Monday, March 30, 2009

Hoje lembrei-me...

...que escrever é confessar-se.


Estranhamente as palavras têm-me escorrido das pontas dos dedos todos os dias, parecendo que nascem das minhas unhas gravitadas para o papel, ou simplesmente desse movimento frenético que arrepia a pele da ponta dos dedos à medida que me sobe pelo braço, com o bater vertiginoso das teclas do computador.
O cérebro não acompanha, não consegue.
É aqui que se distingue perfeitamente a debilidade da cabeça, da razão se assim o quiserem, em acompanhar aquilo que os sentidos mandam sem pedir permissão.
Eu por mim confessava tudo. Desde a ponta do cabelo mais longo até ao limite da unha do pé.
Hoje, inesperada e insanamente apeteceu-me fazer uma loucura.
Uma daquelas loucuras do antigamente, a uma segunda-feira à noite, nem mais, simplesmente porque sim.
Loucamente... Apeteceu-me ir fazer corridas com o vento na auto-estrada, pinos e trapézios por trás das ruas e dos muros onde passeiam os gatos vadios, jogar ao toca e foge com duas amigas de longa data, pensar de menos e sentir demais.
Mas lembrei-me que a realidade é outra e que tenho andado a dormir acordada.
Sonhar acordada, perdão. Mas a verdade, essa é que não gosto de sonhar a dormir, por isso ando a dormir acordada, sem saber onde ando a dormir, nem sequer onde estou acordada. Tal como não se consegue acordar de um sonho ou de um pesadelo, é igualmente impossível acordar de um sonho que se tem acordado.
Experimentem querer decidir. Não acordam.
O sonho vai até onde ele próprio quer, deixando apenas que se acorde quando ele achar que deve ser.
Mas não, não fiz nenhuma loucura.
Sentei-me a deixar que as palavras escorressem para onde e como quisessem.

Já gastei a minha parte de loucura desta década, fiquei a dever-lhe uns quantos contos de reis, mas ela sabe que não lhe posso pagar e por isso não me procura. Como não gosto de ficar a dever nada a ninguém, fizémos um acordo, eu não a uso e ela não me cobra.
No entanto, não me consegue garantir ninguém que ela não me use a mim e ainda por cima me cobre.
Mas dizem que a realidade é outra.
E a loucura não cobra escrever coisas nobres, mas desprovidas de sentido. Deve-me fazer bem escrever barbaridades. E pensá-las também.
O que se tem não se deve deixar transbordar, é um desperdício. Acaba por ser uma pena.
Mas confesso-me noutro dia.

Escrevo só... já te pedi tantas vezes e tu nunca me ouves.
Não vejo para quê confessar-me...



Saturday, March 28, 2009

A alma entende e a boca cala...

"Pior do que se sentir perdido é perder-se em si mesmo.
No emaranhado do que você acredita misturado ao que você é ou era.
O que você acredita, apostando corrida com o que você mais detesta.
O que você tem, jogando palitinhos com o que você quer.
Seu amor e suas dores na linha de chegada e o coração de juiz em dia de clássico.

Eu não sei se você entende o raciocínio de quem não tem raciocinado ultimamente ou se entende o porquê de certas coisas que não se explicam.

Quando a cabeça não pensa o corpo padece. Mas quando a cabeça pensa demais será que nossa alma enriquece?

Você cheio de indagações e de tácticas que não fazem o menor sentido. (pelo menos para você ou pelo menos naquele momento).

As suas certezas mudam, as suas prioridades deixam de ser prioridades já que você nem sabe mais o que deseja. Até sabe, mas está tão longe e você está tão cansado que o mais fácil é deixar que as prioridades te encontrem e você pode fugir do que não interessa.
Seus princípios enfraquecidos te cobram uma atitude e você cobra a coragem.

Os seus olhos pesam e seu coração já bate fraco. De tanto que bateu a vida inteira. De tanto chorar amor e fracassos.
De tanto chorar pelo leite derramado você decide que se entender é complicado demais.
O quente queima e o frio é gelado demais, vai o morno mesmo que não causa sensação alguma e no momento você não tem sequer condições de sentir o que quer que seja. Sentir dá trabalho e trabalho acarreta uma série de responsabilidades. Responsabilidade é chato demais e não aquece seus pés nos dias frios.

Você enfim, opta por decidir somente pelo necessário. Pelo que realmente vai fazer alguma diferença em sua vida e desiste de tentar equilibrar-se, isso é para artistas circenses e você nem gosta assim tanto de circo. Melhor deixar assim.

