I
Eram seis da manhã.
A luz era já demasiado intensa, o corpo parecia-lhe demasiadamente pesado e no táxi sentia ainda o cheiro do fumo da noite completamente impregnado no cabelo.
Os pulmões estavam pretos do tanto que conseguia ver. Podres até. De respirar aquele ar que a sufocava, aquele ar que não se explicava como nem porque chegava mas que estagnava sempre, num qualquer ponto mais próximo do caminho.
Os ouvidos ainda zuniam surdos da música que lhe ecoava na cabeça e lhe escorria pela pele.
Os olhos, esses já mal se abriam porque a cabeça os semicerrava muito, com a intensidades do ainda premente barulho das luzes.
Atirara com as sandálias uma para cada canto, o vestido ficara no meio do chão e deixara apenas que o corpo pesado caísse em cima da cama.
O cabelo não lhe cheirava a framboesa como era habitual. Aliás nada lhe cheirava a nada.
Eram quase sete e meia da manhã quando acordou com a televisão ligada e os raios de sol a entrarem pela janela, ao sentir o desconforto das duas almofadas que tinham ficado contra a cabeceira a cama.
Depois de apagar a televisão e retirar as almofadas tentara esquecer a luz do dia e voltara novamente a adormecer. No entanto a luz acordava-a, quase de hora a hora e o cansaço era tanto que nem com as constantes tentativas de adormecer lhe parecia que efectivamente descansasse. O coração batia forte contra o colchão, ouvia-se, sentia-se ribombar entre as molas, a ameaçar querer saltar-lhe da boca, parar simplesmente ou se no entretanto não, até lá tinha a certeza que ele congeminaria com o seu cérebro para que a deixassem completamente louca, enquanto todos os demónios, aqueles que pelo menos um dia tinham sido, teimavam em lhe passear calmamente pela cama.
Pensou talvez que ele tinha que se vingar do mal que lhe fazia, para ver se a acordava para a vida, já que ela parecia não querer acordar da espécie de trajectória mórbida em que se envolvera.
Dera voltas e voltas na cama. Voltas a mais quando ouviu que a mãe lhe falava e lhe explicava, coisas que ela teimava em não perceber, em não aceitar, mas que no fundo sabia que a volta não tinha outra curva e que era impossível, impossível fazer inversão de marcha e poder voltar-se atrás.
A dor no entanto era coisa quem ninguém lhe conseguia tirar. Entendia, explicara-lhe, quase que aceitava, mas a dor, essa parecia impossível de se lhe poder arrancar.
Impossível porque nem aquelas escassas horas em que tudo se entrelaçava no nada lhe davam descanso nem paz de espírito. Não lhe davam nada mas também não lhe tiravam tudo. Parecia. Mas não se conseguia conformar, nem voltar as costas. Nem dizer que não aos amigos, nem à sua cabeça que essa sim estava cheia, sempre cheia e teimava em não a deixar em paz.
- Então e tu não lhe podes telefonar, não o podes chamar? Tens a certeza que ele sabe onde é que nós moramos?
A resposta já a tinha ouvido vezes e vezes sem conta e havia muitos anos já que se deixara de a perguntar, mas a imagem essa ainda persistia. Via-se com uns 7 ou 8 anos, ali à espera, sendenta do que não conhecia, de nada. De ninguém.
Voltara a acordar, o telefone tocava em cima da mesa-de-cabeceira.
- Diz Ariella…
- Olha o Rodrigo partiu a cabeça linda. Vê se me podes vir substituir. Desculpa não te queria dizer isto pelo telefone mas a professora Susana tem que ir tratar dos papéis e não pode cá ficar.
- Sim eu vou… mas que papéis?
- Desculpa linda, a comissão de menores veio hoje de manhã buscar o Luís.
II
- O Interesse… o interesse… - voltara a distrair-se num pensamento e parara subitamente de falar.
Do gabinete do médico conseguia sempre ouvir o som dos comboios a deslizar nos carris, conseguia ouvir as buzinas, os apitos de chegada e de partida e as vozes que as anunciavam nos microfones da estação. Ouvia sempre o som do fluir daqueles mesmos comboios como se ouvisse o som de todas as viagens que ainda fariam, como de todas as viagens que ela já tinha e por outro lado ainda não tinha feito.
No gabinete ao lado a outra ainda gritava:
- QUERO A METADONA.
Tornava a repetir a frase duas ou três vezes, gritando e soluçando entre barulhos de objectos que se partiam e minutos depois deixando novamente de se ouvir.
