Showing posts with label Cá de dentro. Show all posts
Showing posts with label Cá de dentro. Show all posts

Saturday, October 03, 2009

Havia mais quem mos desse... E já sonhei demasiado tempo contigo.

Fui a Fátima deixar umas velas, pedir uma coisa e falar Contigo.
Não preciso de lá ir, porque falo Contigo onde quer que esteja, sob que forma estejas, quando acho que tenho e preciso de falar.
Mas fui lá deixar umas velas, tinha prometido.
Surpreendentemente, quando o faço acabo sempre por pedir por alguém especial, por alguém que no momento que calha lá ir me está a pesar demasiado no coração e por quem sinto que tenho que pedir.
Por essa pessoa a quem quero tanto, e por mim... para aliviar o peso.
Desta vez deixei uma vela por ti pai. Sim por ti. Deixei uma vela e pedi por ti, pela tua saúde, felicidade e outras coisas que tais, ao mesmo tempo que assumi que te perdoava por tudo, hoje e todos os restantes dias da minha vida.
Sim, perdoei-te. Acabou.
Esperei que isso me desse alguma sensação de alívio, pedi por outras pessoas, por outras coisas mais, acho que tentei deixar ali parte do peso que levava.
Mas não, não me pareceu ter sentido absolutamente nada diferente do que sentia antes.
Curioso é que agora quando parei e me sentei em casa, depois de mais de 400kms e desta viagem a sabe-se lá onde... percebi finalmente o que mudou.
É que só agora vi que não pedi por Ti... Não pedi por ti porque simplesmente nem me lembrei de pedir. E isso sim era o que me pesava no coração. Tu.
Ao contrário do que seria de esperar de mim, que tenho por norma seguir sempre o mesmo padrão de acções, verifico que desta vez foi diferente. Completamente diferente.
Porque eras tu que me pesavas, e eu não me lembrei de pedir por ti.
Parece então que pedi pela pessoa que menos merecia, mas por aquela que precisava perdoar. Perdoà-lo a ele e perdoar-me a mim. Não vale a pena andar a remoer no que não tem solução, porque solucionado está.
E ja que estamos nisto, estás tu perdoado também, e eu, uma vez mais.
Para a próxima vou-me lembrar de pedir por ti, noutros moldes, naqueles que devem ser pedidos como têm que ser.
Nem me lembrei... E tantos anjos ali à volta...
Desculpa.
Mas acho que isso é bom, a partir de agora não me lembrar...
Acho que é assim... como deve de ser.

Thursday, April 30, 2009

Zen

E será que não era mesmo disto que eu precisava?





Pouco foi dito ou pensado. Nada meu.
Ocorreu-me, perguntei, li, confirmei e pensei... Porque não?
Uns dias para acertar pontos, sem second thoughts, nem bem nem mal ou será ques.
Quando entrei disse pouco, o essencial talvez, diriam eles no seu sentido prático.
Pouco perguntei, também não sei se queria ou sequer precisava de saber muito.
Já passando ao outro lado pelos corredores ao ar livre, a sala que encontrei parecia ser feita de luz, mas não daquela que cega a vista, daquela que preenche e acalma a beleza dos olhos.
Cheirava a incenso e em surdina ouviam-se acordes de instrumentos orientais a circular pela sala, mas sem ocupar espaço, nem incomodar como se nem estivessem ali, apenas a preencher a envolvência da luz e do ar.

Suspensos do tecto estavam longos panos brancos que esvoaçavam ao fresco a dividir o que não se via nem ouvia porque ali tudo estava na mais perfeita calma e no mais perfeito silêncio.
Parei quase ao fundo e entrei.


Mandaram-me despir, deitar e relaxar. Mas relaxada já eu estava, desde que ali tinha entrado até que saí.

Ainda me pergunto como foi possível passar mais de três horas sem pensar em absolutamente nada. Nem é que não tivesse pensado porque pensei, mas não houve nenhum pensamento que viesse e me incomodasse ou me perturbasse.
Todos vieram e voltaram como se fizessem parte da luz, do som e dos cheiros que envolviam aquela sala.
Mas foi depois da massagem que começou tudo.









Nas costas... Sim nas costas.

E quando sairam das costas............







"...tu tens é essa tua cabeça muito cheia de coisas...
vamos já tratar de a esvaziar."


E esvaziou.

Nas costas, nas mãos, nos pés, no peito, nas pernas, na cabeça, em todo o lado, por todo o lado e para todo o lado... sem eu conseguir ter qualquer tipo de controlo, ainda que tivesse desesperadamente tentado, veio tudo sem eu saber de onde.

Depois, passado um tempo e algumas agulhas mais ficou uma sensação de calma.

Nunca, mas nunca senti nada assim.

Fechei e abri os olhos tantas vezes, mas apesar de os ter abertos sentia como se os tivesse fechados, de tal que era a plenitude e a calma que rondava por ali.

Nem sei bem porquê. É daquelas coisas... Mas fez-me qualquer coisa de bem que não sentia há mesmo muito tempo aqui dentro.

