Hoje nasceram jarros e lírios roxos. Pela primeira vez neste ano, neste novo ciclo no jardim que posso chamar meu há mais de 15 anos e que me faz sempre lembrar, quando me esqueço de quem sou.
Apanhei-os para os pôr numa jarra do meu quarto, mas quando subia as escadas vi-te e sorri. Estendi a mão e disse-te que as ia pôr numa jarra mas que tas queria dar a ti.
Sentei-me na sala e fiquei uma vez mais deliciada a olhar para ti enquando mexias nos teus papéis e nas tuas revistas completamente absorto da maneira como eu sempre te fito e que consegue encher-me de felicidade, pelo simples facto de estares ali, sem me exigires nada, nem a minha conversa, nem o meu silêncio, apenas que esteja, como tem sido desde sempre.
Há uns dias senti uma falta de ar estranha, falta essa que tenho sentido à já algumas semanas, porque cheguei a casa e não te encontrei e soube pelo telefone que estavas no hospital.
Descansei apenas quando chegaste e mais uma vez, pedi-te que te sentasses ao meu lado para que descansasses tu também, mas tu não quiseste. E no silêncio, esse em que partilhamos tudo e é sempre só nosso, continuaste na tua azáfama a preparar um chá ficando eu a olhar-te sentada no banco da cozinha, com aquela sensação de que tudo está em ti, passando por mim, aquela felicidade que está sempre intacta, mesmo quando por vezes não estamos de acordo.
Olhei-te com algum peso, com aquela falta de ar estranha, o foco no teu coração.
Se pudesse, pensei, se pudesse dar-te-ia o meu coração para que ficasse no lugar do teu.
Se pudesse, arrancava-o apenas, porque tenho medo. Tanto medo que o teu um dia se canse e queira parar de fazer o seu trabalho.
Sei que o meu já traz algum peso, que não tem só coisas bonitas lá dentro, que leva já marcas negras e onde vão tantas pessoas que já o carimbaram. Pesa um pouco. Mas tem tanto lá dentro ainda, tanto que transborda por vezes e se perde. Mas eu arrancá-lo-ia para to dar se pudesse, mesmo que o meu peito ficasse vazio e a falta de ar que sinto fosse para sempre, dar-to-ia porque te amo incondicionalmente. Por tudo o que és, mesmo as coisas mais feias, mesmo as que eu não consigo compreender.
Olhei-te e senti vontade de mandar as mãos ao meu peito, olhando o teu... de pelo menos estendê-las e tocar o teu lá bem no fundo para poder aconchegar o teu coração entre elas nesta coisa tão grande que sinto cá dentro, para que ele tivesse mais forças e recuperasse essa energia que já lhe vai faltando...
Nunca te disse estas coisas, talvez nunca diga nem nunca as leias, mas digo-to sempre através dos meus olhos que fitas nos dias em que estás mais feliz e me abraças tão forte quando chego ou quando eu simplesmente to peço com os braços à tua volta, que me abraçes forte, tão forte quanto possas e tu me dizes que mais forte me sufocas.
Eu não me importo. Que me abraçes só e me sufoques se fôr preciso.
Porque eu te amo incondicionalmente e só to sei dizer assim, através do meu abraço e dos meus olhos.
É nestas alturas que me lembro sempre de quando era criança e me passeavas nos teus ombros pela praia e me levavas pela mão lá no Seixo para que toda a gente visse que era eu a coisa mais preciosa que tinhas.
Não preciso que mo digam, apesar de sempre mo virem dizer que lhes contas como estou bem e como tens tanto orgulho em mim. Os teus olhos por vezes enchem-se de lágrimas quando o dizes, é raro, mas quando o dizes os meus também.
Ás vezes tenho saudades de passear contigo na praia à beira mar, de fazer castelos que levem as ondas, porque agora tudo é diferente mas há coisas que nunca mudam.
Os meus pés têm já saudades dos grãos quentes da areia da praia, os meus olhos e a minha pele saudades do áspero do sal e minhas mãos... as minhas mãos já tinham saudades do toque aveludado das flores do jardim.
Só ontem me apercebi quando nasceram os jarros e os lírios, que a Primavera deste ano chegou, porque fui à janela e vi as florzinhas brancas a nascer em todas as árvores do jardim.
Fechei os olhos e sorri, continuava a ver as flores brancas, como as vejo nos longos corredores dos jardins de cerejeiras brancas no Japão. Infindáveis... magníficos, e sempre tão perto que lhes posso tocar se apenas estender a minha mão.
Levantei-me para pôr as flores numa jarra da tua mesa-de-cabeceira para te animar o quarto e depois de um sorriso saí para o jardim com um até logo.
Agora sei que tudo é diferente, mas sei que ainda um dia havemos de passear outra vez pela praia e um dia te levarei a voltar a ver a tua terra, a tua simplicidade não me pede nada, mas o que tenho é meu para te dar.
Por agora sei que ficas bem. Não tenho flores de cerejeira para te dar, mas tenho flores.
Dar-te-ia flores de cerejeira porque foste um guerreiro, viveste com precaridade e a tua alma é pura, como deve ser a alma de um bom homem, de um guerreiro, assim como está escrito no Hagakure.
E tu viveste como um guerreiro sempre. E por isso tento homenagear-te sempre, enquanto estás aqui comigo. Um dia terei também flores de cerejeira para te dar, garanto-te.
Pelo que simbolizam, pelo que simbolizas para mim. E nem que tenha que ir até ao Japão, ao fim do mundo que seja, irei trazer um dia flores de cerejeira para te dar.
Não te vou desiludir nunca nem que vá até ao fim do mundo, porque a minha força dura até que ele chegue ao fim, para tudo. Mesmo que não possa nunca arrancar o meu coração para pôr em lugar do teu.
Um dia trago-te flores de cerejeira. Prometo. E eu nunca falho as minhas promessas.
Agora só tenho abraços e sorrisos para te dar. E flores.
Porque hoje só nasceram jarros e lírios. E sei que só isso te chega, mais o tanto que tenho sempre para te dar.
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