- E então o interesse?
Leonor pensara. Vira-lhe então claramente três lados como via sempre em qualquer outra coisa que tentasse analisar ou até compreender para aconselhar alguém. Para ela acabava por fazer o mesmo, mas era sempre mais difícil.
- Interesse é o que ele sente por ela. Um interesse que eu não entendo qual seja, mas um interesse que me dói porque não o consigo perceber.
Hesitara.
- Depois vejo o que ele sentiu por mim. Um interesse que ainda me dói mais porque é um interesse fundamentado. Um interesse que me foi demonstrado na forma de elogio, de uma valorização com profundidade. Entende?
O médico ia pedir-lhe que lhe explicasse, mas ao abrir a boca o som da pergunta tinha sido abafado pelos gritos do gabinete seguinte:
- LARGUEM-ME, Larguem-me! Quero a metadona, ouviram?! Quero a puta da metadona AGORA seus filhos da puta. Agora! Ou eu vou lá para fora e mato-os todos outra vez. LARGUEM-ME.
Os gritos e a raiva pareciam desta vez ter subido de tom, à medida que se foram também ouvindo os sons de cadeiras e mesas a partir contra as paredes e o chão. O médico olhou-a com alguma desconfiança e depois de conseguir que o seu olhar se fixasse de novo, decidiu então falar:
- Ia perguntar-lhe se achava que ele tinha sido sincero.
Ela hesitara, confusa pela indiferença.
- Doutor não o incomoda?
- O quê?
- Os gritos… Não o incomodam?
- Que gritos… Ouviu algum grito?
- Como é que pode não ouvir… está uma louca a gritar do outro lado da parede. A plenos pulmões. Sobre uma porcaria duma droga…
- Incomoda-a ser por causa disso?
- Sei lá porque é que me incomoda, incomodam-me os gritos, a angústia, o assunto.
- E quer-me explicar porquê?
- Se eu não sei como quer que lhe explique?
- E já pensou porque é que não sabe?
- Sinceramente, acho que assim não vamos a lado nenhum, você responde-me sempre a uma pergunta com outra pergunta... Sabe, é que quase que arriscaria dizer… mas eu não consigo.
- Não consegue? Quer que lhe dê uma ajuda…
- Diga…
- Pense que a mim me passa ao lado. Que quase nem a oiço. Não será bem assim, mas assim entenda-se, você percebe o que lhe estou a dizer. Se a si a incomoda, a transtorna, pense porque será. No que ela grita e porque grita, como grita. Arriscaria a dizer que pode pensar que não seria só ela, vá Leonor, corra o risco de ter a coragem de me dizer o que sabe tão bem quanto eu que quando a ouviu gritar pensou.
- Dizer as coisas é perigoso.
- Se arriscaria dizer, diga.
- Talvez…
- Talvez o quê?
- Talvez pudesse não ser ela.
- Como assim? Que não pudesse não ser ela quê?
- A gritar. Talvez que pudesse não ser ela e ser eu.
- Mas não é você pois não?
- Não.
- Então deixe isso a um lado, sim? Não estamos aqui para falar dela, estamos aqui para falar de si.
Acordara. O cabelo cheirava-lhe novamente a framboesa e não havia demónios a passearem-lhe pela cama.
Só o despertador tocava e o sol entrava-lhe já pela janela.
Eram horas de ir trabalhar.
Friday, February 27, 2009
Tuesday, February 24, 2009
Um dia...
Um dia sei que ainda hei de dançar contigo uma kizomba, numa qualquer praia deserta de Santiago ou do Mussulo...
Com os pés descalços e a alma a transbordar do inexplicável.
Num nascer do sol, entre a areia branca e o mar distante.
Contigo.
A seres tu... sejas tu quem fores.
Com os pés descalços e a alma a transbordar do inexplicável.
Num nascer do sol, entre a areia branca e o mar distante.
Contigo.
A seres tu... sejas tu quem fores.
Sunday, February 22, 2009
To dance is to live...
Ás vezes quando me perguntam se é verdade que danço e porquê, sinto quase como se me perguntassem porque respiro.
Podia dizer que é para me sentir viva, mas prefiro dizer que é porque me sinto viva.
Compreendo que para muitas pessoas seja difícil entender porque têm uma imagem que nem sabem qual é, sempre estiveram do lado de fora e nunca viram, nunca conviveram nesse meio e sobretudo nunca experimentaram o sorriso que provoca o toque de uma dança na pele, nos olhos, no corpo... na alma.
