Talvez Quinta-Feira seja mesmo dia de teatro. De literatura. De artes. Já não o sabia, nem me lembrava, porque talvez tenha escolhido não querer saber. É sempre mais fácil.
Mas afinal ainda sei, e é. Efectivamente, dia de cheiro a páginas de livros por abrir, das tintas envelhecidas dos quadros expostos nos museus e do pó bafiento das cortinas dos teatros. Dia de luz, treva, cores, sons e sabores do que vai preenchendo os espaços vazios sedentos de conforto, de saber e de cumplicidade.
Atirei-me de cabeça a visitar o Al Berto durante A Noite entre os lustres e mármores do velho D. Maria II. E encontrei-o bem. Vivo. Apesar de estar morto, nas vozes e nos gestos de outros corpos que não o seu e que o trazem bem vivo à minha memória.
Acabou por ser um encontro de mestres, estudantes, académicos, colegas e actores, naquele mundo que tinha deixado na prateleira há já alguns anos atrás, num qualquer dia de qualquer ano mas agora com hora marcada, no mesmo átrio do lugar que veio trazer a cultura a ser partilhada.
Com isto houve um doce segundo em que me sentei a beber café na varanda do teatro e ao observar os corredores e as pessoas que passavam viajei um segundo que fosse e reservei-me a reviver um bocadinho daquilo que deixei atrás...
Tomei umas quantas decisões, durante todo o santo dia e depois, quando acordei da minha viagem. Vou voltar a estudar e não há obstáculo que me detenha até onde quero chegar. Onde preciso de chegar. Tenho sede das salas e dos livros, fome das conversas e das dissertações.
E de ter juízo, disso lembro-me, tenho quilos de fome.
Mas as cortinas da varanda esvoaçaram e tudo naquele momento se apagou.
A varanda iluminava toda a sala com as luzes provenientes da praça do Rossio, das fontes, da cidade adormecida e abandonada que tinha vindo cair ali naquele preciso momento. Convidava-a a que ficasse, mas ao espreitar mais a luz que vinha do outro lado das portas de vidro, viu Virginia Woolf sentada num das poltronas antigas do teatro, com o seu tabuleiro de folhas brancas e a caneta torta que ia molhado apressadamente no tinteiro.
Num movimento calmo, quase em câmara lenta, passara as portas e sentara-se no chão ao seu lado enquanto a ouvia murmurar as palavras que ia entrelaçando noutras palavras, de que tirava as frases confusas em que se viajava nos seus livros. Como se um sonho se tratasse à luz da voz da consciência que ela trazia sem sequer saber bem de onde. "To the lighthouse"... Seria? Poderia ser, mas sem conseguir ouvir bem o que ela dizia, porque o murmurava como se estivesse em transe à medida que os sentidos comunicavam com a mão que deslizava as letras para a folha de papel.
Aproximara-se para conseguir ler, ela nem se dera conta da sua aproximação, nem a via. O estranho passara a inacreditável, quase sublime:
"- Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself... I think I'll buy the flowers myself...You cannot find peace by avoiding life, Leonard..."
- Cortei o meu longo cabelo loiro. De uma só tesourada. De uma vez só.
Não me serve de nada, já. Sendo que não é ele que me traz valor, que me dá seja o que fôr, então que o corte. Assim talvez me possa sentar à mesa daqueles homens e participar ou saber, entender que seja, podendo por segundos ser com eles eu homem também.
Não preciso de festas, de fatos e combinações. De batalhar nada com ninguém. Esgotam-se-me as aparências, os dizeres de boca em boca, os fretes, a falta de consciência. As indecisões e sinuosidades da vida mundana... -
" - Dear Leonard. To look life in the face, always, to look life in the face and to know it for what it is. At last to know it, to love it for what it is, and then, to put it away.
Leonard, always the years between us, always the years. Always the love. Always the hours.
You cannot find peace by avoiding life, Leonard.
Love, Virginia."
Não... Era Mrs. Dalloway que Virgínia Woolf escrevia.
Deixara-a. Ouvira vozes animadas no andar de cima, a varanda ainda a convidara a ficar, mas a viagem ia já demasiado avançada.
A meio das escadas encontrara Shakespeare, eufórico a descer o corrimão enquanto balbuciava trechos de canções das suas peças e uma ou outra fala de certas personagens, maravilhado com o leque de pessoas que o rodeavam sem efectivamente o verem, na esperança de conseguir material para uma nova peça.
Ao olhar para trás, vira no fundo da escadaria Tennyson que o olhava com ar de reprovação, como se de uma criança pequena se tratasse, ao vê-lo descer pelo corrimão e voltar a subir, entrelaçando-se entre os casais de mão dada em busca de traços que apontava numas folhas amarrotadas de papel que se apressava a tirar do bolso.
