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Tuesday, April 10, 2007

Tens Lume?

Perdi-te no caminho para casa
Comprei um maço de ciagarros
Sabendo que nunca os fumaria
Talvez quisesse tê-los para os dar

As mulheres não nos pedem doces
Pedem antes bebida ou tabaco
É claro que querem doces, afectos
Mas isso não pedem, oferecemos um
cigarro
Roubamos-lhes cinco minutos de vida
De cinco en cinco minutos tentamos
agarrá-las
Enfiar-lhes um cancro no coração.

Tens lume?
Tenho, tenho...


Diogo Vaz Pinto in http://omelhoramigo.blogspot.com

Wednesday, March 28, 2007

História de Cão

eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento

tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros

entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada

depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou

ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia

estão ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar

e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo

o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória

dos lados não ficou nada

Mário Cesariny

Tuesday, February 20, 2007

Caravelas

Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar morto:
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!

Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...


Florbela Espanca, Livro de Soror Saudade