É inexplicável porque simplesmente me transcendo a mim própria.
Porque me sinto ainda mais viva e porque me exprimo sem precisar de falar, de olhar, de pedir, sem complexos, sem preocupações.
E porque vôo com os pés bem assentes no chão. Para todas as partes, para onde, com quem e como quiser.
É de facto inexplicável, só sentindo.
Simplesmente porque sou cada vez mais eu, dentro e fora, tal como sou, cada vez mais...
A cada dia que passa.
Podia dizer que é para me sentir viva, mas prefiro dizer que é porque me sinto viva.
Compreendo que para muitas pessoas seja difícil entender porque têm uma imagem que nem sabem qual é, sempre estiveram do lado de fora e nunca viram, nunca conviveram nesse meio e sobretudo nunca experimentaram o sorriso que provoca o toque de uma dança na pele, nos olhos, no corpo... na alma.
É inexplicável porque simplesmente me transcendo a mim própria.
Porque me sinto ainda mais viva e porque me exprimo sem precisar de falar, de olhar, de pedir, sem complexos, sem preocupações.
E porque vôo com os pés bem assentes no chão. Para todas as partes, para onde, com quem e como quiser.
É de facto inexplicável, só sentindo.
Simplesmente porque sou cada vez mais eu, dentro e fora, tal como sou, cada vez mais...
A cada dia que passa.
Saturday, February 21, 2009
Friday, February 20, 2009
Sensatez e desilusão
Ontem vinha no caminho para casa depois de um longo, longo dia, talvez o mais longo nestes 7 meses (já... 7 meses??) de trabalho e quando cheguei, mesmo sem dar conta e contra o instinto de desligar o motor e sair prontamente do carro, fiquei uns minutos sentada dentro do carro até acabar uma daquelas salsas que considero um tanto ou quanto lamechas, mas que não sei porquê aperta qualquer coisa cá dentro.
Vim o caminho todo no mais puro silêncio, com a música quase em surdina, sem tecer um único comentário relativamente à estrada e aparentemente sem que um único pensamento me cruzasse a cabeça. Não me lembro de me ter cruzado com ninguém, não me lembro de ver um único carro a passar por mim, apenas tenho a imagem vaga de alguns rasgos da estrada, pelo menos até chegar quase a caneças.
No entanto, sei que durante todo o caminho só me apeteceu gritar. Bem alto. Parar num ermo qualquer e gritar a plenos pulmões, quem sabe.
Depois cheguei, acalmei.
Mas pensei.
Seria sensato?
Será sensato?
Foi um daqueles dias em que pensei que está tudo errado, em que me apeteceu chegar a casa, fazer a mala e mandar tudo ao ar, ir onde ainda não fui ou até onde já estive e ficar por lá, fazer o que ainda não fiz ou qualquer outra coisa, daquelas que ás vezes me passam pelo pensamento.
De alguma maneira, há qualquer coisa que me está a fazer sentir como que uma perda de tempo.
Será sensato estar a fazê-lo? Seria sensato deixar de o fazer?
Uma desilusão mais para os outros ou para mim mesma?
É daquelas coisas, e hoje é ja outro dia.
Ontem foi passado, hoje é já Presente, todos os dias, como uma caixinha de surpresas.
Vim o caminho todo no mais puro silêncio, com a música quase em surdina, sem tecer um único comentário relativamente à estrada e aparentemente sem que um único pensamento me cruzasse a cabeça. Não me lembro de me ter cruzado com ninguém, não me lembro de ver um único carro a passar por mim, apenas tenho a imagem vaga de alguns rasgos da estrada, pelo menos até chegar quase a caneças.
No entanto, sei que durante todo o caminho só me apeteceu gritar. Bem alto. Parar num ermo qualquer e gritar a plenos pulmões, quem sabe.
Depois cheguei, acalmei.
Mas pensei.
Seria sensato?
Será sensato?
Foi um daqueles dias em que pensei que está tudo errado, em que me apeteceu chegar a casa, fazer a mala e mandar tudo ao ar, ir onde ainda não fui ou até onde já estive e ficar por lá, fazer o que ainda não fiz ou qualquer outra coisa, daquelas que ás vezes me passam pelo pensamento.
De alguma maneira, há qualquer coisa que me está a fazer sentir como que uma perda de tempo.
Será sensato estar a fazê-lo? Seria sensato deixar de o fazer?
Uma desilusão mais para os outros ou para mim mesma?
É daquelas coisas, e hoje é ja outro dia.