Ao cima das escadas, num átrio escondido atrás de um conjunto de colunas ao redor da pequena mesa de centro estavam sentados Lincoln, Thoreau, Jefferson, Washington, Emerson, Whitman e Roosevelt, que discutiam ainda as raízes e fundações da sua nação arrefecida, as escolhas, as filosofias a que tinham ido beber os seus princípios para as mentalidades que pareciam agora tão deturpadas.
Falava-se dos índios, das guerras e das opções que lhes tinham custado vidas e mortes. Das coisas que tinham vindo dar voltas ao povo que agora se contorcia na amálgama de buracos negros em que tinha caído. Ninguém sabia de quem era a culpa, os argumentos eram muitos e a discussão seguia acesa, cada um com a visão do seu próprio tempo. Falava-se de indiferença, de engano e de valores.
Emerson, no entanto, falava do mundo que deveria ver-se peça a peça, o sol, a lua, os animais, as árvores e que o todo em que todas estas partes brilhavam como um só era a alma. A alma que todos pareciam ter esquecido.
John Kenneny não tinha podido comparecer, não era seu hábito mas as costas não lhe tinham perdoado naquele dia e Jackie tinha insistido para que ficasse em casa ao invés de participar do que chamava as tertúlias filosóficas ou reuniões políticas dos amigos.
Do outro lado da sala, Lord Byron fumava calmamente uma cigarrilha de baunilha, sentado no parapeito da Janela, enquanto recitava versos para a lua que Neruda ia compilando, traduzindo-os imediatamente para espanhol. Simplesmente sublime de observar.
Cá em baixo no Jardim de Inverno Octávio Paz, Sabines, Vargas Llosa, Miguel Angél Asturias e Júlio Cortázar trocavam ideias, atiravam linhas de poemas que se dissipavam no ar como fumo, entre um ou outro bafo de cachimbo. De vez em quando gritavam bocas aos americanos. Barbaridades dizia-se que diziam, outras vezes assentiam simplesmente com a cabeça, entreolhavam-se com ar de acerto e respeito e talvez uma ponta de admiração. Era raro. Mas dessas vezes não gritavam, não diziam nada. Lá em cima eles saberiam que era um sinal de apreço.
Depressa voltavam às linhas inquietas dos seus poemas, às actualidades das suas nações hispano-americanas, sem dar muita importância aos americanos que lá bem no fundo consideravam uns brutos, exploradores de ouro, desprovidos de uma ponta sequer de humanidade. Mas isso era no antes. Agora reuniam-se todos, davam apertos de mão vigorosos e trocavam ideias sobre os trabalhos de cada qual, ao sabor do whisky e dos charutos do final da noite.
Pessoa entrava e saia inquieto. Coisas do ópio talvez. Coisas da vida. Comentava com Paz, ajoelhado ao seu lado na cadeira. Onde andará… Onde andará? Voltando novamente a sair. Ninguém sabia o que procurava mas também ninguém parecia muito preocupado em ajudá-lo a encontrar. Mas ele entrava e voltava novamente a sair da sala com o livro debaixo do braço e olhava esperançado para Paz enquanto dizia incomodado que era uma estupidez, tudo. Uma loucura. Paz olhava-o confuso e encolhia os ombros, sem saber do que falava.
- Tenho que me deixar disto Octávio. Já não tenho idade nem cabeça para estas coisas... E o Mário já chegou velho amigo? Tenho uns poemas para lhe mostrar. Hoje não tenho assunto a discutir com nenhum de vós. Ando incansável e inconsequentemente à procura de uma coisa que não encontro e hoje não estou dado a politiquices ou tão pouco versices se é que se pode dizer assim. No teu portunhol lá me entenderás... É que anda aí outro poeta, um como nós que escreve sem lhe saber de onde. Al Berto parece-me. Tenho que lhe dar uma palavrinha com o Mário que só está cá hoje. Digno de mérito o tal sujeito mas já não é do nosso tempo. Entretanto deixo-vos, o Mário não chega e tenho umas aguardentes a pagar lá em baixo no Martinho. Ainda não perdi a esperança de encontrar aquilo que perdi pelo caminho. Talvez um deles chegue enquanto vou e venho.
Deixara-os entregues cada um a seu assunto, aos seus charutos e ao seu whisky, passando apressadamente pela escadaria de onde Shakespeare tinha caído e Tennyson se ria cá em baixo com todas as forças que tinha.
Foi então que o vi, sentado atrás do cortinado que dava acesso a um dos camarotes daquele andar.
No colo tinha um livro e na mão um copo de Whisky com pouco gelo como era seu hábito.
Aproximei-me sem me querer fazer notar apenas para observar o que fazia, não podia acreditar que tinha estado ali sentado todo aquele tempo, com toda aquela comoção do lado de fora da sala.
