A chuva era quente e a água escorria fria.
Escorria e voltava a escorrer.
De repente só se lembrava de ter estado presente em lugares longínquos de ninguém, sempre com chuva, neve e vento, onde se carecia da ausência de memórias, onde eram abafadas as reminiscências das histórias, e escorria bem alto o som quente da verdade.
Ali as mãos nunca se tinham dado, as peles nunca se tinham tocado e os olhares nunca se tinham cruzado.
Eram lugares onde só paravam poetas carcomidos da fome e do desejo, bêbados dos fundos das garrafas vazias e de poemas inacabados das vidas que tinham ficado por viver.
Nas ruas só se viam passar os indigentes, estes estranhos de mãos tremidas, pobres famintos de palavras mordidas, línguas ávidas de qualquer sensação.
Já eram quase onze, pensava. E ela só queria dormir. Dormir e voltar a dormir, só... para tão depressa não ter de acordar.
Já não tinha a pele carregada de sal, mas sentia os músculos embebedarem-se lentamente pela boca de uma embalagem de ácido muriático, que alguém deixara esquecido no jardim.
Coisas sem sentido, pensava. Daquelas loucuras algo lúcidas que só os outros não vêm.
A vontade de querer parar de escrever voltara a surgir-lhe na mente. A premência, a importância de saber não conseguir continuar. Era a dormência do cérebro e o peso da mão que alimentavam o ódio das canetas e o enjoo do papel.
Começava a correr-lhe nas veias aquela confusão do cérebro a precisar de escrever quando a mão queria parar.
- Gostava de voltar para casa. - dissera
- Para onde??. -
Tinha subitamente voltado a cabeça para trás, olhando-a com desdém através de uma expressão repressiva de surpresa.
- Deves estar a brincar. Não sei para que raio de casa queres tu agora voltar... Tu não moras em lugar nenhum, ou melhor, o teu problema é que tu moras em todo o lado. Talvez fosse bom deixares o medo das decisões de lado para saberes bem para onde queres voltar.
- Desta vez foste tu que não percebeste. Eu sei muito bem para onde estou a ir. Só me assusta o não ter medo absolutamente nenhum.
A imagem desvanecera-se, voltavam a ficar somente as palavras e o papel.
Lá fora deambulavam ainda as sombras mortas dos poetas enquanto a chuva caía.
Mas lá dentro estava frio e a sala continuava vazia.
Tinha-se encostado entre o guarda-roupa e o chão e deixara que o braço continuasse o seu trabalho enquanto a mão escrevia. Adormecera, rastejando depois para a cama que continuava a ter as mesmas dimensões. Ao olhar a janela vira que afinal já vinha a nascer o dia, mas voltara a adormecer no voltar de um sonho.
Era mais fácil continuar a dormir, do que ter então que acordar.
"Ainda te vejo a carregá-lo ao colo, como me carregarias a mim.
Ainda te vejo. Todos os dias nos risos e nos choros das memórias.
Vejo-te a ti que passas sempre nos desígnios das horas que ficaram.
Há dias em que me pergunto para onde deixámos fugir tantos sonhos, tantas palavras e tantos sentidos. Tantos sentimentos que passaram despercebidos.
Também eu queria parar, deixar de pensar na impossibilidade de Deus ainda um dia acordar a pensar se ainda nos há de querer juntar.
Acordo e penso em todos os sorrisos, todas as birras que perdemos, nas noites que não nos deixaria dormir e em todas aquelas outras em que não quereríamos fechar os olhos com medo de não o ver acordar.
Ás vezes ainda penso.
Lembro-me que te dei tudo aquilo que ainda resta para que o pudesses levar contigo.
Lembrei-me que afinal já nada resta.
Pensas que ninguém vê.
Cegámos. Enquanto o vento soprou as muralhas ditas tão fortes.
Afinal fui eu não quis saber.
Eram feitas de cartão..."
2 comments:
Mas o nascer de mais um dia é sempre um novo alento, não é? O Sol é fonte de vida, e não o é só para as plantas, mas também para nós, animais resequidos por uma sociedade mecanicista, corrosiva e absorvente... Anima-te, rapariga! ;)
O saber simplesmente que todos os dias o sol nasce para um dia que não tem, nem terá nada igual vindo do antes ou do depois dá toda a força necessária.
Não é preciso mais nada. A sociedade pode continuar corrosiva, absorvente, manipuladora, desprovida de sentido e tudo mais. VAZIA até!
Nada disso importa. Amanhã é já outro dia!
Animada! há coisas que não valem mesmo a pena :)
Beijinhos!!
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