Quando saí, saí mais leve e senti-me assim, tal como mo haviam descrito.

A questão é... Como raio é que não pensei nisto há mais tempo?
Também não interessa. Para a semana há mais.


Disto :)




Friday, April 24, 2009

Falta aqui qualquer coisa...

Falta.
Falta.me.

Falta-me o ar.
O chão.
Tem dias.
Mas falta.
Parece que o tempo não passa, mas passou.
E agora teima em não querer passar.

Sim, falta aqui qualquer coisa.
Mas daí talvez seja e só tenha sido... just a dirty little secret.
now there's just some awkward trouble breathing.
sometimes. too many t....


Friday, April 03, 2009

Vou partir

Talvez Quinta-Feira seja mesmo dia de teatro. De literatura. De artes. Já não o sabia, nem me lembrava, porque talvez tenha escolhido não querer saber. É sempre mais fácil.
Mas afinal ainda sei, e é. Efectivamente, dia de cheiro a páginas de livros por abrir, das tintas envelhecidas dos quadros expostos nos museus e do pó bafiento das cortinas dos teatros. Dia de luz, treva, cores, sons e sabores do que vai preenchendo os espaços vazios sedentos de conforto, de saber e de cumplicidade.
Atirei-me de cabeça a visitar o Al Berto durante A Noite entre os lustres e mármores do velho D. Maria II. E encontrei-o bem. Vivo. Apesar de estar morto, nas vozes e nos gestos de outros corpos que não o seu e que o trazem bem vivo à minha memória.
Acabou por ser um encontro de mestres, estudantes, académicos, colegas e actores, naquele mundo que tinha deixado na prateleira há já alguns anos atrás, num qualquer dia de qualquer ano mas agora com hora marcada, no mesmo átrio do lugar que veio trazer a cultura a ser partilhada.
Com isto houve um doce segundo em que me sentei a beber café na varanda do teatro e ao observar os corredores e as pessoas que passavam viajei um segundo que fosse e reservei-me a reviver um bocadinho daquilo que deixei atrás...
Tomei umas quantas decisões, durante todo o santo dia e depois, quando acordei da minha viagem. Vou voltar a estudar e não há obstáculo que me detenha até onde quero chegar. Onde preciso de chegar. Tenho sede das salas e dos livros, fome das conversas e das dissertações.
E de ter juízo, disso lembro-me, tenho quilos de fome.
Mas as cortinas da varanda esvoaçaram e tudo naquele momento se apagou.


A varanda iluminava toda a sala com as luzes provenientes da praça do Rossio, das fontes, da cidade adormecida e abandonada que tinha vindo cair ali naquele preciso momento. Convidava-a a que ficasse, mas ao espreitar mais a luz que vinha do outro lado das portas de vidro, viu Virginia Woolf sentada num das poltronas antigas do teatro, com o seu tabuleiro de folhas brancas e a caneta torta que ia molhado apressadamente no tinteiro.
Num movimento calmo, quase em câmara lenta, passara as portas e sentara-se no chão ao seu lado enquanto a ouvia murmurar as palavras que ia entrelaçando noutras palavras, de que tirava as frases confusas em que se viajava nos seus livros. Como se um sonho se tratasse à luz da voz da consciência que ela trazia sem sequer saber bem de onde. "To the lighthouse"... Seria? Poderia ser, mas sem conseguir ouvir bem o que ela dizia, porque o murmurava como se estivesse em transe à medida que os sentidos comunicavam com a mão que deslizava as letras para a folha de papel.
Aproximara-se para conseguir ler, ela nem se dera conta da sua aproximação, nem a via. O estranho passara a inacreditável, quase sublime:
"- Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself... I think I'll buy the flowers myself...You cannot find peace by avoiding life, Leonard..."
- Cortei o meu longo cabelo loiro. De uma só tesourada. De uma vez só.
Não me serve de nada, já. Sendo que não é ele que me traz valor, que me dá seja o que fôr, então que o corte. Assim talvez me possa sentar à mesa daqueles homens e participar ou saber, entender que seja, podendo por segundos ser com eles eu homem também.
Não preciso de festas, de fatos e combinações. De batalhar nada com ninguém. Esgotam-se-me as aparências, os dizeres de boca em boca, os fretes, a falta de consciência. As indecisões e sinuosidades da vida mundana... -

" - Dear Leonard. To look life in the face, always, to look life in the face and to know it for what it is. At last to know it, to love it for what it is, and then, to put it away.
Leonard, always the years between us, always the years. Always the love. Always the hours.
You cannot find peace by avoiding life, Leonard.
Love, Virginia."

