa de paredes caídas
penduro espelhos cor de prata
guardo reflexos do canto que mata
guardo uma arca de rimas perdidas
Na praia deserta dos dias que passam
Falo ao mar de coisas que vi
Falo ao mar do que conheci...
No mundo onde tudo parece estar certo
guardo os defeitos que me atam ao chão
guardo muralhas feitas de cartão
guardo um olhar que parecia tão perto
Para o país do esquecer o nunca nascido
levo a espada e a armadura de ferro
levo o escudo e o cavalo negro
levo-te a ti... levo-te a ti....
levo-te a ti para sempre comigo...
Na praia deserta dos dias que passam
Falo ao mar de coisas que vi
Falo ao mar do que nunca perdi.
Fim - Toranja
guardo uma lágrima vinda do fundo
guardo um sorriso virado para o mundo
guardo um sonho que nunca chegou
Na minha casa de paredes caídas
penduro espelhos cor de prata
guardo reflexos do canto que mata
guardo uma arca de rimas perdidas
Na praia deserta dos dias que passam
Falo ao mar de coisas que vi
Falo ao mar do que conheci...
No mundo onde tudo parece estar certo
guardo os defeitos que me atam ao chão
guardo muralhas feitas de cartão
guardo um olhar que parecia tão perto
Para o país do esquecer o nunca nascido
levo a espada e a armadura de ferro
levo o escudo e o cavalo negro
levo-te a ti... levo-te a ti....
levo-te a ti para sempre comigo...
Na praia deserta dos dias que passam
Falo ao mar de coisas que vi
Falo ao mar do que nunca perdi.
Fim - Toranja
Monday, December 04, 2006
26 anos depois...
Não podia deixar de lembrar este dia. O não poder esqueçer que ainda um dia existiram homens bons neste nosso país.
Continuamos a não comemorar os nosso feriados, a não honrar os nossos feitos nem as nossas vitórias, nem a glorificar as nossas gentes, mas já houve quem pelo menos o quisesse sonhar.
Parece que quem sonha vai sempre primeiro mas deixando cá, no entanto, sempre qualquer coisa, mostra talvez que vale sempre a pena continuar a sonhar.
Continuamos a não comemorar os nosso feriados, a não honrar os nossos feitos nem as nossas vitórias, nem a glorificar as nossas gentes, mas já houve quem pelo menos o quisesse sonhar.
Parece que quem sonha vai sempre primeiro mas deixando cá, no entanto, sempre qualquer coisa, mostra talvez que vale sempre a pena continuar a sonhar.
Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro
(Porto, 19 de Julho de 1934 - Camarate, 4 de Dezembro de 1980)
Saturday, December 02, 2006
Amor
Para quem ama, já amou, quer ou não quer amar.
Para quem ama perto, para quem ama distante, para quem ama com prazos e para quem ama cada instante.
Para quem já não ama, para quem ama sem amar.
E especialmente para quem ama, sem porquês nem dados, como diz o poema, todo o tipo de amores não pensados, simplesmente por amar.
Sempre, para sempre
Há amor amigo
Amor rebelde
Amor antigo
Amor de pele
Há amor tão longe
Amor distante
Amor de olhos
Amor de amante
Há amor de inverno
Amor de verão
Amor que rouba
Como um ladrão
Há amor passageiro
Amor não amado
Amor que aparece
Amor descartado
Há amor despido
Amor ausente
Amor de corpo
E sangue bem quente
Há amor adulto
Amor pensado
Amor sem insulto
Mas nunca tocado
Há amor secreto
De cheiro intenso
Amor tão próximo
Amor de incenso
Há amor que mata
Amor que mente
Amor que nada mas nada
Te faz contente me faz contente
Há amor tão fraco
Amor não assumido
Amor de quarto
Que faz sentido
Há amor eterno
Sem nunca talvez
Amor tão certo
Que acaba de vez
Sempre Para Sempre - Donna Maria
Para quem ama perto, para quem ama distante, para quem ama com prazos e para quem ama cada instante.
Para quem já não ama, para quem ama sem amar.
E especialmente para quem ama, sem porquês nem dados, como diz o poema, todo o tipo de amores não pensados, simplesmente por amar.
Sempre, para sempre
Há amor amigo
Amor rebelde
Amor antigo
Amor de pele
Há amor tão longe
Amor distante
Amor de olhos
Amor de amante
Há amor de inverno
Amor de verão
Amor que rouba
Como um ladrão
Há amor passageiro
Amor não amado
Amor que aparece
Amor descartado
Há amor despido
Amor ausente
Amor de corpo
E sangue bem quente
Há amor adulto
Amor pensado
Amor sem insulto
Mas nunca tocado
Há amor secreto
De cheiro intenso
Amor tão próximo
Amor de incenso
Há amor que mata
Amor que mente
Amor que nada mas nada
Te faz contente me faz contente
Há amor tão fraco
Amor não assumido
Amor de quarto
Que faz sentido
Há amor eterno
Sem nunca talvez
Amor tão certo
Que acaba de vez
Sempre Para Sempre - Donna Maria
Wednesday, November 29, 2006
Muralhas de cartão
A chuva era quente e a água escorria fria.
Escorria e voltava a escorrer.
De repente só se lembrava de ter estado presente em lugares longínquos de ninguém, sempre com chuva, neve e vento, onde se carecia da ausência de memórias, onde eram abafadas as reminiscências das histórias, e escorria bem alto o som quente da verdade.
Ali as mãos nunca se tinham dado, as peles nunca se tinham tocado e os olhares nunca se tinham cruzado.
Eram lugares onde só paravam poetas carcomidos da fome e do desejo, bêbados dos fundos das garrafas vazias e de poemas inacabados das vidas que tinham ficado por viver.
Nas ruas só se viam passar os indigentes, estes estranhos de mãos tremidas, pobres famintos de palavras mordidas, línguas ávidas de qualquer sensação.
Já eram quase onze, pensava. E ela só queria dormir. Dormir e voltar a dormir, só... para tão depressa não ter de acordar.
Já não tinha a pele carregada de sal, mas sentia os músculos embebedarem-se lentamente pela boca de uma embalagem de ácido muriático, que alguém deixara esquecido no jardim.
Coisas sem sentido, pensava. Daquelas loucuras algo lúcidas que só os outros não vêm.
A vontade de querer parar de escrever voltara a surgir-lhe na mente. A premência, a importância de saber não conseguir continuar. Era a dormência do cérebro e o peso da mão que alimentavam o ódio das canetas e o enjoo do papel.
Começava a correr-lhe nas veias aquela confusão do cérebro a precisar de escrever quando a mão queria parar.
- Gostava de voltar para casa. - dissera
- Para onde??. -
Tinha subitamente voltado a cabeça para trás, olhando-a com desdém através de uma expressão repressiva de surpresa.
- Deves estar a brincar. Não sei para que raio de casa queres tu agora voltar... Tu não moras em lugar nenhum, ou melhor, o teu problema é que tu moras em todo o lado. Talvez fosse bom deixares o medo das decisões de lado para saberes bem para onde queres voltar.
- Desta vez foste tu que não percebeste. Eu sei muito bem para onde estou a ir. Só me assusta o não ter medo absolutamente nenhum.
A imagem desvanecera-se, voltavam a ficar somente as palavras e o papel.
Lá fora deambulavam ainda as sombras mortas dos poetas enquanto a chuva caía.
Mas lá dentro estava frio e a sala continuava vazia.
Tinha-se encostado entre o guarda-roupa e o chão e deixara que o braço continuasse o seu trabalho enquanto a mão escrevia. Adormecera, rastejando depois para a cama que continuava a ter as mesmas dimensões. Ao olhar a janela vira que afinal já vinha a nascer o dia, mas voltara a adormecer no voltar de um sonho.
Era mais fácil continuar a dormir, do que ter então que acordar.
"Ainda te vejo a carregá-lo ao colo, como me carregarias a mim.
Ainda te vejo. Todos os dias nos risos e nos choros das memórias.
Vejo-te a ti que passas sempre nos desígnios das horas que ficaram.
Há dias em que me pergunto para onde deixámos fugir tantos sonhos, tantas palavras e tantos sentidos. Tantos sentimentos que passaram despercebidos.
Também eu queria parar, deixar de pensar na impossibilidade de Deus ainda um dia acordar a pensar se ainda nos há de querer juntar.
Acordo e penso em todos os sorrisos, todas as birras que perdemos, nas noites que não nos deixaria dormir e em todas aquelas outras em que não quereríamos fechar os olhos com medo de não o ver acordar.
Ás vezes ainda penso.
Lembro-me que te dei tudo aquilo que ainda resta para que o pudesses levar contigo.
Lembrei-me que afinal já nada resta.
Pensas que ninguém vê.
