O poeta e pintor Mário Cesariny, principal representante do surrealismo português, morreu esta madrugada em sua casa, em Lisboa, aos 83 anos.
Cesariny destacou-se pela produção artística variada, pela pintura, colagem, poesia, humor e música passaram as mãos irrequietas e experimentalistas do artista.
"Mário Cesariny é antes de tudo um ser superior, o ser mais admirável que eu conheci", comentou, comovido, o amigo Carlos Cabral Nunes.
Para Cesariny, homossexual assumido, o amor era "um desmesurado desejo de amizade", em que "o outro é um espelho sem o qual não nos vemos, não existimos", e "a única coisa que há para acreditar"."[É] o único contacto que temos com o sagrado. As igrejas apanharam o sagrado e fizeram dele uma coisa muito triste, quando não cruel. O amor é o que nos resta do sagrado", defendia.
Sobre as sessões para que o convidavam e em que o aplaudiam, o poeta comentava:
"Estou num pedestal muito alto, batem palmas e depois deixam-me ir sozinho para casa. Isto é a glória literária à portuguesa".
Em 2005, recebeu as duas únicas distinções da sua carreira: o Grande Prémio Vida Literária APE/CGD, pelo conjunto da sua obra, e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, que lhe foi entregue pelo então Presidente da República Jorge Sampaio. Nos últimos anos de vida, desenvolveu uma frenética actividade de transformação e reabilitação ou "redenção" do real quotidiano, da qual nasceram muitas colagens com pinturas, objectos, instalações e outras fantasias materiais.
"Gostava de ter daquelas mortes boas, em que uma pessoa se deita para dormir e nunca mais acorda", afirmou em "Autografia".
Ainda assim morreu em paz, como queria.
Apesar de ter afirmado que a sua escrita tinha secado, que não sentia necessidade de escrever, porque não tinha nem por quê, nem para quem, e de a sua poesia ser como dizia "um fogo muito grande que ardeu", "depois ficaram as cinzas", centelhas da sua eternidade.
Que não morra então a obra, assim não morrerá nunca o autor.
Caso para se dizer... you are welcome to eternity!
E aqui fica:
De profundis amamus
"(...)Não
faz mal abracem-me os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso."
2 comments:
A obra sobrevive ao Mestre, é essa a verdade que nos faz prosseguir e não deixar morrer nunca a Literatura e todas as Artes... por ele tocadas e por nós, seus apreciadores, tão queridas. Portugal e o Mundo ficaram hoje menos ricas e um pouco menos vibrantes, mas a memória faz reviver, é assim que se continua.
E que tristeza tão grande me trespassou a alma, quando, dias após me inspirar nele para um pequeno poema o vejo partir assim...
Um beijo,Teresinha.
Entendo.
Este Ser decorava as palavras de uma maneira completamente única!
Estranho como um luto nunca vem só...
Ao menos ele morreu como queria sabes, o que não diz que não tenha sofrido de esquecimento como alguns dos outros. Isso é que sobretudo me deixa muito triste, a injustiça e a indiferença dos homens.
Maldito luto, pelo menos concordo contigo, a eternização deles continua porque haverá sempre alguém que não deixa morrer a literatura.
A inspiração é uma benção. Olha bem que privilégio poderes ver de onde veio a tua...
Beijinho grande Sara.
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