Não... Era Mrs. Dalloway que Virgínia Woolf escrevia.
Deixara-a. Ouvira vozes animadas no andar de cima, a varanda ainda a convidara a ficar, mas a viagem ia já demasiado avançada.
A meio das escadas encontrara Shakespeare, eufórico a descer o corrimão enquanto balbuciava trechos de canções das suas peças e uma ou outra fala de certas personagens, maravilhado com o leque de pessoas que o rodeavam sem efectivamente o verem, na esperança de conseguir material para uma nova peça.
Ao olhar para trás, vira no fundo da escadaria Tennyson que o olhava com ar de reprovação, como se de uma criança pequena se tratasse, ao vê-lo descer pelo corrimão e voltar a subir, entrelaçando-se entre os casais de mão dada em busca de traços que apontava numas folhas amarrotadas de papel que se apressava a tirar do bolso.
Ao cima das escadas, num átrio escondido atrás de um conjunto de colunas ao redor da pequena mesa de centro estavam sentados Lincoln, Thoreau, Jefferson, Washington, Emerson, Whitman e Roosevelt, que discutiam ainda as raízes e fundações da sua nação arrefecida, as escolhas, as filosofias a que tinham ido beber os seus princípios para as mentalidades que pareciam agora tão deturpadas.
Falava-se dos índios, das guerras e das opções que lhes tinham custado vidas e mortes. Das coisas que tinham vindo dar voltas ao povo que agora se contorcia na amálgama de buracos negros em que tinha caído. Ninguém sabia de quem era a culpa, os argumentos eram muitos e a discussão seguia acesa, cada um com a visão do seu próprio tempo. Falava-se de indiferença, de engano e de valores.
Emerson, no entanto, falava do mundo que deveria ver-se peça a peça, o sol, a lua, os animais, as árvores e que o todo em que todas estas partes brilhavam como um só era a alma. A alma que todos pareciam ter esquecido.
John Kenneny não tinha podido comparecer, não era seu hábito mas as costas não lhe tinham perdoado naquele dia e Jackie tinha insistido para que ficasse em casa ao invés de participar do que chamava as tertúlias filosóficas ou reuniões políticas dos amigos.
Do outro lado da sala, Lord Byron fumava calmamente uma cigarrilha de baunilha, sentado no parapeito da Janela, enquanto recitava versos para a lua que Neruda ia compilando, traduzindo-os imediatamente para espanhol. Simplesmente sublime de observar.
Cá em baixo no Jardim de Inverno Octávio Paz, Sabines, Vargas Llosa, Miguel Angél Asturias e Júlio Cortázar trocavam ideias, atiravam linhas de poemas que se dissipavam no ar como fumo, entre um ou outro bafo de cachimbo. De vez em quando gritavam bocas aos americanos. Barbaridades dizia-se que diziam, outras vezes assentiam simplesmente com a cabeça, entreolhavam-se com ar de acerto e respeito e talvez uma ponta de admiração. Era raro. Mas dessas vezes não gritavam, não diziam nada. Lá em cima eles saberiam que era um sinal de apreço.
Depressa voltavam às linhas inquietas dos seus poemas, às actualidades das suas nações hispano-americanas, sem dar muita importância aos americanos que lá bem no fundo consideravam uns brutos, exploradores de ouro, desprovidos de uma ponta sequer de humanidade. Mas isso era no antes. Agora reuniam-se todos, davam apertos de mão vigorosos e trocavam ideias sobre os trabalhos de cada qual, ao sabor do whisky e dos charutos do final da noite.
Pessoa entrava e saia inquieto. Coisas do ópio talvez. Coisas da vida. Comentava com Paz, ajoelhado ao seu lado na cadeira. Onde andará… Onde andará? Voltando novamente a sair. Ninguém sabia o que procurava mas também ninguém parecia muito preocupado em ajudá-lo a encontrar. Mas ele entrava e voltava novamente a sair da sala com o livro debaixo do braço e olhava esperançado para Paz enquanto dizia incomodado que era uma estupidez, tudo. Uma loucura. Paz olhava-o confuso e encolhia os ombros, sem saber do que falava.
- Tenho que me deixar disto Octávio. Já não tenho idade nem cabeça para estas coisas... E o Mário já chegou velho amigo? Tenho uns poemas para lhe mostrar. Hoje não tenho assunto a discutir com nenhum de vós. Ando incansável e inconsequentemente à procura de uma coisa que não encontro e hoje não estou dado a politiquices ou tão pouco versices se é que se pode dizer assim. No teu portunhol lá me entenderás... É que anda aí outro poeta, um como nós que escreve sem lhe saber de onde. Al Berto parece-me. Tenho que lhe dar uma palavrinha com o Mário que só está cá hoje. Digno de mérito o tal sujeito mas já não é do nosso tempo. Entretanto deixo-vos, o Mário não chega e tenho umas aguardentes a pagar lá em baixo no Martinho. Ainda não perdi a esperança de encontrar aquilo que perdi pelo caminho. Talvez um deles chegue enquanto vou e venho.
Deixara-os entregues cada um a seu assunto, aos seus charutos e ao seu whisky, passando apressadamente pela escadaria de onde Shakespeare tinha caído e Tennyson se ria cá em baixo com todas as forças que tinha.