Cegámos. Enquanto o vento soprou as muralhas ditas tão fortes.
Afinal fui eu não quis saber.
Eram feitas de cartão..."
Escorria e voltava a escorrer.
De repente só se lembrava de ter estado presente em lugares longínquos de ninguém, sempre com chuva, neve e vento, onde se carecia da ausência de memórias, onde eram abafadas as reminiscências das histórias, e escorria bem alto o som quente da verdade.
Ali as mãos nunca se tinham dado, as peles nunca se tinham tocado e os olhares nunca se tinham cruzado.
Eram lugares onde só paravam poetas carcomidos da fome e do desejo, bêbados dos fundos das garrafas vazias e de poemas inacabados das vidas que tinham ficado por viver.
Nas ruas só se viam passar os indigentes, estes estranhos de mãos tremidas, pobres famintos de palavras mordidas, línguas ávidas de qualquer sensação.
Já eram quase onze, pensava. E ela só queria dormir. Dormir e voltar a dormir, só... para tão depressa não ter de acordar.
Já não tinha a pele carregada de sal, mas sentia os músculos embebedarem-se lentamente pela boca de uma embalagem de ácido muriático, que alguém deixara esquecido no jardim.
Coisas sem sentido, pensava. Daquelas loucuras algo lúcidas que só os outros não vêm.
A vontade de querer parar de escrever voltara a surgir-lhe na mente. A premência, a importância de saber não conseguir continuar. Era a dormência do cérebro e o peso da mão que alimentavam o ódio das canetas e o enjoo do papel.
Começava a correr-lhe nas veias aquela confusão do cérebro a precisar de escrever quando a mão queria parar.
- Gostava de voltar para casa. - dissera
- Para onde??. -
Tinha subitamente voltado a cabeça para trás, olhando-a com desdém através de uma expressão repressiva de surpresa.
- Deves estar a brincar. Não sei para que raio de casa queres tu agora voltar... Tu não moras em lugar nenhum, ou melhor, o teu problema é que tu moras em todo o lado. Talvez fosse bom deixares o medo das decisões de lado para saberes bem para onde queres voltar.
- Desta vez foste tu que não percebeste. Eu sei muito bem para onde estou a ir. Só me assusta o não ter medo absolutamente nenhum.
A imagem desvanecera-se, voltavam a ficar somente as palavras e o papel.
Lá fora deambulavam ainda as sombras mortas dos poetas enquanto a chuva caía.
Mas lá dentro estava frio e a sala continuava vazia.
Tinha-se encostado entre o guarda-roupa e o chão e deixara que o braço continuasse o seu trabalho enquanto a mão escrevia. Adormecera, rastejando depois para a cama que continuava a ter as mesmas dimensões. Ao olhar a janela vira que afinal já vinha a nascer o dia, mas voltara a adormecer no voltar de um sonho.
Era mais fácil continuar a dormir, do que ter então que acordar.
"Ainda te vejo a carregá-lo ao colo, como me carregarias a mim.
Ainda te vejo. Todos os dias nos risos e nos choros das memórias.
Vejo-te a ti que passas sempre nos desígnios das horas que ficaram.
Há dias em que me pergunto para onde deixámos fugir tantos sonhos, tantas palavras e tantos sentidos. Tantos sentimentos que passaram despercebidos.
Também eu queria parar, deixar de pensar na impossibilidade de Deus ainda um dia acordar a pensar se ainda nos há de querer juntar.
Acordo e penso em todos os sorrisos, todas as birras que perdemos, nas noites que não nos deixaria dormir e em todas aquelas outras em que não quereríamos fechar os olhos com medo de não o ver acordar.
Ás vezes ainda penso.
Lembro-me que te dei tudo aquilo que ainda resta para que o pudesses levar contigo.
Lembrei-me que afinal já nada resta.
Pensas que ninguém vê.
Cegámos. Enquanto o vento soprou as muralhas ditas tão fortes.
Afinal fui eu não quis saber.
Eram feitas de cartão..."
Tuesday, November 28, 2006
Diz-me que conversa estás a ter contigo
Queres lutar com quem?
Para doer aonde?
Para ser o quê?
Achas que ninguém vê?
E para quê fingir?
Porquê mentir e remar na dor?
Achas que ninguém vê?
Também eu queria parar...
chorar
cair... para me levantar,
para te puxar!
Te fazer sorrir...
não voltar a cair!
Não me olhes assim!
Continuo a ser quem fui!
Cada vez mais aqui...
não dances tão longe..!
...que eu já te vi
Também eu queria parar...
chorar
cair... para me levantar,
para te puxar!
Te fazer sorrir...
não voltar a cair!
Cada Vez Mais Aqui - Toranja
Para doer aonde?
Para ser o quê?
Achas que ninguém vê?
E para quê fingir?
Porquê mentir e remar na dor?
Achas que ninguém vê?
Também eu queria parar...
chorar
cair... para me levantar,
para te puxar!
Te fazer sorrir...
não voltar a cair!
Não me olhes assim!
Continuo a ser quem fui!
Cada vez mais aqui...
não dances tão longe..!
...que eu já te vi
Também eu queria parar...
chorar
cair... para me levantar,
para te puxar!
Te fazer sorrir...
não voltar a cair!
Cada Vez Mais Aqui - Toranja
Sunday, November 26, 2006
Levando um a um, vão contigo mortos e também vivos... A Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006)
O poeta e pintor Mário Cesariny, principal representante do surrealismo português, morreu esta madrugada em sua casa, em Lisboa, aos 83 anos.
Cesariny destacou-se pela produção artística variada, pela pintura, colagem, poesia, humor e música passaram as mãos irrequietas e experimentalistas do artista.
"Mário Cesariny é antes de tudo um ser superior, o ser mais admirável que eu conheci", comentou, comovido, o amigo Carlos Cabral Nunes.
Para Cesariny, homossexual assumido, o amor era "um desmesurado desejo de amizade", em que "o outro é um espelho sem o qual não nos vemos, não existimos", e "a única coisa que há para acreditar"."[É] o único contacto que temos com o sagrado. As igrejas apanharam o sagrado e fizeram dele uma coisa muito triste, quando não cruel. O amor é o que nos resta do sagrado", defendia.
Sobre as sessões para que o convidavam e em que o aplaudiam, o poeta comentava:
"Estou num pedestal muito alto, batem palmas e depois deixam-me ir sozinho para casa. Isto é a glória literária à portuguesa".
Em 2005, recebeu as duas únicas distinções da sua carreira: o Grande Prémio Vida Literária APE/CGD, pelo conjunto da sua obra, e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, que lhe foi entregue pelo então Presidente da República Jorge Sampaio. Nos últimos anos de vida, desenvolveu uma frenética actividade de transformação e reabilitação ou "redenção" do real quotidiano, da qual nasceram muitas colagens com pinturas, objectos, instalações e outras fantasias materiais.
"Gostava de ter daquelas mortes boas, em que uma pessoa se deita para dormir e nunca mais acorda", afirmou em "Autografia".
Ainda assim morreu em paz, como queria.
Apesar de ter afirmado que a sua escrita tinha secado, que não sentia necessidade de escrever, porque não tinha nem por quê, nem para quem, e de a sua poesia ser como dizia "um fogo muito grande que ardeu", "depois ficaram as cinzas", centelhas da sua eternidade.
Que não morra então a obra, assim não morrerá nunca o autor.
Caso para se dizer... you are welcome to eternity!
E aqui fica:
De profundis amamus
"(...)Não
faz mal abracem-me os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso."
Cesariny destacou-se pela produção artística variada, pela pintura, colagem, poesia, humor e música passaram as mãos irrequietas e experimentalistas do artista.
"Mário Cesariny é antes de tudo um ser superior, o ser mais admirável que eu conheci", comentou, comovido, o amigo Carlos Cabral Nunes.
Para Cesariny, homossexual assumido, o amor era "um desmesurado desejo de amizade", em que "o outro é um espelho sem o qual não nos vemos, não existimos", e "a única coisa que há para acreditar"."[É] o único contacto que temos com o sagrado. As igrejas apanharam o sagrado e fizeram dele uma coisa muito triste, quando não cruel. O amor é o que nos resta do sagrado", defendia.
Sobre as sessões para que o convidavam e em que o aplaudiam, o poeta comentava:
"Estou num pedestal muito alto, batem palmas e depois deixam-me ir sozinho para casa. Isto é a glória literária à portuguesa".
Em 2005, recebeu as duas únicas distinções da sua carreira: o Grande Prémio Vida Literária APE/CGD, pelo conjunto da sua obra, e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, que lhe foi entregue pelo então Presidente da República Jorge Sampaio. Nos últimos anos de vida, desenvolveu uma frenética actividade de transformação e reabilitação ou "redenção" do real quotidiano, da qual nasceram muitas colagens com pinturas, objectos, instalações e outras fantasias materiais.