- Sei que estás aí, já te vi - disse. Vieste ver o espectáculo foi? Eles não falam de mim, sabes. Falam de coisas que pensam ter sido a minha vida e dizem-nas entrelaçadas nos meus textos e nos meus poemas, como se de uma simples historieta se tratasse.
- Eu sei. Quer dizer não sei, ainda não vi. Mas sei que não podiam falar de si...
- De ti. Falar de ti. Trata-me por tu. Nunca gostei dessas coisas não era agora depois de morto.
- Mas como é que... eles não me vêm e você... desculpa tu.
- É daquelas coisas. Já te tinha visto por aí a olhar para eles, eles é que ainda não me viram, é conforme lhes apetece. O Pessoa até quer falar comigo, nem sei de quê, ele já viu a peça, não traz nada de novo, basta ler o que escrevi todos estes anos e nunca ninguém leu ou deu o devido valor, só agora e nem assim entendem.
- Era para se entender que escrevias?
- Era eu, só. Quem entendesse que quisesse. Que tirassem de lá o que fosse para tirar. Eu sempre escrevi livremente e vivi de igual forma também, mas eu sei que tu sabes disso.
- Sei, ainda me lembro de si.. de ti. um dia, que nos cruzámos muito rapidamente.
- Deveria dizer-te que não lesses os meus poemas. Era mais sensato.
- Devo dizer-te então que não consigo deixar de os ler. Antes deixasse de fazer tantas outras coisas e fosse mais sensata.
- E devias. Não de ler, mas de deixar. És sensata, mas ainda és muito nova para essas coisas, eu lembro-me de ti quando ainda eras nova ainda... mas há coisas que se sabem sempre. E eu sei que tu sabes. Há coisas que nunca mudam, por mais que nos digam ou nos tentem enganar.
- Eu sei e vou.
- Então anda vai, já estão a fechar as portas da sala, depois não entras.
- Mas há tantas coisas que lhe quero perguntar…
- Eu sei, mas não há tempo, nem hora.
- E eles?
- Ficam por aí…
- E tu?
- Ficamos todos, eu também. Sei o que me queres perguntar, mas posso dizer-te que hoje lhes troquei os textos. Sabia que vinhas cá. Procura a Carta da Flor do Sol, eles dizem-na para ti… "Vou partir". Sei que é o teu preferido.
- Eu também vou... partir. Obrigada. É mesmo o meu preferido.
- Até um dia.
- Até um dia...
“vou partir
como se fosses tu que me abandonasses
o último sonho que tive era estranho
via o fundo límpido duma rua estreita
que desembocava num largo iluminado
havia leões empalhados nos passeios em areia solta
já não me lembro bem
parece que uma mulher avançava com um envelope na mão
estendia-mo e gritava
mas eu não conseguia perceber
insultava-me muito provavelmente
tinha a cara escondida por um pano branco bordado
apenas via a sua boca enorme abrir-se
e furiosamente engolir a púrpura do ar
que envolvia as cabeças reclinadas dos leões
ouvia o buzinar nervoso dos carros
exactamente como se ouvem agora
mas não conseguia vê-los
depois
um rapaz apareceu a uma esquina e reconheci-te
uma voz gravada na memória acompanhava-nos
quando nos dirigimos um para o outro
em câmara lenta
ouvíamo-la sussurrar: procuro-te
no interior as penumbras no esquecido sal
das casas abandonadas à beira-mar
procuro-te no perfume excessivo do mel
armazenado pelas abelhas no entardecer das pálpebras
vem
mergulha as mãos no troco das árvores
suspende a noite da longa viagem
estás a naufragar
o espelho quebrou-se e tu já não reconheces as paisagens
o corpo estilhaçou-se...
…
tinhas a cara mascarada com sangue quando a voz silenciou
a mulher ria
eu corria para ti sem conseguir alcançar-te
sentei-me na cama
veio-me do fundo da idade o momento em que nos conhecemos
resolvi levantar-me a meio da noite e escrever-te esta carta
…
sabes
por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço ás mãos da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam guardado o sabor do teu corpo.
....
caminhamos em direcções opostas
ou melhor
eu caminho enquanto tu não existes.”
Al Berto (1948 – 1997)
O Medo - Antologia 1974 - 1997
23 anos de obra com 23 meus de vida
Obrigada, Al Berto.
1 comment:
sabes
por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço ás mãos da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam guardado o sabor do teu corpo.
....
caminhamos em direcções opostas
ou melhor
eu caminho enquanto tu não existes.”
QUISESTE PARTIR. ENTENDO TE. MAS PARTE SEM MÁGOA PORQUE TE ADORO.
G.
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