Estranhamente as palavras têm-me escorrido das pontas dos dedos todos os dias, parecendo que nascem das minhas unhas gravitadas para o papel, ou simplesmente desse movimento frenético que arrepia a pele da ponta dos dedos à medida que me sobe pelo braço, com o bater vertiginoso das teclas do computador.
O cérebro não acompanha, não consegue.
É aqui que se distingue perfeitamente a debilidade da cabeça, da razão se assim o quiserem, em acompanhar aquilo que os sentidos mandam sem pedir permissão.
Eu por mim confessava tudo. Desde a ponta do cabelo mais longo até ao limite da unha do pé.
Hoje, inesperada e insanamente apeteceu-me fazer uma loucura.
Uma daquelas loucuras do antigamente, a uma segunda-feira à noite, nem mais, simplesmente porque sim.
Loucamente... Apeteceu-me ir fazer corridas com o vento na auto-estrada, pinos e trapézios por trás das ruas e dos muros onde passeiam os gatos vadios, jogar ao toca e foge com duas amigas de longa data, pensar de menos e sentir demais.
Mas lembrei-me que a realidade é outra e que tenho andado a dormir acordada.
Sonhar acordada, perdão. Mas a verdade, essa é que não gosto de sonhar a dormir, por isso ando a dormir acordada, sem saber onde ando a dormir, nem sequer onde estou acordada. Tal como não se consegue acordar de um sonho ou de um pesadelo, é igualmente impossível acordar de um sonho que se tem acordado.
Experimentem querer decidir. Não acordam.
O sonho vai até onde ele próprio quer, deixando apenas que se acorde quando ele achar que deve ser.
Mas não, não fiz nenhuma loucura.
Sentei-me a deixar que as palavras escorressem para onde e como quisessem.
Já gastei a minha parte de loucura desta década, fiquei a dever-lhe uns quantos contos de reis, mas ela sabe que não lhe posso pagar e por isso não me procura. Como não gosto de ficar a dever nada a ninguém, fizémos um acordo, eu não a uso e ela não me cobra.
No entanto, não me consegue garantir ninguém que ela não me use a mim e ainda por cima me cobre.
Mas dizem que a realidade é outra.
E a loucura não cobra escrever coisas nobres, mas desprovidas de sentido. Deve-me fazer bem escrever barbaridades. E pensá-las também.
O que se tem não se deve deixar transbordar, é um desperdício. Acaba por ser uma pena.
Mas confesso-me noutro dia.
Escrevo só... já te pedi tantas vezes e tu nunca me ouves.
Não vejo para quê confessar-me...
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