"Gostava de ter daquelas mortes boas, em que uma pessoa se deita para dormir e nunca mais acorda", afirmou em "Autografia".
Ainda assim morreu em paz, como queria.
Apesar de ter afirmado que a sua escrita tinha secado, que não sentia necessidade de escrever, porque não tinha nem por quê, nem para quem, e de a sua poesia ser como dizia "um fogo muito grande que ardeu", "depois ficaram as cinzas", centelhas da sua eternidade.
Que não morra então a obra, assim não morrerá nunca o autor.
Caso para se dizer... you are welcome to eternity!
E aqui fica:
De profundis amamus
"(...)Não
faz mal abracem-me os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso."
Foi Deus
Desengana-te meu amor, que as paixões não são para ti,
foi Deus que mo disse ao ouvido, no dia em que te vi.
Desengana-te e sossega, não desintegres, nem sufoques.
Foi Deus que me disse que to dissera…
Tu não amas. Tu não sofres.
As paixões são só para escreveres,
foi para isso que nasceste, amor.
Vê que elas são só enganos, mas não penses nisso amor,
por demais ou por de menos
nós já não nos encontramos.
Desengana-te amor, já não há coisas para te fazer chorar.
Deus disse-me que te dissera:
Tens de cair para te levantar.
Disse-me também ao ouvido que não chamasses o seu nome.
Que não amasses por amar,
Que de amor ninguém tem fome.
Não soube o que lhe dizer,
Deus não costumava falar-me de ti...
Disse-lhe então que o chamaria,
que me levantei e amaria, tantas vezes quantas quisesse.
E disse-te eu que lhe disseras:
"Não se preocupe com paixões…
disso eu já me esqueci,
Eu não amo, eu não sofro,
nem eu nunca o conheci."
foi Deus que mo disse ao ouvido, no dia em que te vi.
Desengana-te e sossega, não desintegres, nem sufoques.
Foi Deus que me disse que to dissera…
Tu não amas. Tu não sofres.
As paixões são só para escreveres,
foi para isso que nasceste, amor.
Vê que elas são só enganos, mas não penses nisso amor,
por demais ou por de menos
nós já não nos encontramos.
Desengana-te amor, já não há coisas para te fazer chorar.
Deus disse-me que te dissera:
Tens de cair para te levantar.
Disse-me também ao ouvido que não chamasses o seu nome.
Que não amasses por amar,
Que de amor ninguém tem fome.
Não soube o que lhe dizer,
Deus não costumava falar-me de ti...
Disse-lhe então que o chamaria,
que me levantei e amaria, tantas vezes quantas quisesse.
E disse-te eu que lhe disseras:
"Não se preocupe com paixões…
disso eu já me esqueci,
Eu não amo, eu não sofro,
nem eu nunca o conheci."
Saturday, November 25, 2006
Quando o tempo deixar
Andamos em voltas rectas
Na mesma esfera,
Onde ao menos nos vemos
Porque o fumo passou.
A chuva no chão revela,
Os olhos por trás.
Há que levar o que restou
E o que o tempo queimou.
Tens fios de mais
a prender-te as cordas,
Mas podes vir amanha,
Acreditar no mesmo Deus
Tens riscos demais,
A estragar-te o quadro.
Se queres vir amanha,
Acreditar no mesmo Deus ...
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços..
Andamos em voltas rectas
Na mesma esfera
Mas podes vir amanhã
Se queres vir amanhã
Podes vir amanhã...
Tens riscos de mais
A estragar-me a pedra
Mas se vieres sem corpo
À procura de luz
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços..
Toranja
Na mesma esfera,
Onde ao menos nos vemos
Porque o fumo passou.
A chuva no chão revela,
Os olhos por trás.
Há que levar o que restou
E o que o tempo queimou.
Tens fios de mais
a prender-te as cordas,
Mas podes vir amanha,
Acreditar no mesmo Deus
Tens riscos demais,
A estragar-te o quadro.
Se queres vir amanha,
Acreditar no mesmo Deus ...
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços..
Andamos em voltas rectas
Na mesma esfera
Mas podes vir amanhã
Se queres vir amanhã
Podes vir amanhã...
Tens riscos de mais
A estragar-me a pedra
Mas se vieres sem corpo
À procura de luz
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços..
Toranja
Monday, November 13, 2006
Desassossego
"Já não sei escrever, dizia.
A inimiga dos corações e das vontades corroeram-me a mão e o pensamento.
Tenho frases e desejos e alentos,
tenho nadas e contentamentos,
que não passam da mão para o papel.
Porque deles só sai o teu nome.
Deles só me lembram os fios de mel que correm nos teus olhos,
e as fibras de seda que devem guardar as tuas mãos.
Já não sei escrever, dizia.
Lembrei os nomes dos reis e dos poetas
esqueci entraves e muros e metas...
e deixei a tinta escorrer nas minhas mãos."
A inimiga dos corações e das vontades corroeram-me a mão e o pensamento.
Tenho frases e desejos e alentos,
tenho nadas e contentamentos,
que não passam da mão para o papel.
Porque deles só sai o teu nome.
Deles só me lembram os fios de mel que correm nos teus olhos,
e as fibras de seda que devem guardar as tuas mãos.
Já não sei escrever, dizia.
Lembrei os nomes dos reis e dos poetas
esqueci entraves e muros e metas...
e deixei a tinta escorrer nas minhas mãos."
Sunday, June 18, 2006
Direito por linhas tortas
Gostava de saber para onde foste.
Parece-me que já passou tanto tempo desde o dia que não mais foi dia, e gostava de saber agora como te chamas. Para quem e por que linhas escreves...
Se ainda escreves.
Se ainda te chamas.
Parece-me que perdes letras do teu nome todos os dias, esse acabado que em pouco tempo talvez perca o som por não ter quem o chame. Ou por quem é talvez ganhe, com tantos outros que há ainda a chamarem-te pelo nome que o trocaste.
Eu aqui para ti escrevo, para mim que já não procuro.
Escrevo para dar forma e razão às coisas que não a têm. Para me dar razão a mim e a ti que também já a sabes ter.
Para dar o nome às coisas depois de teres passado e as nombrares, desnombrando-as também para mim.
Ás vezes penso que também a ti te apetece gritar e ao mesmo tempo dizer coisa nenhuma.
Agora escrever pouco vale a pena, poupa-me o gravarem-se no papel coisas que deveriam ter sido ditas e feitas, e embora o cérebro não me deixe e fervilhe correndo mais depressa para o papel contra a vontade da mão, escrevo sem escrever o que quem escreve sabe poder sem esta maldita ilusão.
Parecem-me agora o movimento da mão e as trocas das sinapses incontroláveis, e talvez então escrever no silêncio melhor que dizer nada sobre coisa nenhuma.
Escrever para quem quiser juntar as palavras sem ordem descrita.
Escrever só.
Para mim ou para ti?
Para ninguém.
Escrever por escrever. Não há ordem, não há escrita.
As palavras são como a chuva, assim que caem fundem-se no chão, mas certas delas são também como o vento, porque levam tudo o que estiver à frente com a força e a rapidez de um tufão.
Não fica nada depois das palavras, só o vazio.
Ainda tenho que subir mais um degrau que não chega, faltam ainda três e no final quatro ou dez ou talvez quinhentos. A juventude pode realmente ser entediante e maçadora, já só se querem homens e mulheres feitos, nunca jovens ou crianças.
Um dia talvez acordes e sintas, o quão triste é dormir sozinho em camas grandes.
O dormir sozinho, o domir simplesmente, só. O sentir o tudo entrelaçado no nada.
Não tenho vontade de nada, nem falta de tudo. Tenho um vazio, um oco que ecoa o teu nome nas paredes destas salas que já não têm cores, nas minhas vontades que já não se traduzem. Em todas as coisas que de feridas passaram a tumores.
Pesa...
Cada palavra, cada pensamento.
Mas se há tumores que diminuem gradualmente todos os dias, outros crescem.
O meu não... Já pouco importa.
E não penso mais.
Tampouco te procuro porque voaste.
Porém, aqui ficaram folhas brancas à espera das palavras que me levaste, ou então que lhes desse só tinta. Aqui, nuas e ávidas de letras a beber o suor da minha mão.
E tu, Maldita...
Maldita, Maldita, Maldita.
De tantas asas que tens, bem que podias também voar.
Maldita quantas vezes sejas,
que eu não te posso matar.
Maldita porque de mim tudo queres,
e dos outros tudo desejas.
Maldita tu enfim,
por tudo aquilo que sejas
que dos outros eu não posso, nem te vou poder tirar.