Uma porta de saída e uma de entrada. O que vale fica e o que não vale que valesse. Nada de culpa ou de noites mal dormidas, nada de coração na boca ou de frio na barriga.

Certas coisas não se explicam. Não existem palavras que as descrevam ou soluções que as resolvam.
Sentimentos, gestos, sonhos e sorrisos.

A alma entende e a boca cala..."

Wednesday, March 25, 2009

Parte-me o Coração... Porque também Tu me deixas...

Custa-me vir para casa, chegar e ver-te assim. E saber.

Ainda não consigo acreditar que também tu num destes dias próximos me vais deixar.

Odeio, simplesmente odeio a impotência de não conseguir fazer nada, eu que te criei, todos estes anos.

Nada...

Não sei como vai ser... Não sei. Não sei. Não sei...

Thursday, March 19, 2009

"Balada para os nossos filhos"...






"¿En que lugar, en donde, a que deshoras me dirás que te amo?
Esto es urgente porque la eternidad se nos acaba..."


Sei que ainda rebola cá dentro um certo... rancorzinho, vá.
Mas felizmente muita coisa mudou. Em tanta coisa.
Por isso, e sendo que aqui vai mais um:
Que tenha sido Feliz.
Até que foi e talvez um dia, um dia quem sabe.
Eu espero. Ou pelo menos tento aceitar.
Mas a eternidade, nem essa... dura para sempre.

Saturday, March 14, 2009

There's something really wrong here...

Sala cheia na penumbra, calor humano, até demais. Da música a vibrar sente-se a batida forte, seca mas sentida, daquela que me passa um arrepio pelo corpo e me faz correr o pensamento.
Estão todos ali, todos. Ou quase. Caras familiares, outras estranhas, mas o ambiente é calmo e de aura amena.
Com um pouco mais de luz vêm-se vários corpos a deslizar entrelaçados, agarrados para quem quiser dizer, mas como dizia o Kwenda, a kizomba não são dois corpos, é apenas um que se funde dos dois e paira completo ao ritmo do sentimento que sai da música.
Do lados vêm-se esses vultos, com um pouco mais de luz vinda das janelas abertas. Um ou dois, conforme o sentimento, conforme a batida.
E páro. A meio duma kizomba... dançando sem dançar... os pés continuam, mas o corpo não.
Páro porque tenho... e penso... Não faz sentido...
Será que isto vai ser sempre assim?
Será?
Será que ela tinha razão?
Quantos mais meses, mais anos terão que passar?
Quantos?
Eu não sinto nada.
Absolutamente nada.
Como é que é possível?
Simplesmente - Não Sinto.
Nada.
Mas estão todos ali. Riem, entrelaçados ou afastados, dançam a deslizar pelo soalho envolto na penumbra da sala que deixa ver apenas para os mais atentos o que dois se pode tornar em um.
Muitos dois, alguns uns, sempre na penumbra. Na cumplicidade.
Há qualquer coisa que está muito errada aqui.
Sinto. Tem que estar.
Porque eu não sinto,
absolutamente,
nada.