Foi então que o vi, sentado atrás do cortinado que dava acesso a um dos camarotes daquele andar.
No colo tinha um livro e na mão um copo de Whisky com pouco gelo como era seu hábito.
Aproximei-me sem me querer fazer notar apenas para observar o que fazia, não podia acreditar que tinha estado ali sentado todo aquele tempo, com toda aquela comoção do lado de fora da sala.
- Sei que estás aí, já te vi - disse. Vieste ver o espectáculo foi? Eles não falam de mim, sabes. Falam de coisas que pensam ter sido a minha vida e dizem-nas entrelaçadas nos meus textos e nos meus poemas, como se de uma simples historieta se tratasse.
- Eu sei. Quer dizer não sei, ainda não vi. Mas sei que não podiam falar de si...
- De ti. Falar de ti. Trata-me por tu. Nunca gostei dessas coisas não era agora depois de morto.
- Mas como é que... eles não me vêm e você... desculpa tu.
- É daquelas coisas. Já te tinha visto por aí a olhar para eles, eles é que ainda não me viram, é conforme lhes apetece. O Pessoa até quer falar comigo, nem sei de quê, ele já viu a peça, não traz nada de novo, basta ler o que escrevi todos estes anos e nunca ninguém leu ou deu o devido valor, só agora e nem assim entendem.
- Era para se entender que escrevias?
- Era eu, só. Quem entendesse que quisesse. Que tirassem de lá o que fosse para tirar. Eu sempre escrevi livremente e vivi de igual forma também, mas eu sei que tu sabes disso.
- Sei, ainda me lembro de si.. de ti. um dia, que nos cruzámos muito rapidamente.
- Deveria dizer-te que não lesses os meus poemas. Era mais sensato.
- Devo dizer-te então que não consigo deixar de os ler. Antes deixasse de fazer tantas outras coisas e fosse mais sensata.
- E devias. Não de ler, mas de deixar. És sensata, mas ainda és muito nova para essas coisas, eu lembro-me de ti quando ainda eras nova ainda... mas há coisas que se sabem sempre. E eu sei que tu sabes. Há coisas que nunca mudam, por mais que nos digam ou nos tentem enganar.
- Eu sei e vou.
- Então anda vai, já estão a fechar as portas da sala, depois não entras.
- Mas há tantas coisas que lhe quero perguntar…
- Eu sei, mas não há tempo, nem hora.
- E eles?
- Ficam por aí…
- E tu?
- Ficamos todos, eu também. Sei o que me queres perguntar, mas posso dizer-te que hoje lhes troquei os textos. Sabia que vinhas cá. Procura a Carta da Flor do Sol, eles dizem-na para ti… "Vou partir". Sei que é o teu preferido.
- Eu também vou... partir. Obrigada. É mesmo o meu preferido.
- Até um dia.
- Até um dia...


“vou partir
como se fosses tu que me abandonasses
o último sonho que tive era estranho
via o fundo límpido duma rua estreita
que desembocava num largo iluminado
havia leões empalhados nos passeios em areia solta
já não me lembro bem
parece que uma mulher avançava com um envelope na mão
estendia-mo e gritava
mas eu não conseguia perceber
insultava-me muito provavelmente
tinha a cara escondida por um pano branco bordado
apenas via a sua boca enorme abrir-se
e furiosamente engolir a púrpura do ar
que envolvia as cabeças reclinadas dos leões
ouvia o buzinar nervoso dos carros
exactamente como se ouvem agora
mas não conseguia vê-los
depois
um rapaz apareceu a uma esquina e reconheci-te
uma voz gravada na memória acompanhava-nos
quando nos dirigimos um para o outro
em câmara lenta
ouvíamo-la sussurrar: procuro-te
no interior as penumbras no esquecido sal
das casas abandonadas à beira-mar
procuro-te no perfume excessivo do mel
armazenado pelas abelhas no entardecer das pálpebras
vem
mergulha as mãos no troco das árvores
suspende a noite da longa viagem
estás a naufragar
o espelho quebrou-se e tu já não reconheces as paisagens
o corpo estilhaçou-se...


tinhas a cara mascarada com sangue quando a voz silenciou
a mulher ria
eu corria para ti sem conseguir alcançar-te
sentei-me na cama
veio-me do fundo da idade o momento em que nos conhecemos
resolvi levantar-me a meio da noite e escrever-te esta carta

sabes
por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço ás mãos da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam guardado o sabor do teu corpo.

....

caminhamos em direcções opostas
ou melhor
eu caminho enquanto tu não existes.”


Al Berto (1948 – 1997)

O Medo - Antologia 1974 - 1997
23 anos de obra com 23 meus de vida


Obrigada, Al Berto.

Monday, March 30, 2009

Hoje lembrei-me...

...que escrever é confessar-se.