Ontem foi passado, hoje é já Presente, todos os dias, como uma caixinha de surpresas.
Monday, February 16, 2009
Renovações ;)
Ora bem este post vai com alguma calma, que ele ainda não está totalmente pronto...
Ainda está digamos que a sair do forno, mas está quaseeeee.
Como inspiração usei-me a mim, as brisas que passam por mim, as viagens, os sonhos, os sentimentos, as miragens, as experiências, os infinitos...
E aproveitando a disponibilidade de um colega/amigo, aceitei que se fizesse um "xuunning" aqui ao blog da je e deu nisto...
Acho que está um máximo, não acham??
Entretanto, posso dizer desde já que não foi só o blog. Foi uma série de coisas que têm acontecido nos últimos tempos que me têm levado a despertar para grandes mudanças internas e que se traduzem igualmente do outro lado, aquele que todos vêm mas que eu efectivamente sinto para transmitir.
Estou a aprender a relativizar, bom não??!
A ver as coisas com outros olhos, mais atentos talvez, mais maduros, de fora pra dentro, de dentro pra fora, simplesmente como fôr ou como tiver que ser.
Renovações são sempre precisas, e a mudança seja ela qual fôr pode vir quando quiser, será sempre bem-vinda!
Mas não podia deixar de acabar este post com um agradecimento ao K@.
Um Grande Bem-Haja!!! ........... 16 MAN BR BR, ou devo dizer... BR RS ou até HD hehehe :)
Ainda está digamos que a sair do forno, mas está quaseeeee.
Como inspiração usei-me a mim, as brisas que passam por mim, as viagens, os sonhos, os sentimentos, as miragens, as experiências, os infinitos...
E aproveitando a disponibilidade de um colega/amigo, aceitei que se fizesse um "xuunning" aqui ao blog da je e deu nisto...
Acho que está um máximo, não acham??
Entretanto, posso dizer desde já que não foi só o blog. Foi uma série de coisas que têm acontecido nos últimos tempos que me têm levado a despertar para grandes mudanças internas e que se traduzem igualmente do outro lado, aquele que todos vêm mas que eu efectivamente sinto para transmitir.
Estou a aprender a relativizar, bom não??!
A ver as coisas com outros olhos, mais atentos talvez, mais maduros, de fora pra dentro, de dentro pra fora, simplesmente como fôr ou como tiver que ser.
Renovações são sempre precisas, e a mudança seja ela qual fôr pode vir quando quiser, será sempre bem-vinda!
Mas não podia deixar de acabar este post com um agradecimento ao K@.
Um Grande Bem-Haja!!! ........... 16 MAN BR BR, ou devo dizer... BR RS ou até HD hehehe :)
Sunday, February 08, 2009
VIVE
Quem morre?
Morre lentamente
Quem não viaja,
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem não encontra graça em si mesmo
Morre lentamente
Quem destrói seu amor próprio,
Quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente
Quem se transforma em escravo do hábito
Repetindo todos os dias os mesmos trajetos,
Quem não muda de marca,
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou
Não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
Quem evita uma paixão e seu redemoinho de emoções,
Justamente as que resgatam o brilho dos
Olhos e os corações aos tropeços.
Morre lentamente
Quem não vira a mesa quando está infeliz
Com o seu trabalho, ou amor,
Quem não arrisca o certo pelo incerto
Para ir atrás de um sonho,
Quem não se permite, pelo menos uma vez na vida,
Fugir dos conselhos sensatos...
Vive hoje !
Arrisca hoje !
Faz hoje !
Não te deixes morrer lentamente !
NÃO TE ESQUEÇAS DE SER FELIZ...
Morre lentamente
Quem não viaja,
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem não encontra graça em si mesmo
Morre lentamente
Quem destrói seu amor próprio,
Quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente
Quem se transforma em escravo do hábito
Repetindo todos os dias os mesmos trajetos,
Quem não muda de marca,
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou
Não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
Quem evita uma paixão e seu redemoinho de emoções,
Justamente as que resgatam o brilho dos
Olhos e os corações aos tropeços.
Morre lentamente
Quem não vira a mesa quando está infeliz
Com o seu trabalho, ou amor,
Quem não arrisca o certo pelo incerto
Para ir atrás de um sonho,
Quem não se permite, pelo menos uma vez na vida,
Fugir dos conselhos sensatos...
Vive hoje !
Arrisca hoje !
Faz hoje !
Não te deixes morrer lentamente !
NÃO TE ESQUEÇAS DE SER FELIZ...
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