Gostava de saber para onde foste.
Parece-me que já passou tanto tempo desde o dia que não mais foi dia, e gostava de saber agora como te chamas. Para quem e por que linhas escreves...
Se ainda escreves.
Se ainda te chamas.
Parece-me que perdes letras do teu nome todos os dias, esse acabado que em pouco tempo talvez perca o som por não ter quem o chame. Ou por quem é talvez ganhe, com tantos outros que há ainda a chamarem-te pelo nome que o trocaste.
Eu aqui para ti escrevo, para mim que já não procuro.
Escrevo para dar forma e razão às coisas que não a têm. Para me dar razão a mim e a ti que também já a sabes ter.
Para dar o nome às coisas depois de teres passado e as nombrares, desnombrando-as também para mim.
Ás vezes penso que também a ti te apetece gritar e ao mesmo tempo dizer coisa nenhuma.
Agora escrever pouco vale a pena, poupa-me o gravarem-se no papel coisas que deveriam ter sido ditas e feitas, e embora o cérebro não me deixe e fervilhe correndo mais depressa para o papel contra a vontade da mão, escrevo sem escrever o que quem escreve sabe poder sem esta maldita ilusão.
Parecem-me agora o movimento da mão e as trocas das sinapses incontroláveis, e talvez então escrever no silêncio melhor que dizer nada sobre coisa nenhuma.
Escrever para quem quiser juntar as palavras sem ordem descrita.
Escrever só.
Para mim ou para ti?
Para ninguém.
Escrever por escrever. Não há ordem, não há escrita.
As palavras são como a chuva, assim que caem fundem-se no chão, mas certas delas são também como o vento, porque levam tudo o que estiver à frente com a força e a rapidez de um tufão.
Não fica nada depois das palavras, só o vazio.
Ainda tenho que subir mais um degrau que não chega, faltam ainda três e no final quatro ou dez ou talvez quinhentos. A juventude pode realmente ser entediante e maçadora, já só se querem homens e mulheres feitos, nunca jovens ou crianças.
Um dia talvez acordes e sintas, o quão triste é dormir sozinho em camas grandes.
O dormir sozinho, o domir simplesmente, só. O sentir o tudo entrelaçado no nada.
Não tenho vontade de nada, nem falta de tudo. Tenho um vazio, um oco que ecoa o teu nome nas paredes destas salas que já não têm cores, nas minhas vontades que já não se traduzem. Em todas as coisas que de feridas passaram a tumores.
Pesa...
Cada palavra, cada pensamento.
Mas se há tumores que diminuem gradualmente todos os dias, outros crescem.
O meu não... Já pouco importa.
E não penso mais.
Tampouco te procuro porque voaste.
Porém, aqui ficaram folhas brancas à espera das palavras que me levaste, ou então que lhes desse só tinta. Aqui, nuas e ávidas de letras a beber o suor da minha mão.
E tu, Maldita...
Maldita, Maldita, Maldita.
De tantas asas que tens, bem que podias também voar.
Maldita quantas vezes sejas,
que eu não te posso matar.
Maldita porque de mim tudo queres,
e dos outros tudo desejas.
Maldita tu enfim,
por tudo aquilo que sejas
que dos outros eu não posso, nem te vou poder tirar.
No comments:
Post a Comment