Monday, April 10, 2006

Três dias depois, esperando a meia-noite

Depois de ouvir falar o povo e o erudito, o estudante e o mais ancião, os dialectos do norte, do sul, dos estados litorais, e dos interiores, tinha ouvido as formas mais simples nas festas e lido grandes antologias de poemas e obras épicas, quer no silêncio da casa ou no aconchego dos institutos e auditórios que se abriam às palestras.
No entanto um dia cansara-se de ouvir aquelas palavras naquela língua que tanto tornara tornar sua, enjoara-se e enojara-se da sua pronúncia, da sua falta de espontaneidade ao tentar tornar aquela língua estranha numa língua sua. Desta vez aguentara mais do que tinha imaginado, apaixonara-se efectivamente pelas palavras e pelos ditos mais diversos mas deixara de sentir-lhes sentido e pouco a pouco todas aquelas palavras e sons se lhe tinham tornado ocos e vazios, quer falados, quer escritos.
Três dias depois tinha começado a fazer o luto, esperando sempre pela meia-noite para se congratular por mais um dia em que tinha consigo não chorar, não pensar, não sentir e quase não respirar. Mas apesar de a meia-noite tardar sempre em chegar, naquela noite tinha decidido, depois de muito pensar, tirar apenas mais dois dias para o chorar juntamente com tudo aquilo que perdia, enterrando na mesma tumba os ossos, as memórias e os vocábulos.
Sentara-se então na janela numa noite em que a lua minguava alta e perguntara para o vazio o que lhe parecia se o amasse apenas mais dois dias. Não obtendo resposta decidira que lhe parecia bem e assim ficara durante os dois dias seguintes a soltar lágrimas de ar que não molhavam nem tinham textura, para folhas de papel transparente que voavam com a deslocação da brisa que ia passando.
Passados dois dias de se ter sentado à janela, ao chegar da meia-noite olhara para cima e para o vazio, e dissera apenas:
- Já não te amo mais.
E levantara-se, soprara levamente as folhas de papel que ainda não tinham voado, transformando-as em nada, como se nelas soprasse todas as suas memórias, enterrando-as no esquecimento, com todos os sons, as texturas e as imagens, naquele vazio, sem raiva. No nada.
No dia seguinte, não tinha esperado a meia-noite, quando vira as horas já era demasiado tarde para recordar e também para esquecer.

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