Estranhamente as palavras têm-me escorrido das pontas dos dedos todos os dias, parecendo que nascem das minhas unhas gravitadas para o papel, ou simplesmente desse movimento frenético que arrepia a pele da ponta dos dedos à medida que me sobe pelo braço, com o bater vertiginoso das teclas do computador.
O cérebro não acompanha, não consegue.
É aqui que se distingue perfeitamente a debilidade da cabeça, da razão se assim o quiserem, em acompanhar aquilo que os sentidos mandam sem pedir permissão.
Eu por mim confessava tudo. Desde a ponta do cabelo mais longo até ao limite da unha do pé.
Hoje, inesperada e insanamente apeteceu-me fazer uma loucura.
Uma daquelas loucuras do antigamente, a uma segunda-feira à noite, nem mais, simplesmente porque sim.
Loucamente... Apeteceu-me ir fazer corridas com o vento na auto-estrada, pinos e trapézios por trás das ruas e dos muros onde passeiam os gatos vadios, jogar ao toca e foge com duas amigas de longa data, pensar de menos e sentir demais.
Mas lembrei-me que a realidade é outra e que tenho andado a dormir acordada.
Sonhar acordada, perdão. Mas a verdade, essa é que não gosto de sonhar a dormir, por isso ando a dormir acordada, sem saber onde ando a dormir, nem sequer onde estou acordada. Tal como não se consegue acordar de um sonho ou de um pesadelo, é igualmente impossível acordar de um sonho que se tem acordado.
Experimentem querer decidir. Não acordam.
O sonho vai até onde ele próprio quer, deixando apenas que se acorde quando ele achar que deve ser.
Mas não, não fiz nenhuma loucura.
Sentei-me a deixar que as palavras escorressem para onde e como quisessem.

Já gastei a minha parte de loucura desta década, fiquei a dever-lhe uns quantos contos de reis, mas ela sabe que não lhe posso pagar e por isso não me procura. Como não gosto de ficar a dever nada a ninguém, fizémos um acordo, eu não a uso e ela não me cobra.
No entanto, não me consegue garantir ninguém que ela não me use a mim e ainda por cima me cobre.
Mas dizem que a realidade é outra.
E a loucura não cobra escrever coisas nobres, mas desprovidas de sentido. Deve-me fazer bem escrever barbaridades. E pensá-las também.
O que se tem não se deve deixar transbordar, é um desperdício. Acaba por ser uma pena.
Mas confesso-me noutro dia.

Escrevo só... já te pedi tantas vezes e tu nunca me ouves.
Não vejo para quê confessar-me...



Thursday, March 19, 2009

"Balada para os nossos filhos"...






"¿En que lugar, en donde, a que deshoras me dirás que te amo?
Esto es urgente porque la eternidad se nos acaba..."


Sei que ainda rebola cá dentro um certo... rancorzinho, vá.
Mas felizmente muita coisa mudou. Em tanta coisa.
Por isso, e sendo que aqui vai mais um:
Que tenha sido Feliz.
Até que foi e talvez um dia, um dia quem sabe.
Eu espero. Ou pelo menos tento aceitar.
Mas a eternidade, nem essa... dura para sempre.

Monday, September 22, 2008

Encontro com o Fado...



















"Pega-se em metade do oceano
E juntam-se-lhe terras desconhecidas
Deixa-se marinar alguns anos
E tapa-se com um manto de neblina
Lavam-se as saudades em lágrimas
E põe-se a glória em banho maria
Para voltar a usar um dia
À parte coloca-se o Fado bem apurado
O futebol bem jogado
E um ou outro pregão
Das entranhas gritado.
Desfaz-se a língua em poemas, odes e cantigas
Ou então canta-se à desgarrada, rima improvisada

Numa grande forma de barro escalda-se o Algarve e o Alentejo
Salgam-se as Beiras
E desfaz-se em àgua o Douro e o Ribatejo
Para terminar abanam-se as oliveiras
Com sabedoria ancestral
Rega-se tudo com um fio dourado
E serve-se assim Portugal
Como prato principal..."



















Senti saudades de dizer, que te Amo Portugal...
E porque penso que aquilo que se sente deve dizer-se, hoje simplesmente senti que to devia dizer, Portugal.
Sei que não to digo tanto porque ás vezes sinto que tanto te amo como te odeio. E apesar de por vezes me esquecer, sei que tu o sabes e que te agradeço por todas as vezes que te deixo, por ao voltar conseguir amar-te ainda mais.
O que te amo e me amo devolve-me todos estes encontros, contigo no meio de todos e no meio de ninguém. Com o fado e com a vida. Com todos os lugares que levo dentro, com todas as pessoas que me deste a conhecer, todo o léxico que me ensinaste, as canções que me cantaste, e a comida que me cozinhaste.
Foi na cidade que me criaste, mas foi na serra e nas praias que te conheci e sei que é entre as nascentes do norte e nos caminhos, sobre as pedras cobertas de musgo, nas vielas das sete colinas, no mar, no fado e nos pratos que deixas sobre a mesa, que te escondes Portugal.
Hás de realizar tantos sonhos comigo... Hás de ver todas as coisas que me prometi porque se já cumpri tantas, todas as outras que já te contei em segredo não ficarão seguramente por cumprir. Amo-te porque me amo mais a mim. Porque não me deixas ir embora mesmo que queira e se levo em mim já tanto do mundo e tanta vontade, tu trazes-me sempre de volta e mostras-me ainda mais de mim do que consigo imaginar.
Amo-te e outra vez mais digo que te e que me amo, e confesso ainda que te odeio por ás vezes saber que te quero tanto.
Porque mesmo sabendo que não te hei de amar sempre sozinha, ás vezes este meu coração enche-se de amor por ti e por tudo o que me deste e que me trazes.
Se se enche de tanto e consegue ainda amar-te outro tanto, um dia não há de amar-te sozinho.
Como te prometi, em prato principal.
Amo-te tanto.

