Friday, February 27, 2009

Filhos (I)legítimos

I

Eram seis da manhã.
A luz era já demasiado intensa, o corpo parecia-lhe demasiadamente pesado e no táxi sentia ainda o cheiro do fumo da noite completamente impregnado no cabelo.
Os pulmões estavam pretos do tanto que conseguia ver. Podres até. De respirar aquele ar que a sufocava, aquele ar que não se explicava como nem porque chegava mas que estagnava sempre, num qualquer ponto mais próximo do caminho.
Os ouvidos ainda zuniam surdos da música que lhe ecoava na cabeça e lhe escorria pela pele.
Os olhos, esses já mal se abriam porque a cabeça os semicerrava muito, com a intensidades do ainda premente barulho das luzes.
Atirara com as sandálias uma para cada canto, o vestido ficara no meio do chão e deixara apenas que o corpo pesado caísse em cima da cama.
O cabelo não lhe cheirava a framboesa como era habitual. Aliás nada lhe cheirava a nada.
Eram quase sete e meia da manhã quando acordou com a televisão ligada e os raios de sol a entrarem pela janela, ao sentir o desconforto das duas almofadas que tinham ficado contra a cabeceira a cama.
Depois de apagar a televisão e retirar as almofadas tentara esquecer a luz do dia e voltara novamente a adormecer. No entanto a luz acordava-a, quase de hora a hora e o cansaço era tanto que nem com as constantes tentativas de adormecer lhe parecia que efectivamente descansasse. O coração batia forte contra o colchão, ouvia-se, sentia-se ribombar entre as molas, a ameaçar querer saltar-lhe da boca, parar simplesmente ou se no entretanto não, até lá tinha a certeza que ele congeminaria com o seu cérebro para que a deixassem completamente louca, enquanto todos os demónios, aqueles que pelo menos um dia tinham sido, teimavam em lhe passear calmamente pela cama.
Pensou talvez que ele tinha que se vingar do mal que lhe fazia, para ver se a acordava para a vida, já que ela parecia não querer acordar da espécie de trajectória mórbida em que se envolvera.
Dera voltas e voltas na cama. Voltas a mais quando ouviu que a mãe lhe falava e lhe explicava, coisas que ela teimava em não perceber, em não aceitar, mas que no fundo sabia que a volta não tinha outra curva e que era impossível, impossível fazer inversão de marcha e poder voltar-se atrás.
A dor no entanto era coisa quem ninguém lhe conseguia tirar. Entendia, explicara-lhe, quase que aceitava, mas a dor, essa parecia impossível de se lhe poder arrancar.
Impossível porque nem aquelas escassas horas em que tudo se entrelaçava no nada lhe davam descanso nem paz de espírito. Não lhe davam nada mas também não lhe tiravam tudo. Parecia. Mas não se conseguia conformar, nem voltar as costas. Nem dizer que não aos amigos, nem à sua cabeça que essa sim estava cheia, sempre cheia e teimava em não a deixar em paz.
- Então e tu não lhe podes telefonar, não o podes chamar? Tens a certeza que ele sabe onde é que nós moramos?
A resposta já a tinha ouvido vezes e vezes sem conta e havia muitos anos já que se deixara de a perguntar, mas a imagem essa ainda persistia. Via-se com uns 7 ou 8 anos, ali à espera, sendenta do que não conhecia, de nada. De ninguém.
Voltara a acordar, o telefone tocava em cima da mesa-de-cabeceira.
- Diz Ariella…
- Olha o Rodrigo partiu a cabeça linda. Vê se me podes vir substituir. Desculpa não te queria dizer isto pelo telefone mas a professora Susana tem que ir tratar dos papéis e não pode cá ficar.
- Sim eu vou… mas que papéis?
- Desculpa linda, a comissão de menores veio hoje de manhã buscar o Luís.


