Deixara-se cair pesadamente sobre a cama. Era tarde. Passava pouco da uma da manhã mas sentia como se tivesse acabado de chegar a casa de madrugada.
O cabelo ainda lhe cheirava a um qualquer fruto que não conseguia identificar mas não a framboesa como lhe era habitual. Gostava do habitual, mas a mudança era sempre boa, quando para melhor. Porém, nem sempre era perceptível de quando a mudança era realmente para melhor, como naquele caso.
Parecia-lhe inacreditável, inconcebível. Entre o cansaço e a amálgama de pensamentos que lhe corriam como um filme de takes desordenados no tecto do quarto, entranhava-se-lhe o cheiro do cabelo e o perfume que levava na roupa. Lembranças. Tudo ao mesmo tempo, tudo sem tempo, no tempo, sem querer tempo, desculpas de tempo, e tempos, desfazados.
E perguntava-se, para quê? Só se conseguia perguntar, mas afinal para quê?
Sentia vontade de dar pontapés a todas as pedras do caminho, a todas as ditas pedras que lhe haviam dito que guardasse. Parecia que o castelo ruía um bocadinho todos os dias, assim a frase não fazia sentido. Era demasiado difícil continuar a construir uma coisa que parecia desmoronar-se tão facilmente.
Mas não podia ter fraquezas, não lhe tinham dado esse luxo, olhava à volta e ninguém as tinha, o que era mentira e todos sabiam, mas todos se davam ao direito de julgar e só o facto de as ter era em si um gravíssimo sinal de fraqueza.
Vira-o no outro dia, sentado numa cadeira à beira de uma varanda de grades velhas a fumar um cigarro de enrolar na calma das noites das entranhas dos bairros de Lisboa.
Já ninguém fumava tabaco de enrolar. Já ninguém se sentava à noite à beira de varandas velhas a fumar um cigarro de enrolar. Também já ninguém fazia muita coisa que devia ser feita.
Mas entretanto a varanda afundara-se, num lago fundo onde muitas pessoas dançavam coisas estranhas e se empurravam e rodopiavam entre corredores de espelhos e vidraças.
Não era possível compreender. Só de manhã quando se acordava e tudo continuava a não fazer sentido.
Quando tudo continuava absolutamente na mesma.
Talvez se se virasse para o lado o quadro lhe parecesse diferente. Mas não. Continuava...
Vazio.
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