Parece-me que já passou tanto tempo desde o dia que não mais foi dia, e gostava de saber agora como te chamas. Para quem e por que linhas escreves...
Se ainda escreves.
Se ainda te chamas.
Parece-me que perdes letras do teu nome todos os dias, esse acabado que em pouco tempo talvez perca o som por não ter quem o chame. Ou por quem é talvez ganhe, com tantos outros que há ainda a chamarem-te pelo nome que o trocaste.
Eu aqui para ti escrevo, para mim que já não procuro.
Escrevo para dar forma e razão às coisas que não a têm. Para me dar razão a mim e a ti que também já a sabes ter.
Para dar o nome às coisas depois de teres passado e as nombrares, desnombrando-as também para mim.
Ás vezes penso que também a ti te apetece gritar e ao mesmo tempo dizer coisa nenhuma.
Agora escrever pouco vale a pena, poupa-me o gravarem-se no papel coisas que deveriam ter sido ditas e feitas, e embora o cérebro não me deixe e fervilhe correndo mais depressa para o papel contra a vontade da mão, escrevo sem escrever o que quem escreve sabe poder sem esta maldita ilusão.
Parecem-me agora o movimento da mão e as trocas das sinapses incontroláveis, e talvez então escrever no silêncio melhor que dizer nada sobre coisa nenhuma.
Escrever para quem quiser juntar as palavras sem ordem descrita.
Escrever só.
Para mim ou para ti?
Para ninguém.
Escrever por escrever. Não há ordem, não há escrita.
As palavras são como a chuva, assim que caem fundem-se no chão, mas certas delas são também como o vento, porque levam tudo o que estiver à frente com a força e a rapidez de um tufão.
Não fica nada depois das palavras, só o vazio.
Ainda tenho que subir mais um degrau que não chega, faltam ainda três e no final quatro ou dez ou talvez quinhentos. A juventude pode realmente ser entediante e maçadora, já só se querem homens e mulheres feitos, nunca jovens ou crianças.
Um dia talvez acordes e sintas, o quão triste é dormir sozinho em camas grandes.
O dormir sozinho, o domir simplesmente, só. O sentir o tudo entrelaçado no nada.
Não tenho vontade de nada, nem falta de tudo. Tenho um vazio, um oco que ecoa o teu nome nas paredes destas salas que já não têm cores, nas minhas vontades que já não se traduzem. Em todas as coisas que de feridas passaram a tumores.
Pesa...
Cada palavra, cada pensamento.
Mas se há tumores que diminuem gradualmente todos os dias, outros crescem.
O meu não... Já pouco importa.
E não penso mais.
Tampouco te procuro porque voaste.
Porém, aqui ficaram folhas brancas à espera das palavras que me levaste, ou então que lhes desse só tinta. Aqui, nuas e ávidas de letras a beber o suor da minha mão.
E tu, Maldita...
Maldita, Maldita, Maldita.
De tantas asas que tens, bem que podias também voar.
Maldita quantas vezes sejas,
que eu não te posso matar.
Maldita porque de mim tudo queres,
e dos outros tudo desejas.
Maldita tu enfim,
por tudo aquilo que sejas
que dos outros eu não posso, nem te vou poder tirar.
Saturday, June 17, 2006
Saudade
"Saudade é o sentimento vazio do sentir,
Que sente o nada e sente tudo
na ausência do sentir,
sabendo que tu não estás."
Que sente o nada e sente tudo
na ausência do sentir,
sabendo que tu não estás."
Friday, May 26, 2006
Elogio do Amor
Outro para partilhar, para pensar e para opiniar.
Já tinha lido, mas encontrei-o agora publicado no bog do Fernando Alvim, do nosso Miguel Esteves Cardoso.
Que preciosidade... Ninguém poderia ter feito melhor apanhado.
Deu-me para publicar coisas dos outros agora... ok, caso para dizer "quem me dera ter sido eu a escrever", ou qualquer coisa assim, mas este também vale a pena!
Uma leitura obrigatória.
Espero que gostem.
Elogio do Amor
por Miguel Esteves Cardoso
"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas.Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber.
Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.
Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e é mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.
O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática.
O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, banançides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra.
O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".
Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos.
Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.
Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo.
O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. é uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra.
A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina.
O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima.
O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente.
O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessýria. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.
O amor é uma coisa, a vida é outra.
A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.
Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra.
A vida dura a Vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
Já tinha lido, mas encontrei-o agora publicado no bog do Fernando Alvim, do nosso Miguel Esteves Cardoso.
Que preciosidade... Ninguém poderia ter feito melhor apanhado.
Deu-me para publicar coisas dos outros agora... ok, caso para dizer "quem me dera ter sido eu a escrever", ou qualquer coisa assim, mas este também vale a pena!
Uma leitura obrigatória.
Espero que gostem.
Elogio do Amor
por Miguel Esteves Cardoso
"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas.Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber.
Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.
Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e é mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.
O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática.
O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, banançides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra.
O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".
Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos.
Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.
Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo.
O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. é uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra.
A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina.
O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima.
O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente.
O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessýria. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.
O amor é uma coisa, a vida é outra.
A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.
Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra.
A vida dura a Vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
Wednesday, May 24, 2006
Quase
Para partilhar, para pensar... para opinar.
E que tal viver-se sempre no verão em vez de se viver no outono?
Há de haver sempre dias de inverno, todos os temos, mas era bom daqui a muitos anos não se ter a memória apenas cheia de quases mas sim de coisas completas e significativas, quando se tiver efectivamente tempo para pensar, nos dias de inverno que forem chegando e teimarem em não passar.
Viver no verão todo o ano...
Parece-me perfeito, mesmo em dias frios de chuva andar descalço em casa e sentir sempre, nunca deixar que se sinta o nada.
Para não quase se viver, penso essencialmente que há que viver sem "quases" ou sem "meios nadas", para que se vivam e se lembrem sempre mais do que ocos e meios "coisas nenhumas".
E aqui fica.
Quase
Luiz Fernando Verissimo
Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase.
É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.
Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono. Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados.
Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance; para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar a alma.
Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.
Que passem talvez mais depressa os dias de inverno...
E que tal viver-se sempre no verão em vez de se viver no outono?
Há de haver sempre dias de inverno, todos os temos, mas era bom daqui a muitos anos não se ter a memória apenas cheia de quases mas sim de coisas completas e significativas, quando se tiver efectivamente tempo para pensar, nos dias de inverno que forem chegando e teimarem em não passar.
Viver no verão todo o ano...
Parece-me perfeito, mesmo em dias frios de chuva andar descalço em casa e sentir sempre, nunca deixar que se sinta o nada.
Para não quase se viver, penso essencialmente que há que viver sem "quases" ou sem "meios nadas", para que se vivam e se lembrem sempre mais do que ocos e meios "coisas nenhumas".
E aqui fica.
Quase
Luiz Fernando Verissimo
Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase.
É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.
Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono. Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados.
Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance; para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar a alma.
Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.
Que passem talvez mais depressa os dias de inverno...
Sunday, May 21, 2006
Azul memória de Sal
"Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças..." F.P.


E o melhor do mundo são mesmo as crianças.
Basta o olhar de uma delas com aqueles olhos enormes cheios de alma ainda pura que dizem tudo quando parecem dizer apenas nada, para uma alma se lavar da descrença.
Neles onde a inocência é eterna e só o amor cego tem lugar.
Para o Daniel:
O meu olhinhos de sal, sem me dar nada deu-me paz e mostrou-me a inocência.
Tanto... e sem pedir nada. Ainda me custa a creditar como nunca choraste, como nunca estiveste irrequieto e não desviavas os olhos de mim quando me afastava.
Mas ainda mais do que isso nunca me vou esquecer de como simplesmente adormeceste no meu colo.
Alma lavada.
Mas o melhor do mundo são as crianças..." F.P.


E o melhor do mundo são mesmo as crianças.
Basta o olhar de uma delas com aqueles olhos enormes cheios de alma ainda pura que dizem tudo quando parecem dizer apenas nada, para uma alma se lavar da descrença.
Neles onde a inocência é eterna e só o amor cego tem lugar.
Para o Daniel:
O meu olhinhos de sal, sem me dar nada deu-me paz e mostrou-me a inocência.
Tanto... e sem pedir nada. Ainda me custa a creditar como nunca choraste, como nunca estiveste irrequieto e não desviavas os olhos de mim quando me afastava.
Mas ainda mais do que isso nunca me vou esquecer de como simplesmente adormeceste no meu colo.
Alma lavada.
Friday, May 12, 2006
Trova do vento que passa
Nas mais impensáveis ruas podem estar as mais variadas encruzilhadas, casualidades ou fados, destinos ou lembranças. E com tantas mudanças e desmudanças, talvez precisemos mesmo de nos perder para nos tornarmos a encontrar.
