No momento em que os médicos lhe tinham espetado a agulha dos tubos de soro no braço parecera-lhe ver que as luzes da sala se apagavam. A dor não era muita mas na verdade doía-lhe mais por não saber o que se passava e se sentir cada vez mais fraca. Sentira então as lágrimas escorrerem-lhe livremente pela cara à medida que a agulha entrava mais funda e tentara então lembrar-se da voz dele ao telefone quando lhe tinha ligado há umas horas atrás para lhe dizer que alguma coisa de mal se passava. Ela não sabia o que era mas estava no hospital e sentia que precisava que a mão dele viesse segurar a sua.
Depois de desistir de ligar o telemóvel que continuava morto e de muito insistir, tinham-lhe trazido então as listas telefónicas onde ela acabara por encontrar o número que ligara para pedir, pedir, pedir, por favor que apesar de tudo ele viesse porque ela precisava mesmo dele.
E depois das desculpas, de ter implorado e chorado e voltado a pedir, lembrava-se que ele a descansara e que assim que pudesse tinha dito que ia lá.
A agulha cravava-se-lhe no braço mas agora a sua voz parecia mais forte do que a dor porque ele vinha, ele vinha, e sentira finalmente o corpo relaxar pouco a pouco até a levarem para sala de entrada onde ia ter de ficar até acabar o soro e os médicos voltarem com os exames.
E ali foi ficando deitada até que ao olhar para o lado o vira finalmente entrar pela porta da sala onde estava, deixando-se chorar baixinho até ele lhe segurar a mão com força e a acalmar. Já estava ali, dissera ao olhá-la espantado, talvez por vê-la naquele estado não tinha percebido, mas estava tudo bem, ia ficar tudo bem e ela sabia que sim porque o via no fundo dos seus olhinhos negros e o sentia na sua mão que lhe ia passando pela cara com água para a refrescar da febre.
Ela agarrara então a mão dele com mais força e sorrira, agora já não tinha mais medo com ele ali. E ao encostar a cabeça na almofada fechara os olhos, ainda não tinha dormido nada em 24 horas. Mas a mão dele continuava ali com força entrelaçada na sua. Sorrira de novo, ele sempre que lhe via os olhos abertos sorria também.
- Descansa - dissera-lhe - Eu fico aqui.
E ela confiara. De seguida, ao voltar a fechar os olhos, conseguira finalmente adormecer.
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