Amo-te... Portugal.

Saturday, September 06, 2008

Acho que te estamos a perder...

Olho para ti e percebo o que queres. Porque gemes e porque ás vezes também gritas e choras. De raiva, e tristeza. Do tempo que sabes que já te escasseia.

Por vezes quase não te consigo reconhecer dos dias em que ainda era menina, mas quando te olho mesmo do fundo, sem que estejas a ver que te observo sei que és tal e qual a pessoa que sempre foste, embora te vejas agora tão diferente.

Acho que não é ser egoísta mas ás vezes só desejo que te vás aguentando mais um bocadinho.

Porque tenho medo.
E mais medo ainda que por te perder a ti, perca os dois quase de uma vez...

Nem sei... só sei que me custa nunca saber o que fazer, o que dizer e por vezes nem saber o que sentir..

Mas hoje soube ao ouvir-te e ao olhar para ti... E foi aí que percebi e senti finalmente, que aos pouquinhos te estamos mesmo a perder.

Monday, August 11, 2008

Flying...

Se perguntarem por mim, digam que voei...

Thursday, July 24, 2008

Ojos de Mariposa - Encuentro con Frida Kahlo

E assim simpesmente acabada de chegar ao México, tive um encontro imediato com Frida Kahlo. No carro lembrei-me de perguntar: "Bem e deve haver por aqui muitas coisas relativas a Frida Kahlo, não? Ela nasceu na Cidade do México, gostava muito de poder ver alguma coisa que se relacionasse com ela."
Daí respondem-me que sim, na Cidade do México há todo um espólio de coisas suas, os quadros até a casa onde viveu com Diego Rivera.
Bem, na Cidade do México, pensei, de onde tinha acabado de sair há um dia e meio e onde nada mais tinha estado que um dia e meio. Talvez na volta quando já regresse para ir para o aeroporto consiga chegar até ela...



















Nisto, ao estacionarmos o carro en San Miguel de Allende, aparece um rapaz que nos dá pequenos panfletos a anunciar uma exposição e diz: "Oigan, disculpenme, si les gusta Frida Khalo? Pues acá tenemos una exposicíon de sus cartas y de los dibujos que hizo en hojas de loteria, toda una colleción de sus sentimientos, de su enfermed y de la política Mexicana. Ahí está, como a 10 cuadras derecho, por la calle Jesús.
E eu só pensei... Calle Jesús... Me persigue o qué?
Bem de qualquer forma não podia ser mais perfeito. Nada mais de que chegar e pensar e logo me encontro com ela.
Aí mesmo na Calle Jesús estava então uma colecção enorme da maior parte das cartas e dos pensamentos que deixou sobre o seu marido Diego Rivera, bem como os seus pensamentos, visões políticas do México da altura e as suas preocupações com a doença que a consumia.
Pois aí encontrei palavras escritas com ordem e se ordem, numa ordem que realmente não é para que tenha ordem. Palavras bonitas bonitas e feitas, palavras duras e desesperadas.
Nada mais do que palavras escritas para se tirasse qualquer coisa de dentro que pesasse, e desenhos onde vi que captavam a sua confusão na ordem que tentava encontrar no meio do seu desespero. "Olhos de mariposa", diziam que tinha. Porque através deles podia ver tudo e mesmo que não tivesse as suas asas, podia realmente chegar a todo o lado, embora estivesse emocionalmente presa a Diego e fisicamente presa a uma cadeira de rodas.


Gostei muito. Gostei da ordem que me deu a mim e aos meus pensamentos, sentidos através dos seus.
É sempre bom ter oportunidade de ler o que vai na alma de quem pinta, já recebemos emoções através das imagens que nos deixaram, assim que as recebamos igualmente por ler o que lhes vai na alma.
Gostei como sei agora que gostaria de poder ver alguma vez desenhos e pinturas de Virgínia Woolf. Apesar de nos seus livros quase se conseguir ver as imagens que descreve, seria maravilhoso poder ver essas imagens saídas da sua alma, desenhadas pela sua própria mão.
Um dia, quem sabe...
Acho que vamos ter mais bons encontros as duas.
Afinal não foi assim tão díficil encontrá-la.

E assim vos deixo com ela: Ojos de Mariposa...


Tuesday, July 22, 2008

Lo impressionante es que todo es impressionante - Mi Mexico lindo y Querido finalmente ya ;)

Pues pasa que despues que llegué me dijéron... "Todo pasa por algo".
Todo pasa porque tiene que pasar, asi deja que pase.
Hay un dicho Mexicano que dice:

"Si no te toca, aunque te pongas, si te toca, aunque te quites"

Así que, a ver si deveras me encuentro con este señor Benjamin Lara, con lo que me cruzé en una calle de San Miguel de Allende.