"Disse-te adeus e morri, E o cais vazio de ti
Aceitou novas marés.
Gritos de búzios perdidos, O varão dos meus sentidos,
A gaivota que tu és...
Preso no ventre do mar, O meu triste respirar
Sofre a invenção das horas. Pois, na ausência que deixaste,
Meu amor, como ficaste? Meu amor, como demora!"
Perder-me para me encontrar.
Para o que me havia de dar... querer agora ouvir e sentir cantar o Fado.
Venha a marcha e o corrido e o tiro-liro-ló, mais o tiro-liro-liro que este Fado é só dó.
"Que me saiba então perder... pra me encontrar."
"Disse-te adeus e morri, E o cais vazio de ti
Aceitou novas marés.
Gritos de búzios perdidos, O varão dos meus sentidos,
A gaivota que tu és...
Preso no ventre do mar, O meu triste respirar
Sofre a invenção das horas. Pois, na ausência que deixaste,
Meu amor, como ficaste? Meu amor, como demora!"
Perder-me para me encontrar.
Para o que me havia de dar... querer agora ouvir e sentir cantar o Fado.
Venha a marcha e o corrido e o tiro-liro-ló, mais o tiro-liro-liro que este Fado é só dó.
"Que me saiba então perder... pra me encontrar."
Wednesday, May 10, 2006
Braços de Plátano
No momento em que os médicos lhe tinham espetado a agulha dos tubos de soro no braço parecera-lhe ver que as luzes da sala se apagavam. A dor não era muita mas na verdade doía-lhe mais por não saber o que se passava e se sentir cada vez mais fraca. Sentira então as lágrimas escorrerem-lhe livremente pela cara à medida que a agulha entrava mais funda e tentara então lembrar-se da voz dele ao telefone quando lhe tinha ligado há umas horas atrás para lhe dizer que alguma coisa de mal se passava. Ela não sabia o que era mas estava no hospital e sentia que precisava que a mão dele viesse segurar a sua.
Depois de desistir de ligar o telemóvel que continuava morto e de muito insistir, tinham-lhe trazido então as listas telefónicas onde ela acabara por encontrar o número que ligara para pedir, pedir, pedir, por favor que apesar de tudo ele viesse porque ela precisava mesmo dele.
E depois das desculpas, de ter implorado e chorado e voltado a pedir, lembrava-se que ele a descansara e que assim que pudesse tinha dito que ia lá.
A agulha cravava-se-lhe no braço mas agora a sua voz parecia mais forte do que a dor porque ele vinha, ele vinha, e sentira finalmente o corpo relaxar pouco a pouco até a levarem para sala de entrada onde ia ter de ficar até acabar o soro e os médicos voltarem com os exames.
E ali foi ficando deitada até que ao olhar para o lado o vira finalmente entrar pela porta da sala onde estava, deixando-se chorar baixinho até ele lhe segurar a mão com força e a acalmar. Já estava ali, dissera ao olhá-la espantado, talvez por vê-la naquele estado não tinha percebido, mas estava tudo bem, ia ficar tudo bem e ela sabia que sim porque o via no fundo dos seus olhinhos negros e o sentia na sua mão que lhe ia passando pela cara com água para a refrescar da febre.
Ela agarrara então a mão dele com mais força e sorrira, agora já não tinha mais medo com ele ali. E ao encostar a cabeça na almofada fechara os olhos, ainda não tinha dormido nada em 24 horas. Mas a mão dele continuava ali com força entrelaçada na sua. Sorrira de novo, ele sempre que lhe via os olhos abertos sorria também.
- Descansa - dissera-lhe - Eu fico aqui.
E ela confiara. De seguida, ao voltar a fechar os olhos, conseguira finalmente adormecer.
Depois de desistir de ligar o telemóvel que continuava morto e de muito insistir, tinham-lhe trazido então as listas telefónicas onde ela acabara por encontrar o número que ligara para pedir, pedir, pedir, por favor que apesar de tudo ele viesse porque ela precisava mesmo dele.
E depois das desculpas, de ter implorado e chorado e voltado a pedir, lembrava-se que ele a descansara e que assim que pudesse tinha dito que ia lá.
A agulha cravava-se-lhe no braço mas agora a sua voz parecia mais forte do que a dor porque ele vinha, ele vinha, e sentira finalmente o corpo relaxar pouco a pouco até a levarem para sala de entrada onde ia ter de ficar até acabar o soro e os médicos voltarem com os exames.
E ali foi ficando deitada até que ao olhar para o lado o vira finalmente entrar pela porta da sala onde estava, deixando-se chorar baixinho até ele lhe segurar a mão com força e a acalmar. Já estava ali, dissera ao olhá-la espantado, talvez por vê-la naquele estado não tinha percebido, mas estava tudo bem, ia ficar tudo bem e ela sabia que sim porque o via no fundo dos seus olhinhos negros e o sentia na sua mão que lhe ia passando pela cara com água para a refrescar da febre.
Ela agarrara então a mão dele com mais força e sorrira, agora já não tinha mais medo com ele ali. E ao encostar a cabeça na almofada fechara os olhos, ainda não tinha dormido nada em 24 horas. Mas a mão dele continuava ali com força entrelaçada na sua. Sorrira de novo, ele sempre que lhe via os olhos abertos sorria também.
- Descansa - dissera-lhe - Eu fico aqui.
E ela confiara. De seguida, ao voltar a fechar os olhos, conseguira finalmente adormecer.
Monday, May 08, 2006
Tu Nombre
Y entonces cuando ya no aguanto más de la noche que me quita el aire, le pregunto a la mañana que no me deja dormir, como he podido hacerlo todo tan errado cuando lo que sentia era tan cierto, despues de haberlo olvidado todo y aceptado todo y más aún querido todo, despues de tanto tiempo.
Que perdone dios o alguién quizás asi, porque yo a mi no puedo.
Tu Nombre
Trato de escribir en la oscuridad tu nombre. Trato de escribir que te
amo. Trato de decir a oscuras esto.
No quiero que nadie se entere, que nadie me mire a las tres de la mañana paseando de un lado a otro de la estancia, loco, lleno de ti, enamorado. Iluminado, ciego, lleno de ti, derramándote.
Digo tu nombre con todo el silencio de la noche, lo grita
mi corazón amordazado. Repito tu nombre, vuelvo a decirlo, lo digo
incansablemente, y estoy seguro que habrá de amanecer.
J.S.
Que perdone dios o alguién quizás asi, porque yo a mi no puedo.
Tu Nombre
Trato de escribir en la oscuridad tu nombre. Trato de escribir que te
amo. Trato de decir a oscuras esto.
No quiero que nadie se entere, que nadie me mire a las tres de la mañana paseando de un lado a otro de la estancia, loco, lleno de ti, enamorado. Iluminado, ciego, lleno de ti, derramándote.
Digo tu nombre con todo el silencio de la noche, lo grita
mi corazón amordazado. Repito tu nombre, vuelvo a decirlo, lo digo
incansablemente, y estoy seguro que habrá de amanecer.
J.S.
Wednesday, May 03, 2006
...and the answer was in me
The Miseducation of Lauryn Hill
My world it moves so fast today
The past it seems so far away
And I squeeze it so tight, I can't breathe
And every time I try to be
What someone has thought of me
So caught up, I wasn't able to acheive
But deep in my heart the answer it was in me
And I made up my mind to find my own destiny
I look at my environment
And wonder where the fire went
What happened to everything we used to be
I hear so many cry for help
Searching outside of themselves
Now I know His strength is within me
And deep in my heart the answer it was in me
And I made up my mind to find my own destiny
And deep in my heart the answer it was in me
And I made up my mind to find my own destiny
My world it moves so fast today
The past it seems so far away
And I squeeze it so tight, I can't breathe
And every time I try to be
What someone has thought of me
So caught up, I wasn't able to acheive
But deep in my heart the answer it was in me
And I made up my mind to find my own destiny
I look at my environment
And wonder where the fire went
What happened to everything we used to be
I hear so many cry for help
Searching outside of themselves
Now I know His strength is within me
And deep in my heart the answer it was in me
And I made up my mind to find my own destiny
And deep in my heart the answer it was in me
And I made up my mind to find my own destiny
Thursday, April 27, 2006
Flutuo
A praia não tinha areia, nem rochas, nem barulho de gente.
Só imensidão e mar.
A praia não tinha ninguém porque o céu desaparecera fundido com a terra, embalado num invólucro invisível de névoa transparente que tapava e descobria e o caminho que parecia não ter fim sem sequer se dar conta. Mas a água do mar nem sequer parecia estar fria, ia verde e branca, sem cor nem textura e voltava transparente, violentamente gelada contra as rochas e os sulcos de areia que se formavam á beira-mar.
