Thursday, April 27, 2006

Flutuo

A praia não tinha areia, nem rochas, nem barulho de gente.
Só imensidão e mar.
A praia não tinha ninguém porque o céu desaparecera fundido com a terra, embalado num invólucro invisível de névoa transparente que tapava e descobria e o caminho que parecia não ter fim sem sequer se dar conta. Mas a água do mar nem sequer parecia estar fria, ia verde e branca, sem cor nem textura e voltava transparente, violentamente gelada contra as rochas e os sulcos de areia que se formavam á beira-mar.
Debaixo dos seus pés não havia areia, caminhava sobre pensamentos de nada como se anda sem andar entre falésias profundas e pensava no nada também, voando com pensamentos transparentes que a água lavava, arrancados de compartimentos que não se reconheciam no corpo e voltava, já sem eles e cheia de nada.
E a areia voava molhada debaixo dos pés, desaparecendo na sua forma pura perto da água, tornando-se seca e deslizante à medida que ao longe se formava uma outra praia cheia de sol e dunas com arbustos esverdeados, esquecida entre as estradas da cidade e do mar, no tempo em que as coisas ainda tinham outros nomes e não eram tocadas por quase ninguém.
Lá ao longe o sol cobria-se com um véu transparente que atenuava os seus raios fortes e ouvia-se o tilintar de conchas contra fios de metal que não se viam suspensos em lado nenhum misturando-se no cheio a alfazema e rosmaninho e no toque de um lenço roxo que ondulava dos braços da miragem de alguém que caminhava ao longe pela praia.
Mas a neblina entretanto também voltava, trazendo aquela água revolta e verde que se desfazia ruidosamente em ondas e se espalhava depois pela areia da praia, como se quisesse gritar para que voltasse consigo. Não se via o horizonte e não se sentia vontade de ver mais do que o que se podia ver, tudo aquilo chegava só misturado com a vontade de ir nadar com a espuma até onde não se pudesse ver mais nada, calmamente embalada nas ondas.
Do longe vinham memórias de palavras e de conversas de mar e de outras que nada tinham a ver com ele e ela lembrara-se então de uma voz que lhe dizia para parar de remar contra a maré quando o mar estivesse agitado, porque como tudo ele também tinha que acalmar:
- Tens de te deixar flutuar. Descansa um bocadinho, é tudo o que precisas de fazer. Quando o mar estiver agitado se não parares de nadar contra a maré e flutuares até ele aclamar, acabas por te afogar pelo cansaço. Flutua e vais ver que quando ele estiver calmo já tens toda a força para nadar.
Mas ela não respondera, o flutuar parecera-lhe lógico mas no fundo não era isso que a preocupava. Depois de começar a tentar flutuar preocupara-se com certas consequências dos processos que tinha decido adoptar há algum tempo e depois de pensar, finalmente dissera:
- Tenho medo de ficar amarga. De ficar indiferente e amargar com essa força toda que tiver para nadar.
- Tu nao vais amargar... E se amargares, lembra-te que mesmo que te tornes num pedaço frio de manteiga só tens de amolecer outra vez. Aí só tens de pedir ajuda a alguém que te acenda o lume quando já estiveres no púcaro para derreter.
- Tu ás vezes dizes umas coisas São...
- Se fôr para te fazer rir digo tudo o que quiseres. Não achas que tenho razão?
- Não sei...
- Então?
- E se fôr tarde?
- Não é. Vais ver que não é. A manteiga derrete sempre se a puseres ao lume, portanto tu também derreterias.
A praia entretanto tomara mil formas e cores e caminhos. Já era aquela praia onde agora estava e também a outra que vira em sonhos havia já muitos anos, bem como tantas outras que tinham preenchido um bocadinho do vazio que ia ficando cheio, uns dias de mar, outros de sal e outros de sol.
Flutuava, mas não só na água, a arte parecia-lhe então ser o conseguir flutuar em todas as superfícies. E ás vezes era dífil mas flutuava, em ar, cimento, água ou imaginação.
Ao longe as conchas continuavam também a tilintar contra fios de metal invisíveis em praias de sonhos de ninguém, trazendo cheiros e memórias antigas embaladas no ar e no vento que ficavam e iam conforme o dia e as correntes do mar.