Thursday, March 05, 2009

Sakura

Hoje nasceram jarros e lírios roxos. Pela primeira vez neste ano, neste novo ciclo no jardim que posso chamar meu há mais de 15 anos e que me faz sempre lembrar, quando me esqueço de quem sou.
Apanhei-os para os pôr numa jarra do meu quarto, mas quando subia as escadas vi-te e sorri. Estendi a mão e disse-te que as ia pôr numa jarra mas que tas queria dar a ti.
Sentei-me na sala e fiquei uma vez mais deliciada a olhar para ti enquando mexias nos teus papéis e nas tuas revistas completamente absorto da maneira como eu sempre te fito e que consegue encher-me de felicidade, pelo simples facto de estares ali, sem me exigires nada, nem a minha conversa, nem o meu silêncio, apenas que esteja, como tem sido desde sempre.
Há uns dias senti uma falta de ar estranha, falta essa que tenho sentido à já algumas semanas, porque cheguei a casa e não te encontrei e soube pelo telefone que estavas no hospital.
Descansei apenas quando chegaste e mais uma vez, pedi-te que te sentasses ao meu lado para que descansasses tu também, mas tu não quiseste. E no silêncio, esse em que partilhamos tudo e é sempre só nosso, continuaste na tua azáfama a preparar um chá ficando eu a olhar-te sentada no banco da cozinha, com aquela sensação de que tudo está em ti, passando por mim, aquela felicidade que está sempre intacta, mesmo quando por vezes não estamos de acordo.
Olhei-te com algum peso, com aquela falta de ar estranha, o foco no teu coração.
Se pudesse, pensei, se pudesse dar-te-ia o meu coração para que ficasse no lugar do teu.
Se pudesse, arrancava-o apenas, porque tenho medo. Tanto medo que o teu um dia se canse e queira parar de fazer o seu trabalho.
Sei que o meu já traz algum peso, que não tem só coisas bonitas lá dentro, que leva já marcas negras e onde vão tantas pessoas que já o carimbaram. Pesa um pouco. Mas tem tanto lá dentro ainda, tanto que transborda por vezes e se perde. Mas eu arrancá-lo-ia para to dar se pudesse, mesmo que o meu peito ficasse vazio e a falta de ar que sinto fosse para sempre, dar-to-ia porque te amo incondicionalmente. Por tudo o que és, mesmo as coisas mais feias, mesmo as que eu não consigo compreender.
Olhei-te e senti vontade de mandar as mãos ao meu peito, olhando o teu... de pelo menos estendê-las e tocar o teu lá bem no fundo para poder aconchegar o teu coração entre elas nesta coisa tão grande que sinto cá dentro, para que ele tivesse mais forças e recuperasse essa energia que já lhe vai faltando...
Nunca te disse estas coisas, talvez nunca diga nem nunca as leias, mas digo-to sempre através dos meus olhos que fitas nos dias em que estás mais feliz e me abraças tão forte quando chego ou quando eu simplesmente to peço com os braços à tua volta, que me abraçes forte, tão forte quanto possas e tu me dizes que mais forte me sufocas.
Eu não me importo. Que me abraçes só e me sufoques se fôr preciso.
Porque eu te amo incondicionalmente e só to sei dizer assim, através do meu abraço e dos meus olhos.
É nestas alturas que me lembro sempre de quando era criança e me passeavas nos teus ombros pela praia e me levavas pela mão lá no Seixo para que toda a gente visse que era eu a coisa mais preciosa que tinhas.
Não preciso que mo digam, apesar de sempre mo virem dizer que lhes contas como estou bem e como tens tanto orgulho em mim. Os teus olhos por vezes enchem-se de lágrimas quando o dizes, é raro, mas quando o dizes os meus também.
Ás vezes tenho saudades de passear contigo na praia à beira mar, de fazer castelos que levem as ondas, porque agora tudo é diferente mas há coisas que nunca mudam.
Os meus pés têm já saudades dos grãos quentes da areia da praia, os meus olhos e a minha pele saudades do áspero do sal e minhas mãos... as minhas mãos já tinham saudades do toque aveludado das flores do jardim.
Só ontem me apercebi quando nasceram os jarros e os lírios, que a Primavera deste ano chegou, porque fui à janela e vi as florzinhas brancas a nascer em todas as árvores do jardim.
Fechei os olhos e sorri, continuava a ver as flores brancas, como as vejo nos longos corredores dos jardins de cerejeiras brancas no Japão. Infindáveis... magníficos, e sempre tão perto que lhes posso tocar se apenas estender a minha mão.
Levantei-me para pôr as flores numa jarra da tua mesa-de-cabeceira para te animar o quarto e depois de um sorriso saí para o jardim com um até logo.
Agora sei que tudo é diferente, mas sei que ainda um dia havemos de passear outra vez pela praia e um dia te levarei a voltar a ver a tua terra, a tua simplicidade não me pede nada, mas o que tenho é meu para te dar.
Por agora sei que ficas bem. Não tenho flores de cerejeira para te dar, mas tenho flores.
Dar-te-ia flores de cerejeira porque foste um guerreiro, viveste com precaridade e a tua alma é pura, como deve ser a alma de um bom homem, de um guerreiro, assim como está escrito no Hagakure.
E tu viveste como um guerreiro sempre. E por isso tento homenagear-te sempre, enquanto estás aqui comigo. Um dia terei também flores de cerejeira para te dar, garanto-te.
Pelo que simbolizam, pelo que simbolizas para mim. E nem que tenha que ir até ao Japão, ao fim do mundo que seja, irei trazer um dia flores de cerejeira para te dar.
Não te vou desiludir nunca nem que vá até ao fim do mundo, porque a minha força dura até que ele chegue ao fim, para tudo. Mesmo que não possa nunca arrancar o meu coração para pôr em lugar do teu.
Um dia trago-te flores de cerejeira. Prometo. E eu nunca falho as minhas promessas.
Agora só tenho abraços e sorrisos para te dar. E flores.
Porque hoje só nasceram jarros e lírios. E sei que só isso te chega, mais o tanto que tenho sempre para te dar.