Debaixo dos seus pés não havia areia, caminhava sobre pensamentos de nada como se anda sem andar entre falésias profundas e pensava no nada também, voando com pensamentos transparentes que a água lavava, arrancados de compartimentos que não se reconheciam no corpo e voltava, já sem eles e cheia de nada.
E a areia voava molhada debaixo dos pés, desaparecendo na sua forma pura perto da água, tornando-se seca e deslizante à medida que ao longe se formava uma outra praia cheia de sol e dunas com arbustos esverdeados, esquecida entre as estradas da cidade e do mar, no tempo em que as coisas ainda tinham outros nomes e não eram tocadas por quase ninguém.
Lá ao longe o sol cobria-se com um véu transparente que atenuava os seus raios fortes e ouvia-se o tilintar de conchas contra fios de metal que não se viam suspensos em lado nenhum misturando-se no cheio a alfazema e rosmaninho e no toque de um lenço roxo que ondulava dos braços da miragem de alguém que caminhava ao longe pela praia.
Mas a neblina entretanto também voltava, trazendo aquela água revolta e verde que se desfazia ruidosamente em ondas e se espalhava depois pela areia da praia, como se quisesse gritar para que voltasse consigo. Não se via o horizonte e não se sentia vontade de ver mais do que o que se podia ver, tudo aquilo chegava só misturado com a vontade de ir nadar com a espuma até onde não se pudesse ver mais nada, calmamente embalada nas ondas.
Do longe vinham memórias de palavras e de conversas de mar e de outras que nada tinham a ver com ele e ela lembrara-se então de uma voz que lhe dizia para parar de remar contra a maré quando o mar estivesse agitado, porque como tudo ele também tinha que acalmar:
- Tens de te deixar flutuar. Descansa um bocadinho, é tudo o que precisas de fazer. Quando o mar estiver agitado se não parares de nadar contra a maré e flutuares até ele aclamar, acabas por te afogar pelo cansaço. Flutua e vais ver que quando ele estiver calmo já tens toda a força para nadar.
Mas ela não respondera, o flutuar parecera-lhe lógico mas no fundo não era isso que a preocupava. Depois de começar a tentar flutuar preocupara-se com certas consequências dos processos que tinha decido adoptar há algum tempo e depois de pensar, finalmente dissera:
- Tenho medo de ficar amarga. De ficar indiferente e amargar com essa força toda que tiver para nadar.
- Tu nao vais amargar... E se amargares, lembra-te que mesmo que te tornes num pedaço frio de manteiga só tens de amolecer outra vez. Aí só tens de pedir ajuda a alguém que te acenda o lume quando já estiveres no púcaro para derreter.
- Tu ás vezes dizes umas coisas São...
- Se fôr para te fazer rir digo tudo o que quiseres. Não achas que tenho razão?
- Não sei...
- Então?
- E se fôr tarde?
- Não é. Vais ver que não é. A manteiga derrete sempre se a puseres ao lume, portanto tu também derreterias.
A praia entretanto tomara mil formas e cores e caminhos. Já era aquela praia onde agora estava e também a outra que vira em sonhos havia já muitos anos, bem como tantas outras que tinham preenchido um bocadinho do vazio que ia ficando cheio, uns dias de mar, outros de sal e outros de sol.
Flutuava, mas não só na água, a arte parecia-lhe então ser o conseguir flutuar em todas as superfícies. E ás vezes era dífil mas flutuava, em ar, cimento, água ou imaginação.
Ao longe as conchas continuavam também a tilintar contra fios de metal invisíveis em praias de sonhos de ninguém, trazendo cheiros e memórias antigas embaladas no ar e no vento que ficavam e iam conforme o dia e as correntes do mar.
Flutuo, consigo deslindar o meu gosto sem esforço
Balança é o que a maré me dá e eu não contesto
Amanhã, pensar nisso sempre me dá mais jeito
Fazer de mim pretérito mais que perfeito
Só imensidão e mar.
A praia não tinha ninguém porque o céu desaparecera fundido com a terra, embalado num invólucro invisível de névoa transparente que tapava e descobria e o caminho que parecia não ter fim sem sequer se dar conta. Mas a água do mar nem sequer parecia estar fria, ia verde e branca, sem cor nem textura e voltava transparente, violentamente gelada contra as rochas e os sulcos de areia que se formavam á beira-mar.
Debaixo dos seus pés não havia areia, caminhava sobre pensamentos de nada como se anda sem andar entre falésias profundas e pensava no nada também, voando com pensamentos transparentes que a água lavava, arrancados de compartimentos que não se reconheciam no corpo e voltava, já sem eles e cheia de nada.
E a areia voava molhada debaixo dos pés, desaparecendo na sua forma pura perto da água, tornando-se seca e deslizante à medida que ao longe se formava uma outra praia cheia de sol e dunas com arbustos esverdeados, esquecida entre as estradas da cidade e do mar, no tempo em que as coisas ainda tinham outros nomes e não eram tocadas por quase ninguém.
Lá ao longe o sol cobria-se com um véu transparente que atenuava os seus raios fortes e ouvia-se o tilintar de conchas contra fios de metal que não se viam suspensos em lado nenhum misturando-se no cheio a alfazema e rosmaninho e no toque de um lenço roxo que ondulava dos braços da miragem de alguém que caminhava ao longe pela praia.
Mas a neblina entretanto também voltava, trazendo aquela água revolta e verde que se desfazia ruidosamente em ondas e se espalhava depois pela areia da praia, como se quisesse gritar para que voltasse consigo. Não se via o horizonte e não se sentia vontade de ver mais do que o que se podia ver, tudo aquilo chegava só misturado com a vontade de ir nadar com a espuma até onde não se pudesse ver mais nada, calmamente embalada nas ondas.
Do longe vinham memórias de palavras e de conversas de mar e de outras que nada tinham a ver com ele e ela lembrara-se então de uma voz que lhe dizia para parar de remar contra a maré quando o mar estivesse agitado, porque como tudo ele também tinha que acalmar:
- Tens de te deixar flutuar. Descansa um bocadinho, é tudo o que precisas de fazer. Quando o mar estiver agitado se não parares de nadar contra a maré e flutuares até ele aclamar, acabas por te afogar pelo cansaço. Flutua e vais ver que quando ele estiver calmo já tens toda a força para nadar.
Mas ela não respondera, o flutuar parecera-lhe lógico mas no fundo não era isso que a preocupava. Depois de começar a tentar flutuar preocupara-se com certas consequências dos processos que tinha decido adoptar há algum tempo e depois de pensar, finalmente dissera:
- Tenho medo de ficar amarga. De ficar indiferente e amargar com essa força toda que tiver para nadar.
- Tu nao vais amargar... E se amargares, lembra-te que mesmo que te tornes num pedaço frio de manteiga só tens de amolecer outra vez. Aí só tens de pedir ajuda a alguém que te acenda o lume quando já estiveres no púcaro para derreter.
- Tu ás vezes dizes umas coisas São...
- Se fôr para te fazer rir digo tudo o que quiseres. Não achas que tenho razão?
- Não sei...
- Então?
- E se fôr tarde?
- Não é. Vais ver que não é. A manteiga derrete sempre se a puseres ao lume, portanto tu também derreterias.
A praia entretanto tomara mil formas e cores e caminhos. Já era aquela praia onde agora estava e também a outra que vira em sonhos havia já muitos anos, bem como tantas outras que tinham preenchido um bocadinho do vazio que ia ficando cheio, uns dias de mar, outros de sal e outros de sol.
Flutuava, mas não só na água, a arte parecia-lhe então ser o conseguir flutuar em todas as superfícies. E ás vezes era dífil mas flutuava, em ar, cimento, água ou imaginação.
Ao longe as conchas continuavam também a tilintar contra fios de metal invisíveis em praias de sonhos de ninguém, trazendo cheiros e memórias antigas embaladas no ar e no vento que ficavam e iam conforme o dia e as correntes do mar.
Flutuo, consigo deslindar o meu gosto sem esforço
Balança é o que a maré me dá e eu não contesto
Amanhã, pensar nisso sempre me dá mais jeito
Fazer de mim pretérito mais que perfeito
Flutuo - S. Félix
Monday, April 24, 2006
Changes ;)
Palavra chata... não me sai da cabeça sei lá há quanto tempo.
Mas aqui está, finalmente uma pequena mudança. Como tudo muda, tudo evolui, porque não?
Mais verde que preto, mais branco e colorido que cinzento.
Changes, changes... Why so... Why not???
Espero que gostem :)
Mas aqui está, finalmente uma pequena mudança. Como tudo muda, tudo evolui, porque não?
Mais verde que preto, mais branco e colorido que cinzento.