Flutuo, consigo deslindar o meu gosto sem esforço
Balança é o que a maré me dá e eu não contesto
Amanhã, pensar nisso sempre me dá mais jeito
Fazer de mim pretérito mais que perfeito


Flutuo - S. Félix

Monday, April 24, 2006

Changes ;)

Palavra chata... não me sai da cabeça sei lá há quanto tempo.
Mas aqui está, finalmente uma pequena mudança. Como tudo muda, tudo evolui, porque não?
Mais verde que preto, mais branco e colorido que cinzento.
Changes, changes... Why so... Why not???
Espero que gostem :)

Thursday, April 13, 2006

I'm feeling you...

I'm riding my highs I'm digging my lows
Cause at least I feel alive
I never faced so many emotional days
But life is good
I'm feeling you


I'm feeling me, what the hell with you. Life is short, wake up and live it because nobody stays around to tell the story.
Feel youself because I'm feeling me... and life is good.
I ain't feeling you...

Monday, April 10, 2006

Três dias depois, esperando a meia-noite

Depois de ouvir falar o povo e o erudito, o estudante e o mais ancião, os dialectos do norte, do sul, dos estados litorais, e dos interiores, tinha ouvido as formas mais simples nas festas e lido grandes antologias de poemas e obras épicas, quer no silêncio da casa ou no aconchego dos institutos e auditórios que se abriam às palestras.
No entanto um dia cansara-se de ouvir aquelas palavras naquela língua que tanto tornara tornar sua, enjoara-se e enojara-se da sua pronúncia, da sua falta de espontaneidade ao tentar tornar aquela língua estranha numa língua sua. Desta vez aguentara mais do que tinha imaginado, apaixonara-se efectivamente pelas palavras e pelos ditos mais diversos mas deixara de sentir-lhes sentido e pouco a pouco todas aquelas palavras e sons se lhe tinham tornado ocos e vazios, quer falados, quer escritos.
Três dias depois tinha começado a fazer o luto, esperando sempre pela meia-noite para se congratular por mais um dia em que tinha consigo não chorar, não pensar, não sentir e quase não respirar. Mas apesar de a meia-noite tardar sempre em chegar, naquela noite tinha decidido, depois de muito pensar, tirar apenas mais dois dias para o chorar juntamente com tudo aquilo que perdia, enterrando na mesma tumba os ossos, as memórias e os vocábulos.
Sentara-se então na janela numa noite em que a lua minguava alta e perguntara para o vazio o que lhe parecia se o amasse apenas mais dois dias. Não obtendo resposta decidira que lhe parecia bem e assim ficara durante os dois dias seguintes a soltar lágrimas de ar que não molhavam nem tinham textura, para folhas de papel transparente que voavam com a deslocação da brisa que ia passando.
Passados dois dias de se ter sentado à janela, ao chegar da meia-noite olhara para cima e para o vazio, e dissera apenas:
- Já não te amo mais.
E levantara-se, soprara levamente as folhas de papel que ainda não tinham voado, transformando-as em nada, como se nelas soprasse todas as suas memórias, enterrando-as no esquecimento, com todos os sons, as texturas e as imagens, naquele vazio, sem raiva. No nada.
No dia seguinte, não tinha esperado a meia-noite, quando vira as horas já era demasiado tarde para recordar e também para esquecer.

What type of writer should you be?

Não resisti a estes mini-quizz que se juntam aos blogs, especialmente um desta natureza...Mesmo pela brincadeira gostei do resultado. Será?!Para quem gostar de escrever, fica aqui o link. Atrevam-se a descobrir ;)

You Should Be A Poet

You craft words well, in creative and unexpected ways.
And you have a great talent for evoking beautiful imagery...
Or describing the most intense heartbreak ever.
You're already naturally a poet, even if you've never written a poem.