II

- O Interesse… o interesse… - voltara a distrair-se num pensamento e parara subitamente de falar.
Do gabinete do médico conseguia sempre ouvir o som dos comboios a deslizar nos carris, conseguia ouvir as buzinas, os apitos de chegada e de partida e as vozes que as anunciavam nos microfones da estação. Ouvia sempre o som do fluir daqueles mesmos comboios como se ouvisse o som de todas as viagens que ainda fariam, como de todas as viagens que ela já tinha e por outro lado ainda não tinha feito.
No gabinete ao lado a outra ainda gritava:
- QUERO A METADONA.
Tornava a repetir a frase duas ou três vezes, gritando e soluçando entre barulhos de objectos que se partiam e minutos depois deixando novamente de se ouvir.
- E então o interesse?
Leonor pensara. Vira-lhe então claramente três lados como via sempre em qualquer outra coisa que tentasse analisar ou até compreender para aconselhar alguém. Para ela acabava por fazer o mesmo, mas era sempre mais difícil.
- Interesse é o que ele sente por ela. Um interesse que eu não entendo qual seja, mas um interesse que me dói porque não o consigo perceber.
Hesitara.
- Depois vejo o que ele sentiu por mim. Um interesse que ainda me dói mais porque é um interesse fundamentado. Um interesse que me foi demonstrado na forma de elogio, de uma valorização com profundidade. Entende?
O médico ia pedir-lhe que lhe explicasse, mas ao abrir a boca o som da pergunta tinha sido abafado pelos gritos do gabinete seguinte:
- LARGUEM-ME, Larguem-me! Quero a metadona, ouviram?! Quero a puta da metadona AGORA seus filhos da puta. Agora! Ou eu vou lá para fora e mato-os todos outra vez. LARGUEM-ME.
Os gritos e a raiva pareciam desta vez ter subido de tom, à medida que se foram também ouvindo os sons de cadeiras e mesas a partir contra as paredes e o chão. O médico olhou-a com alguma desconfiança e depois de conseguir que o seu olhar se fixasse de novo, decidiu então falar:
- Ia perguntar-lhe se achava que ele tinha sido sincero.
Ela hesitara, confusa pela indiferença.
- Doutor não o incomoda?
- O quê?
- Os gritos… Não o incomodam?
- Que gritos… Ouviu algum grito?
- Como é que pode não ouvir… está uma louca a gritar do outro lado da parede. A plenos pulmões. Sobre uma porcaria duma droga…
- Incomoda-a ser por causa disso?
- Sei lá porque é que me incomoda, incomodam-me os gritos, a angústia, o assunto.
- E quer-me explicar porquê?
- Se eu não sei como quer que lhe explique?
- E já pensou porque é que não sabe?
- Sinceramente, acho que assim não vamos a lado nenhum, você responde-me sempre a uma pergunta com outra pergunta... Sabe, é que quase que arriscaria dizer… mas eu não consigo.
- Não consegue? Quer que lhe dê uma ajuda…
- Diga…
- Pense que a mim me passa ao lado. Que quase nem a oiço. Não será bem assim, mas assim entenda-se, você percebe o que lhe estou a dizer. Se a si a incomoda, a transtorna, pense porque será. No que ela grita e porque grita, como grita. Arriscaria a dizer que pode pensar que não seria só ela, vá Leonor, corra o risco de ter a coragem de me dizer o que sabe tão bem quanto eu que quando a ouviu gritar pensou.
- Dizer as coisas é perigoso.
- Se arriscaria dizer, diga.
- Talvez…
- Talvez o quê?
- Talvez pudesse não ser ela.
- Como assim? Que não pudesse não ser ela quê?
- A gritar. Talvez que pudesse não ser ela e ser eu.
- Mas não é você pois não?
- Não.
- Então deixe isso a um lado, sim? Não estamos aqui para falar dela, estamos aqui para falar de si.

Acordara. O cabelo cheirava-lhe novamente a framboesa e não havia demónios a passearem-lhe pela cama.
Só o despertador tocava e o sol entrava-lhe já pela janela.
Eram horas de ir trabalhar.

1 comment:

Anonymous said...

Às vezes falar contigo
É como ir a Nova Iorque
Entrar num museu
Olhar um Picasso
Pensar que aquele traço
Quase podia ser meu
Meter à Quinta Avenida
Ver o Frank Sinatra
Comprando a um judeu
As canções de Salomão
E quando já tu e eu
Em plena ascensão
Celebramos Manhattan
Vem aquele corte
E tu apanhas o barco
Para a margem sul
E eu digo adeus cá do norte
É pena que viajar
Esteja pela hora da morte
New York New York
New York New York

OBRIGADO, RUI VELOSO.