Sunday, November 26, 2006

Levando um a um, vão contigo mortos e também vivos... A Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006)

O poeta e pintor Mário Cesariny, principal representante do surrealismo português, morreu esta madrugada em sua casa, em Lisboa, aos 83 anos.
Cesariny destacou-se pela produção artística variada, pela pintura, colagem, poesia, humor e música passaram as mãos irrequietas e experimentalistas do artista.

"Mário Cesariny é antes de tudo um ser superior, o ser mais admirável que eu conheci", comentou, comovido, o amigo Carlos Cabral Nunes.

Para Cesariny, homossexual assumido, o amor era "um desmesurado desejo de amizade", em que "o outro é um espelho sem o qual não nos vemos, não existimos", e "a única coisa que há para acreditar"."[É] o único contacto que temos com o sagrado. As igrejas apanharam o sagrado e fizeram dele uma coisa muito triste, quando não cruel. O amor é o que nos resta do sagrado", defendia.

Sobre as sessões para que o convidavam e em que o aplaudiam, o poeta comentava:
"Estou num pedestal muito alto, batem palmas e depois deixam-me ir sozinho para casa. Isto é a glória literária à portuguesa".
Em 2005, recebeu as duas únicas distinções da sua carreira: o Grande Prémio Vida Literária APE/CGD, pelo conjunto da sua obra, e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, que lhe foi entregue pelo então Presidente da República Jorge Sampaio. Nos últimos anos de vida, desenvolveu uma frenética actividade de transformação e reabilitação ou "redenção" do real quotidiano, da qual nasceram muitas colagens com pinturas, objectos, instalações e outras fantasias materiais.

"Gostava de ter daquelas mortes boas, em que uma pessoa se deita para dormir e nunca mais acorda", afirmou em "Autografia".

Ainda assim morreu em paz, como queria.
Apesar de ter afirmado que a sua escrita tinha secado, que não sentia necessidade de escrever, porque não tinha nem por quê, nem para quem, e de a sua poesia ser como dizia "um fogo muito grande que ardeu", "depois ficaram as cinzas", centelhas da sua eternidade.
Que não morra então a obra, assim não morrerá nunca o autor.
Caso para se dizer... you are welcome to eternity!
E aqui fica:

De profundis amamus
"(...)Não
faz mal abracem-me os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso."

2 comments:

Sara M. Felício said...

A obra sobrevive ao Mestre, é essa a verdade que nos faz prosseguir e não deixar morrer nunca a Literatura e todas as Artes... por ele tocadas e por nós, seus apreciadores, tão queridas. Portugal e o Mundo ficaram hoje menos ricas e um pouco menos vibrantes, mas a memória faz reviver, é assim que se continua.

E que tristeza tão grande me trespassou a alma, quando, dias após me inspirar nele para um pequeno poema o vejo partir assim...

Um beijo,Teresinha.

Teresinha said...

Entendo.
Este Ser decorava as palavras de uma maneira completamente única!
Estranho como um luto nunca vem só...
Ao menos ele morreu como queria sabes, o que não diz que não tenha sofrido de esquecimento como alguns dos outros. Isso é que sobretudo me deixa muito triste, a injustiça e a indiferença dos homens.
Maldito luto, pelo menos concordo contigo, a eternização deles continua porque haverá sempre alguém que não deixa morrer a literatura.
A inspiração é uma benção. Olha bem que privilégio poderes ver de onde veio a tua...
Beijinho grande Sara.