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E que tal viver-se sempre no verão em vez de se viver no outono?
Há de haver sempre dias de inverno, todos os temos, mas era bom daqui a muitos anos não se ter a memória apenas cheia de quases mas sim de coisas completas e significativas, quando se tiver efectivamente tempo para pensar, nos dias de inverno que forem chegando e teimarem em não passar.
Viver no verão todo o ano...
Parece-me perfeito, mesmo em dias frios de chuva andar descalço em casa e sentir sempre, nunca deixar que se sinta o nada.
Para não quase se viver, penso essencialmente que há que viver sem "quases" ou sem "meios nadas", para que se vivam e se lembrem sempre mais do que ocos e meios "coisas nenhumas".
E aqui fica.
Quase
Luiz Fernando Verissimo
Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase.
É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.
Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono. Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados.
Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance; para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar a alma.
Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.
Que passem talvez mais depressa os dias de inverno...
2 comments:
eu compreendo a ideia do texto. Mas pareceu-ne que falta ai o ponto de vista negativo: a vida tem coisas más e a forma como lidamos com elas pode dar-nos força e fazer-nos apreciar melhor... tudo! não precisa de ser só o amor pelo verão. além de que é sempre má ideia deixar que o outono ganhe.
Teresa, o texto do Luís Veríssimo tem ideias interessante e faz-nos, de facto, reflectir sobre algumas coisas desses Invernos que tanto custam a atravessar e desse 'tudo' sempre cheio de 'quases' e de 'nadas'.
A tua introdução é igualmente bonita, sobretudo a ideia de "vivermos no Verão todo o ano"... mas deixo-te também eu algo para "meditares": Se vivessemos no Verão o ano inteiro, o que nos daria o inigualável gosto de um Sol quente de Inverno? e que mais nos daria a certeza de que estamos a disfrutar de um merecido Verão porque o Inverno...esse, já lá vai...?
Espero ver mais textos por aqui,
e que o Sol vá brilhando de vez em quando!
A tua colega
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