Saturday, April 08, 2006

A quem dou

Afinal ainda sei muito pouco do amor e da amizade mas o bom mesmo é aprender. Um dia, dois dias, todos os dias.
E desmisturando dois assuntos que não eram para ser misturados deixo umas frases duma música que não me sai da cabeça, que acho que juntamente com a desilusão, despoletou metade do post anterior:
"O que faço faço bem, não tenho montes de coisas que montes de gente tem... são as experiências são as pessoas, são as vivências que transformam as vidas simples em vidas boas...
Vive o que tens não vivas nada dos outros... O que importa não é o telemóvel mas o que está do outro lado, o que importa não é o automóvel, mas quem está lá sentado... Já que o mundo é de consumo, consome com atenção...
A vida é um livro, escreve a tua página."
Dispensando explicações, é mesmo assim que me sinto.
E a outra parte do post que foi uma misturada pretendia somente agradecer certas atitudes, atenções e certas coisas que me dizem os verdadeiros amigos que ás vezes podem parecer não significar nada mas fazem uma pessoa andar de outra maneira.
Acho que estou a começar a aprender a dar valor às coisas. Importa quem está e não quem esteve ou queria ter estado, ou não pode pseudo-estar.
Está quem quer, quem quis estar e quem não se esqueçe de estar.

"Y les doy
las palabras y los signos
El valor de haber vivido
lo debil de mi razon.

Y les dejo
la aparencia, el desencanto
las ganas de andar gritando
que no está muerto quien va
desafiando la mentira
revelando su estatura
Del brazo con los demás..."

Wednesday, April 05, 2006

Oh yeah the grass is green, but can you tell me, can you FEEL it???

Será que é efectivamente tempo de andar para frente, de largar o que está a mais... Nunca me pareceu que a bagagem fosse demasiadamente pesada para conseguir carrega-la, nem me tinha visto ficar sem força até ao dia em que me apercebi que esse peso podia ser supérfulo por não ser exactamente meu para carregar, ou simplesmente por não valer a pena agarrar-me a ele com todas as forças para nunca o deixar cair.
“Não o carregues se não fôr teu e não te agarres a ele porque um dia vais-te aperceber que já está tão pesado que vais deixar cair tudo de uma vez...”
Mas talvez seja hora de olhar para o lado e ver o que está a mais e o que está a menos.
Haverá tanto bom como mau?
Apoio, Preocupação, Carinho, Amor, Apoio, Preocupação, Fraternidade... onde parece haver tão pouco mas significa tanto...
E do outro lado...
Festas, Festas, Roupas, Tretas, Festas, Roupas, Revistas, Festas... onde há tanto e no fim não significa nada.
Aparência...
Falta de paciência!
“Ai devia ter comprado aquele casaco dourado que estava à venda na Bershka igual ao que trazia a Pimpinha Jardim na capa da Caras. Assim já me deixavam entrar no Lux...”
- Oh pá, mas o Lux na sexta estava lindo... Só social, vocês não viram?
Os amigos são a coisa mais importante do mundo, mais importantes que os namorados e os amantes porque são aqueles que sempre estiveram e sempre estarão. Há que conservá-los bem, porque dói não ser conservado e os namorados ou amantes tanto vêm como vão. E um dia se forem, pode já não se ter o bem precioso e aparentemente inesgotável da amizade ao nosso lado para nos apoiar. Tal como tantas outras coisas a amizade também se esgota e também se esvai.
- Então e como é que estás?
- Não sei... ando meia perdida nisto, não sei o que fazer. Acho que assim não vai lá... Já não sei nada... O que é que eu faço?
- Pois, tens de ver isso. Eu acho que tens de fazer o que achares melhor... Ah mas é verdade, noutro dia tava a entrar na Zara e vi lá uma mala preta, bem linda. Pá mas não sei se compre, ainda tava a ver aqueles óculos que vi da Vogue... O Vítor disse que mos dava pos anos, mas não sei...
Aparência... Falta de Paciência...
Os amigos são a coisa mais importante da vida. Com quem vou falar ou quem vou ouvir amanhã? Quem... Os que valem a pena.
- Não te preocupes... as escolhas que tiveres de fazer fazes na altura certa. E não te quero ver assim. Olha trago-te aqui o jornal da Sociedade Portuguesa de Poetas. Assim que receber vamo-nos lá inscrever, prometido! Eu tenho é de ter tempo para escrever.. Tu tens escrito?
Mais qualidade que quantidade,
Mais realidade que aparência,
Mais verdade que mentira,
Mais sentimento que utilização por conveniência.
Mais sorrisos e risos que lágrimas ou suspiros.
E então será tempo de andar para a frente?
Sentir ou não sentir? Viver ou não viver?
Open up your heart, what do you feel… World hold on…
“E trocavas isso tudo pelo fácil?”
- Agora com toda a certeza: NÃO.
I can feel it, can you feel it?