Changes, changes... Why so... Why not???
Espero que gostem :)
Thursday, April 13, 2006
I'm feeling you...
I'm riding my highs I'm digging my lows
Cause at least I feel alive
I never faced so many emotional days
But life is good
I'm feeling you
I'm feeling me, what the hell with you. Life is short, wake up and live it because nobody stays around to tell the story.
Feel youself because I'm feeling me... and life is good.
I ain't feeling you...
Cause at least I feel alive
I never faced so many emotional days
But life is good
I'm feeling you
I'm feeling me, what the hell with you. Life is short, wake up and live it because nobody stays around to tell the story.
Feel youself because I'm feeling me... and life is good.
I ain't feeling you...
Monday, April 10, 2006
Três dias depois, esperando a meia-noite
Depois de ouvir falar o povo e o erudito, o estudante e o mais ancião, os dialectos do norte, do sul, dos estados litorais, e dos interiores, tinha ouvido as formas mais simples nas festas e lido grandes antologias de poemas e obras épicas, quer no silêncio da casa ou no aconchego dos institutos e auditórios que se abriam às palestras.
No entanto um dia cansara-se de ouvir aquelas palavras naquela língua que tanto tornara tornar sua, enjoara-se e enojara-se da sua pronúncia, da sua falta de espontaneidade ao tentar tornar aquela língua estranha numa língua sua. Desta vez aguentara mais do que tinha imaginado, apaixonara-se efectivamente pelas palavras e pelos ditos mais diversos mas deixara de sentir-lhes sentido e pouco a pouco todas aquelas palavras e sons se lhe tinham tornado ocos e vazios, quer falados, quer escritos.
Três dias depois tinha começado a fazer o luto, esperando sempre pela meia-noite para se congratular por mais um dia em que tinha consigo não chorar, não pensar, não sentir e quase não respirar. Mas apesar de a meia-noite tardar sempre em chegar, naquela noite tinha decidido, depois de muito pensar, tirar apenas mais dois dias para o chorar juntamente com tudo aquilo que perdia, enterrando na mesma tumba os ossos, as memórias e os vocábulos.
Sentara-se então na janela numa noite em que a lua minguava alta e perguntara para o vazio o que lhe parecia se o amasse apenas mais dois dias. Não obtendo resposta decidira que lhe parecia bem e assim ficara durante os dois dias seguintes a soltar lágrimas de ar que não molhavam nem tinham textura, para folhas de papel transparente que voavam com a deslocação da brisa que ia passando.
Passados dois dias de se ter sentado à janela, ao chegar da meia-noite olhara para cima e para o vazio, e dissera apenas:
- Já não te amo mais.
E levantara-se, soprara levamente as folhas de papel que ainda não tinham voado, transformando-as em nada, como se nelas soprasse todas as suas memórias, enterrando-as no esquecimento, com todos os sons, as texturas e as imagens, naquele vazio, sem raiva. No nada.
No dia seguinte, não tinha esperado a meia-noite, quando vira as horas já era demasiado tarde para recordar e também para esquecer.
No entanto um dia cansara-se de ouvir aquelas palavras naquela língua que tanto tornara tornar sua, enjoara-se e enojara-se da sua pronúncia, da sua falta de espontaneidade ao tentar tornar aquela língua estranha numa língua sua. Desta vez aguentara mais do que tinha imaginado, apaixonara-se efectivamente pelas palavras e pelos ditos mais diversos mas deixara de sentir-lhes sentido e pouco a pouco todas aquelas palavras e sons se lhe tinham tornado ocos e vazios, quer falados, quer escritos.
Três dias depois tinha começado a fazer o luto, esperando sempre pela meia-noite para se congratular por mais um dia em que tinha consigo não chorar, não pensar, não sentir e quase não respirar. Mas apesar de a meia-noite tardar sempre em chegar, naquela noite tinha decidido, depois de muito pensar, tirar apenas mais dois dias para o chorar juntamente com tudo aquilo que perdia, enterrando na mesma tumba os ossos, as memórias e os vocábulos.
Sentara-se então na janela numa noite em que a lua minguava alta e perguntara para o vazio o que lhe parecia se o amasse apenas mais dois dias. Não obtendo resposta decidira que lhe parecia bem e assim ficara durante os dois dias seguintes a soltar lágrimas de ar que não molhavam nem tinham textura, para folhas de papel transparente que voavam com a deslocação da brisa que ia passando.
Passados dois dias de se ter sentado à janela, ao chegar da meia-noite olhara para cima e para o vazio, e dissera apenas:
- Já não te amo mais.
E levantara-se, soprara levamente as folhas de papel que ainda não tinham voado, transformando-as em nada, como se nelas soprasse todas as suas memórias, enterrando-as no esquecimento, com todos os sons, as texturas e as imagens, naquele vazio, sem raiva. No nada.
No dia seguinte, não tinha esperado a meia-noite, quando vira as horas já era demasiado tarde para recordar e também para esquecer.
What type of writer should you be?
Não resisti a estes mini-quizz que se juntam aos blogs, especialmente um desta natureza...Mesmo pela brincadeira gostei do resultado. Será?!Para quem gostar de escrever, fica aqui o link. Atrevam-se a descobrir ;)
| You Should Be A Poet |
![]() You craft words well, in creative and unexpected ways. And you have a great talent for evoking beautiful imagery... Or describing the most intense heartbreak ever. You're already naturally a poet, even if you've never written a poem. |
Saturday, April 08, 2006
A quem dou
Afinal ainda sei muito pouco do amor e da amizade mas o bom mesmo é aprender. Um dia, dois dias, todos os dias.
E desmisturando dois assuntos que não eram para ser misturados deixo umas frases duma música que não me sai da cabeça, que acho que juntamente com a desilusão, despoletou metade do post anterior:
"O que faço faço bem, não tenho montes de coisas que montes de gente tem... são as experiências são as pessoas, são as vivências que transformam as vidas simples em vidas boas...
Vive o que tens não vivas nada dos outros... O que importa não é o telemóvel mas o que está do outro lado, o que importa não é o automóvel, mas quem está lá sentado... Já que o mundo é de consumo, consome com atenção...
A vida é um livro, escreve a tua página."
Dispensando explicações, é mesmo assim que me sinto.
E a outra parte do post que foi uma misturada pretendia somente agradecer certas atitudes, atenções e certas coisas que me dizem os verdadeiros amigos que ás vezes podem parecer não significar nada mas fazem uma pessoa andar de outra maneira.
Acho que estou a começar a aprender a dar valor às coisas. Importa quem está e não quem esteve ou queria ter estado, ou não pode pseudo-estar.
Está quem quer, quem quis estar e quem não se esqueçe de estar.
"Y les doy
las palabras y los signos
El valor de haber vivido
lo debil de mi razon.
Y les dejo
la aparencia, el desencanto
las ganas de andar gritando
que no está muerto quien va
desafiando la mentira
revelando su estatura
Del brazo con los demás..."
E desmisturando dois assuntos que não eram para ser misturados deixo umas frases duma música que não me sai da cabeça, que acho que juntamente com a desilusão, despoletou metade do post anterior:
"O que faço faço bem, não tenho montes de coisas que montes de gente tem... são as experiências são as pessoas, são as vivências que transformam as vidas simples em vidas boas...
Vive o que tens não vivas nada dos outros... O que importa não é o telemóvel mas o que está do outro lado, o que importa não é o automóvel, mas quem está lá sentado... Já que o mundo é de consumo, consome com atenção...
A vida é um livro, escreve a tua página."
Dispensando explicações, é mesmo assim que me sinto.
E a outra parte do post que foi uma misturada pretendia somente agradecer certas atitudes, atenções e certas coisas que me dizem os verdadeiros amigos que ás vezes podem parecer não significar nada mas fazem uma pessoa andar de outra maneira.
Acho que estou a começar a aprender a dar valor às coisas. Importa quem está e não quem esteve ou queria ter estado, ou não pode pseudo-estar.
Está quem quer, quem quis estar e quem não se esqueçe de estar.
"Y les doy
las palabras y los signos
El valor de haber vivido
lo debil de mi razon.
Y les dejo
la aparencia, el desencanto
las ganas de andar gritando
que no está muerto quien va
desafiando la mentira
revelando su estatura
Del brazo con los demás..."
Wednesday, April 05, 2006
Oh yeah the grass is green, but can you tell me, can you FEEL it???
Será que é efectivamente tempo de andar para frente, de largar o que está a mais... Nunca me pareceu que a bagagem fosse demasiadamente pesada para conseguir carrega-la, nem me tinha visto ficar sem força até ao dia em que me apercebi que esse peso podia ser supérfulo por não ser exactamente meu para carregar, ou simplesmente por não valer a pena agarrar-me a ele com todas as forças para nunca o deixar cair.