Dicen que es "El Quita Penas" y bueno, a ver si voy para que le pida que me quite la mia. Auque despues que me pase dos meses acá, si creo que la pena se me vá quitar sola...
Y como no?!












De ahí en verdad estuve tan cerca, pero aún asi realmente tan lejos. Casi se te ven los ojos pero no, la verdad no se te ve nada...


Bueno y la tierra sigue girando :)
Mientras eso yo voy disfrutando México!!!

Thursday, July 17, 2008

A million miles away...


Secret Garden*

She'll let you in her house
If you come knockin' late at night
She'll let you in her mouth
If the words you say are right
If you pay the price
She'll let you deep inside

But there's a secret garden she hides

She'll let you in her car
To go drivin' round
She'll let you into the parts of herself
That'll bring you down
She'll let you in her heart
If you got a hammer and a vise

But into her secret garden, don't think twice

You've gone a million miles
How far'd you get
To that place where you can't remember
And you can't forget

She'll lead you down a path
There'll be tenderness in the air
She'll let you come just far enough
So you know she's really there

She'll look at you and smile
And her eyes will say
She's got a secret garden

Where everything you want

Where everything you need

Will always stay.



*Secret Garden,
B. Springsteen

Wednesday, July 16, 2008

Packing

Malas feitas.
É verdade, nem parece meu que ando sempre a correr em alto stress com tudo para fazer à última hora.
Escolhi uma mala pequena. Ao contrário das malas enormes que levei a primeira vez para o Canadá. Pequena porque quero ir leve e voltar ainda mais leve. Para não ter a tentação de levar muita tralha que me deixe acomodar, quase como que a querer que fique.
Consegui deixar gavetas cheias e o guarda-vestidos bem compostinho. Deixei ainda tudo tratado e igualmente bem resolvido.
Assim tenho tempo para me despedir de todos e aproveitar bem o tempo que me resta por aqui. Para uns últimos convívios, umas últimas salsas e especialmente umas últimas kizombas. No México não se dança kizomba e isso é do que mais devo sentir falta.. hahahaha e não só está claro!!! A familía, os amigos...

Deixo para trás o que não faz falta e levo comigo o que vale a pena. Apesar do rebuliço de emoções, levo calma interior e levo ainda um orgulhozinho assim pequenino, dos poucos anos que tenho em cima e do tanto de bom que eles já levam dentro para contar. Do que ainda vem e que eu vou buscar nem que seja ao fim do mundo.
Para trás das costas deixo o que não tem remédio, as lições aparecem quando o universo sabe que ainda não apendemos tudo. Pensava que tinha aprendido, mas parece que alguma coisa me fez esquecer disso pelo caminho.
No entanto acho que desta vez é de vez. Deitei fora os papéis, as notas e as recordações. Os pensamentos velhos, os dramas e as mágoas antigas. Já que este é definitivamente um daqueles novos ciclos, sei que não me fazem falta, nem agora nem nunca mais. Porque preciso de espaço para novas. Sem espaço nada chega e sei que ainda há muito por chegar!

"Let the old go to make new come."

É já amanhã, 10.25 AM!
Até à volta, e um beijo a todos :)

Tuesday, July 15, 2008

Sarau EDSAE 2008

Foi assim...



















Depois de semanas de treinos, preocupações, ensaios, stress. Muuuuuitoooo stress... finalmente sábado depois das seis da tarde já podia respirar de alívio.
Chegámos em cima da hora e com uma data de contratempos pelo caminho, mas lá estávamos todos juntos apesar da confusão, como se fossemos realmente para uma peça em plena Broadway :)

Mas depois... Depois é que foi a hora da verdade...
Os nervos misturados na excitação. Sabia a coreografia de trás para a frente e dessa vez os sapatos não iam escorregar.
Apesar do ensaio ter sido simplesmente horrível, pisei o palco e esqueci-me de onde estava. Ouvi o pessoal lá de trás gritar por mim no começo. Tinham dito que iam ser piores que a claque da Elsa no Salsito. Hehe.. Nervos... Depois da parte inicial, rodei o braço e esbocei um daqueles sorrisos, enquanto pensei "vou curtir molho disto"... Simplesmente acreditei, sei que não foi perfeito mas foi o meu melhor, e isso é que sabe à vida! Daí em frente foi só sugar o momento...
E que momento :)

Pelos que estiveram, pelo ambiente e a dedicação de todos!
Pela festa, pela cor, pelo apoio e pela animação. Foi um misto de tudo.
O jantar foi a loucura e a festa demais. Foi dançar até os pés já não caberem nos sapatos, e atenção que eles alargaram. No dia seguinte andar era mentira, mas valeu a pena cada momento.
E aos colegas...
Muito obrigado, e até Setembro!


Sunday, July 13, 2008

Descompressão














E depois... é uma tampa que se abre quando outra finalmente se fecha.
E que deixa sair tudo, quando descobrimos que dentro havia demais.

Friday, July 11, 2008

Quem diria...

