Thursday, May 26, 2011

Braços de Prata

Tenho os braços dormentes.

Tenho os braços tão dormentes que nem os sinto.
Parece que estão estranhamente pendurados do lado de fora meu corpo
e doem.
Doem-me tanto que me apetece chorar. Mas chorar de alegria.

E doi tanto chorar de alegria, doi tanto que quase te sufoca.

Mas antes sufocar a chorar de alegria do que sentir toda uma vida os braços,
sem saber nunca que se os sente,
quando se sente que o amor voltou de novo à nossa vida.

Graças a Deus que não os sinto.
Por mim não precisava sequer de saber como me chamo
nos momentos em que choro, ou que sinto vontade de sufocar
a chorar de alegria.

São de prata porque a paixão os corrói,
porque só a sinto quando não se sentem.
São de prata porque são paixão
e podiam continuar assim para todo o sempre.

Monday, May 16, 2011

A invenção do amor

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem e uma mulher
um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e nas avenidas

Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo.
É preciso encontrá-los antes que seja tarde


Daniel Filipe