“Não o carregues se não fôr teu e não te agarres a ele porque um dia vais-te aperceber que já está tão pesado que vais deixar cair tudo de uma vez...”
Mas talvez seja hora de olhar para o lado e ver o que está a mais e o que está a menos.
Haverá tanto bom como mau?
Apoio, Preocupação, Carinho, Amor, Apoio, Preocupação, Fraternidade... onde parece haver tão pouco mas significa tanto...
E do outro lado...
Festas, Festas, Roupas, Tretas, Festas, Roupas, Revistas, Festas... onde há tanto e no fim não significa nada.
Aparência...
Falta de paciência!
“Ai devia ter comprado aquele casaco dourado que estava à venda na Bershka igual ao que trazia a Pimpinha Jardim na capa da Caras. Assim já me deixavam entrar no Lux...”
- Oh pá, mas o Lux na sexta estava lindo... Só social, vocês não viram?
Os amigos são a coisa mais importante do mundo, mais importantes que os namorados e os amantes porque são aqueles que sempre estiveram e sempre estarão. Há que conservá-los bem, porque dói não ser conservado e os namorados ou amantes tanto vêm como vão. E um dia se forem, pode já não se ter o bem precioso e aparentemente inesgotável da amizade ao nosso lado para nos apoiar. Tal como tantas outras coisas a amizade também se esgota e também se esvai.
- Então e como é que estás?
- Não sei... ando meia perdida nisto, não sei o que fazer. Acho que assim não vai lá... Já não sei nada... O que é que eu faço?
- Pois, tens de ver isso. Eu acho que tens de fazer o que achares melhor... Ah mas é verdade, noutro dia tava a entrar na Zara e vi lá uma mala preta, bem linda. Pá mas não sei se compre, ainda tava a ver aqueles óculos que vi da Vogue... O Vítor disse que mos dava pos anos, mas não sei...
Aparência... Falta de Paciência...
Os amigos são a coisa mais importante da vida. Com quem vou falar ou quem vou ouvir amanhã? Quem... Os que valem a pena.
- Não te preocupes... as escolhas que tiveres de fazer fazes na altura certa. E não te quero ver assim. Olha trago-te aqui o jornal da Sociedade Portuguesa de Poetas. Assim que receber vamo-nos lá inscrever, prometido! Eu tenho é de ter tempo para escrever.. Tu tens escrito?
Mais qualidade que quantidade,
Mais realidade que aparência,
Mais verdade que mentira,
Mais sentimento que utilização por conveniência.
Mais sorrisos e risos que lágrimas ou suspiros.
E então será tempo de andar para a frente?
Sentir ou não sentir? Viver ou não viver?
Open up your heart, what do you feel… World hold on…
“E trocavas isso tudo pelo fácil?”
- Agora com toda a certeza: NÃO.
I can feel it, can you feel it?
“Não o carregues se não fôr teu e não te agarres a ele porque um dia vais-te aperceber que já está tão pesado que vais deixar cair tudo de uma vez...”
Mas talvez seja hora de olhar para o lado e ver o que está a mais e o que está a menos.
Haverá tanto bom como mau?
Apoio, Preocupação, Carinho, Amor, Apoio, Preocupação, Fraternidade... onde parece haver tão pouco mas significa tanto...
E do outro lado...
Festas, Festas, Roupas, Tretas, Festas, Roupas, Revistas, Festas... onde há tanto e no fim não significa nada.
Aparência...
Falta de paciência!
“Ai devia ter comprado aquele casaco dourado que estava à venda na Bershka igual ao que trazia a Pimpinha Jardim na capa da Caras. Assim já me deixavam entrar no Lux...”
- Oh pá, mas o Lux na sexta estava lindo... Só social, vocês não viram?
Os amigos são a coisa mais importante do mundo, mais importantes que os namorados e os amantes porque são aqueles que sempre estiveram e sempre estarão. Há que conservá-los bem, porque dói não ser conservado e os namorados ou amantes tanto vêm como vão. E um dia se forem, pode já não se ter o bem precioso e aparentemente inesgotável da amizade ao nosso lado para nos apoiar. Tal como tantas outras coisas a amizade também se esgota e também se esvai.
- Então e como é que estás?
- Não sei... ando meia perdida nisto, não sei o que fazer. Acho que assim não vai lá... Já não sei nada... O que é que eu faço?
- Pois, tens de ver isso. Eu acho que tens de fazer o que achares melhor... Ah mas é verdade, noutro dia tava a entrar na Zara e vi lá uma mala preta, bem linda. Pá mas não sei se compre, ainda tava a ver aqueles óculos que vi da Vogue... O Vítor disse que mos dava pos anos, mas não sei...
Aparência... Falta de Paciência...
Os amigos são a coisa mais importante da vida. Com quem vou falar ou quem vou ouvir amanhã? Quem... Os que valem a pena.
- Não te preocupes... as escolhas que tiveres de fazer fazes na altura certa. E não te quero ver assim. Olha trago-te aqui o jornal da Sociedade Portuguesa de Poetas. Assim que receber vamo-nos lá inscrever, prometido! Eu tenho é de ter tempo para escrever.. Tu tens escrito?
Mais qualidade que quantidade,
Mais realidade que aparência,
Mais verdade que mentira,
Mais sentimento que utilização por conveniência.
Mais sorrisos e risos que lágrimas ou suspiros.
E então será tempo de andar para a frente?
Sentir ou não sentir? Viver ou não viver?
Open up your heart, what do you feel… World hold on…
“E trocavas isso tudo pelo fácil?”
- Agora com toda a certeza: NÃO.
I can feel it, can you feel it?
Wednesday, March 01, 2006
Todo Cambia
Apeteceu-me.. de Julio Numhauser, interpretada pela grande Mercedes Sosa, mostra que assim como eu mudo tudo muda, porque não mudamos todos, porque não muda o mundo? Eu sim quero mudar, hoje e todos os dias.
Não muda o meu amor por quem o mereçe, por quem o quer, por quem o não esqueçe. Não muda o meu amor pelo meu país, não muda o meu amor pelo meu amor, pelo que mudou hoje nem pelo que mudará amanhã. Em 30 anos, quem sabe, em trinta vidas, trinta amores. Há coisas que mudam e outras não.
E isto não muda.
Todos cambiamos... Cambia, yo tambien puedo cambiar.
Todo Cambia
Cambia lo superficialCambia también lo profundoCambia el modo de pensarCambia todo en este mundoCambia el clima con los añosCambia el pastor su rebañoY así como todo cambiaQue yo cambie no es extrañoCambia el más fino brillanteDe mano en mano su brilloCambia el nido el pajarilloCambia el sentir un amanteCambia el rumbo el caminanteAunque esto le cause dañoY así como todo cambiaQue yo cambie no es extrañoCambia, todo cambiaCambia, todo cambiaCambia el sol en su carreraCuando la noche subsisteCambia la planta y se visteDe verde en la primaveraCambia el pelaje la fieraCambia el cabello el ancianoY así como todo cambiaQue yo cambie no es extrañoPero no cambia mi amorPor mas lejos que me encuentreNi el recuerdo ni el dolorDe mi tierra y de mi genteY lo que cambió ayerTendrá que cambiar mañanaAsí como cambio yoEn esta tierra lejana.
Mercedes Sosa – 30Años
Não muda o meu amor por quem o mereçe, por quem o quer, por quem o não esqueçe. Não muda o meu amor pelo meu país, não muda o meu amor pelo meu amor, pelo que mudou hoje nem pelo que mudará amanhã. Em 30 anos, quem sabe, em trinta vidas, trinta amores. Há coisas que mudam e outras não.
E isto não muda.
Todos cambiamos... Cambia, yo tambien puedo cambiar.
Todo Cambia
Cambia lo superficialCambia también lo profundoCambia el modo de pensarCambia todo en este mundoCambia el clima con los añosCambia el pastor su rebañoY así como todo cambiaQue yo cambie no es extrañoCambia el más fino brillanteDe mano en mano su brilloCambia el nido el pajarilloCambia el sentir un amanteCambia el rumbo el caminanteAunque esto le cause dañoY así como todo cambiaQue yo cambie no es extrañoCambia, todo cambiaCambia, todo cambiaCambia el sol en su carreraCuando la noche subsisteCambia la planta y se visteDe verde en la primaveraCambia el pelaje la fieraCambia el cabello el ancianoY así como todo cambiaQue yo cambie no es extrañoPero no cambia mi amorPor mas lejos que me encuentreNi el recuerdo ni el dolorDe mi tierra y de mi genteY lo que cambió ayerTendrá que cambiar mañanaAsí como cambio yoEn esta tierra lejana.
Mercedes Sosa – 30Años
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