Faço o balanço da primeira metade do ano e vejo já que tem sido um daqueles anos com muita glória. De descobertas e conquistas e sobretudo de crescimento pessoal; de muitos melhoramentos. É para isso que acordo e luto todos os dias.
Não sei porém quem havia de dizer que seria uma quase centena de meninos pequeninos que havia de me dar tanto Norte, que havia de me ensinar tanta coisa sobre mim própria. Coisas que eu não pensava exsitirem, quanto mais serem possíveis.
Sei que estou mais que grata por esta oportunidade que me foi dada e grata pela determinação e pela força de não a ter desperdiçado.
Assim depois de tudo o que vi, de realidades que nada tinham a ver com a minha, sei que nada disso é o essencial mas sim a forma como olhamos e lidamos com o que nos rodeia. E quem melhor para nos ensinar sobre os sentimentos do que as crianças?
Agora levo comigo as suas histórias, os seus carinhos, as suas palhaçadas, os castigos, as faltas de educação, mas sobretudo levo os seus sorrisos que apareceram para reforçar o meu, seja para onde fôr.
Depois disto e de tudo o que vem de trás sei que todas as conquistas são possíveis e que ainda há muito para conquistar.

Obrigado, por tudo o que me ensinaram.









Thursday, July 10, 2008

Saudade

Hoje quando assinei a entrada do correio e me pediram que escrevesse a data parei um momento.
Só percebi quando repeti o dia.
Faz agora um mês.

Saturday, July 05, 2008

Só me apetece...



Arrepia-me... Sempre.
Parece que dilacera qualquer coisa cá dentro de tão bonito, mas tão triste que é.
Era só isso que queria, que dos olhos pudesse absorver a beleza, a nobreza do que por vezes se sente e não sabemos simplesmente nem porquê, nem de onde vem.

Mas torna-se triste, faz querer ...

Friday, July 04, 2008

Estranha forma de vida

Escrevemos porque ninguém nos ouve, parece-me perfeito.
Escrevemos porque falar chega a ser demasiado difícil, demasiado real. Demasiado doloroso.
Até um ponto.
E escrevemos quando dói demais porque quem está à nossa volta não se apercebe, nem parece querer aperceber-se de nada nem de coisa nenhuma.
Quando falta, falta muito, de muita coisa, e acaba por se tornar em tudo que esperamos desesperadamente que não se torne no nada.
Os dias passam... E escrevemos, para que não seja tarde. Escrevemos porque quando dói até as palavras parecem não fazer sentido.
Só até um ponto.
Depois nem a escrita alivia.
E é preciso alguma coisa. Alguma coisa que seja.
Para que não seja tarde demais.

Thursday, July 03, 2008

Hasta el más allá del todo, por la sangre y por los huesos...

Deixara-se cair pesadamente sobre a cama. Era tarde. Passava pouco da uma da manhã mas sentia como se tivesse acabado de chegar a casa de madrugada.
O cabelo ainda lhe cheirava a um qualquer fruto que não conseguia identificar mas não a framboesa como lhe era habitual. Gostava do habitual, mas a mudança era sempre boa, quando para melhor. Porém, nem sempre era perceptível de quando a mudança era realmente para melhor, como naquele caso.
Parecia-lhe inacreditável, inconcebível. Entre o cansaço e a amálgama de pensamentos que lhe corriam como um filme de takes desordenados no tecto do quarto, entranhava-se-lhe o cheiro do cabelo e o perfume que levava na roupa. Lembranças. Tudo ao mesmo tempo, tudo sem tempo, no tempo, sem querer tempo, desculpas de tempo, e tempos, desfazados.
E perguntava-se, para quê? Só se conseguia perguntar, mas afinal para quê?
Sentia vontade de dar pontapés a todas as pedras do caminho, a todas as ditas pedras que lhe haviam dito que guardasse. Parecia que o castelo ruía um bocadinho todos os dias, assim a frase não fazia sentido. Era demasiado difícil continuar a construir uma coisa que parecia desmoronar-se tão facilmente.
Mas não podia ter fraquezas, não lhe tinham dado esse luxo, olhava à volta e ninguém as tinha, o que era mentira e todos sabiam, mas todos se davam ao direito de julgar e só o facto de as ter era em si um gravíssimo sinal de fraqueza.
Vira-o no outro dia, sentado numa cadeira à beira de uma varanda de grades velhas a fumar um cigarro de enrolar na calma das noites das entranhas dos bairros de Lisboa.
Já ninguém fumava tabaco de enrolar. Já ninguém se sentava à noite à beira de varandas velhas a fumar um cigarro de enrolar. Também já ninguém fazia muita coisa que devia ser feita.
Mas entretanto a varanda afundara-se, num lago fundo onde muitas pessoas dançavam coisas estranhas e se empurravam e rodopiavam entre corredores de espelhos e vidraças.
Não era possível compreender. Só de manhã quando se acordava e tudo continuava a não fazer sentido.
Quando tudo continuava absolutamente na mesma.
Talvez se se virasse para o lado o quadro lhe parecesse diferente. Mas não. Continuava...

Vazio.