Wednesday, September 14, 2011

Diário de uma amigdalectomia

Diz que foi pior a emenda que o soneto, do diário da dor, ou ao encontro dela.
Pergunto-me ainda se terá sido, ontem, hoje e todos estes dias.
Os dias, as horas, os minutos e os segundos foram andando de mão dada dia e noite, do primeiro ao terceiro, ao sexto onde se tem as maiores dores, ao oitavo onde a dor supostamente termina ao 17º onde estou hoje.
O primeiro sem dor, sem analgésicos. O primeiro, de 17.
Falta ainda engolir normalmente qualquer líquido e empurrar como deve ser o sólido.
Falta falar como eu falava antes. Sem bolsas de saliva, nem a língua a prender-me os movimentos naturais do som a passar pela boca.
É estranho, mas ao mesmo tempo simples. A força ainda não existe para fazer as coisas passarem para baixo e simplesmente decide subir e sai pelo nariz.
Simples mais ainda. Há som na garganta mas não sai como antigamente.
Não é bonito. Não é natural. Mas dizem que volta tudo ao normal, até mesmo quando tudo muda.
E tudo muda.

Pergunto-me o que se faz, quando o corpo se vê a braços com a impossibilidade de realizar as coisas mais básicas como descansar, comer, falar, engolir e respirar.
Pergunto-me todos os dias, já que pareço ter voltado a uma espécie de infância onde tive que re-aprender todas estas coisas básicas outra vez.
E esta infância não me faz apetecer falar com ninguém, ver ninguém nem fazer nada.
Os dias e noites de dores intermináveis, agonia e fome já passaram mas deram lugar agora a dias ainda mais vazios e distantes, desprovidos de sentido e povoados de silêncio.
Ultrapassei o medo da hemorragia e o desconhecido das complicações, a cabeça a rebentar de dores reflexas nos ouvidos, as noites de olhos arregalados de dor pelo choro abafado que viram os minutos de 8 horas passar sem dormir e a compulsão de tomar comprimidos que não fazem efeito mais do que uma ou duas horas.

Sinto-me sozinha agora perante um derrame cerebral de tanta agonia, silêncio e dilemas.
Sinto-me tão sozinha.
Tanto como nunca me senti antes, faz agora tanto tempo e mais ainda.
Sozinha a curar, a persistir, a delinear e pensar decidir num silêncio vazio que não me deixa sequer vontade de falar.
Podia escrever muito mais e deveria. Ter escrito mais cedo.
Antes tinha muito mais para dizer.
Agora não lhe vejo benefício à excepção do benefício que veio para ficar.
Será melhor do que a agonia que passou e do vazio que lhe deixou.
Tudo é.
Esperemos os alegres dias 20 que se lhe seguem e esqueçamos os quase tristes 20 que passaram.
Foi um pobre diário. mas foi o que foi.
E as coisas mais importantes parecem nunca sequer chegar a um diário.
Não a um tão público pelo menos.
A minha mão e o meu cérebro já não acompanham o meu coração.
Que isso também mude, como muda tudo nesta vida.

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