Thursday, August 09, 2007

Heading out the door...

A beleza deste país inebria os sentidos de quem passa

E não... Há coisas que nunca são demais.
Coisas, dessas tamanhas que não se esquecem
daquelas que vêm, ficam, e permanecem.
Outras porém, são precisas sentir para poder lembrar.
A saudade, essa sim também é tamanha,
sendo em sonhos que eu parto
e que saíndo voo, sempre a querer voltar.
Não sei se é cansaço de querer partir...
ou vontade concreta de querer ficar.
Mas sei que viver aqui por vezes cansa
para quem fica...
ao invés de poder voar.


Thursday, August 02, 2007

Desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela...

todo o santo dia bateram à porta. não abri, não me apetecia ver pessoas, ninguém.
escrevi muito, de tarde e pela noite dentro.
curiosamente, hoje, ouve-se o mar como se estivesse dentro de casa.
o vento deve estar de feição. a ressonância das vagas contra os rochedos sobressalta-me. desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela.
sou um homem priveligiado, ouço o mar ao entardecer, que mais posso desejar?
e no entanto, não estou alegre nem apaixonado, nem me parece que esteja feliz.
escrevo com um único fim: salvar o dia.

Al Berto

Monday, July 23, 2007

O Silêncio ou as Palavras


"Há momentos na vida em que nos deveríamos calar e deixar que o silêncio falasse ao coração, pois há sentimentos que a linguagem não expressa e há emoções que as palavras não sabem traduzir."


Uma coisa que devia aprender...
Começo a gostar do silêncio. Talvez demais.
No entanto, acho que não mais dele do que das palavras.
Uma mudança talvez. Deixei-as presentes
tornando-as silenciosas.

Sunday, July 22, 2007

"Para o meu coração basta o teu peito, para a tua liberdade as minhas asas, e da minha boca chegará até ao céu, o que estava adormecido na tua alma."

Eventually...
We will end up meeting on one of those hidden corners,
one of those that life has in store for strangers that have once met,
strangers lost in any ohter given day, in the midst of their unrealible path.

Strangers like us, who are ultimately nothing more
than total and perfect strangers
that were never given the chance to meet,
only by the works of fate.

Yes, this is type of strangers that I too
have made us become.
Srangers that have once met
and might still need to meet once more...
just to clear everything that has not been cleared,
to then not cross ever again.

Tuesday, July 03, 2007

As cidades, parecendo todas iguais, e uma talvez à minha espera

Há aquelas que nos viram nascer, aquelas que já tivemos bem perto e guardam bocadinhos do nosso coração.
Muitas vivências, pessoas e também segredos.
Quantidades infindáveis de sorrisos.
As cidades não são como as pessoas, quando as temos ficam para sempre, mesmo que estejamos bem longe.
Aqui deixo algumas das minhas, a que me criou, as duas que já tive mas nunca deixei
e aquelas que sempre me tiveram em sonhos,
e que em segredo me esperam.
Para breve, espero eu.
Porque sem meras poeticisses, já fui e voltei sempre com o coração na mão.
Muitas vezes o deixei, fui e depois voltei
e as cidades sempre ficando com ele, nunca o atirando ao chão.
Assim sendo, sem poeticisses...
Uma pequena glória àquelas cidades que de longe, temos tão perto.
Assim simplemente,
Porque há coisas que se guardam, outras que ficam.
E porque as pessoas nos desiludem, mas cidades não.







Tuesday, June 19, 2007

Saudades sei lá do quê...

O meu mundo não é como o dos outros,

quero demais, exijo demais,

há em mim uma sede do infinito,

uma angústia constante que eu nem mesma compreendo,

pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com alma intensa, violenta,
atormentada, uma alma que não se sente bem onde está...

que tem saudades... sei lá do quê!

Florbela Espanca




Sunday, June 10, 2007

Leaving so soon???

You must think I'm a fool
So prosaic and awkward and all
D'you think you've got me down?
D'you think I've never been out of this town?

Do I seem too eager to please to you now?
You don't know me at all
I can't turn it on,
turn it off like you now
I'm not like you now

Now you're here
I bet you're wishing you could disappear
I'm trying to be kind
I get the feeling you're just killing time

You look down on me
Don't you look down on me now

You don't know me at all
A slap in the face
In the face for you now
Just might do now

You're leaving so soon...
Never had a chance to bloom
But you were so quick
To change your tune
Don't look back
If I'm a weight around your neck
Cos if you don't need me
I don't need you

Leaving so soon, soon
Leaving, leaving so, soon

You're leaving so soon
Never had a chance to bloom...
But you were so quick
To change your tune

Don't look back
If I'm a weight around your neck
Cos if you don't need me
Then I don't need you

Friday, May 25, 2007

Fazer poesia é confessar-se...


Abraça me...

Sunday, May 20, 2007

And after all..."Nothing succeeds like success!"

Das palavras de um grande vitoriano citado por uma grande professora faço minhas, estas que são bem mais simples, de um agradecimento por uma coisa tão simples e de aparentemente tão pouca importância, mas que no fundo significou a concretização efectiva de todo um ciclo.
Foi bonito...
Foi mesmo muito bonito, todo ele desde o príncipio ao fim. E agora que penso, não só este dia mas também estes quatro anos em que tanta coisa aconteceu e ao longo dos quais me foi dada a oportunidade de aprender tanta coisa, e em que acima de tudo sei que me mantive sempre fiel a mim própria.
Não vejo que seja o fim de uma era,
mas apenas uma expansão de tudo isto que ando
a construir há tanto tempo.
Não penso no que acabou mas sim no tanto que virá a seguir!
E finalmente, obrigado sobretudo aos que estiveram presentes e também aos que gostaria que tivessem estado.
No fundo fazem e fizeram todos parte de certa parte da minha vida.

"Agora viro à esquerda ou viro à direita?
Porque o caminho da frente já não me aceita.
Não é solução perfeita
é a solução circular
não voltes atrás se não começas-te a atrasar ...


...Cada passo que dás
é sempre decisivo
chama-lhe estranho
mas é a maneira que eu vivo..."



"And in the end, it's not the years in your life that count.
It's the life in your years."
A. Lincoln

Tuesday, May 08, 2007

Batem as portas em tons...

Assim, disso já nada me importa
e muito pouco me importuna.
Por isso vê que não vale a pena...
Essas coisas chamadas nada
não servem para coisa nenhuma.
Sei que há que cair e
que me queres apanhar.
Mas não me chames doido a mim...
que não sei quem te vai parar.

Assim batem as portas
sem tons nem suplicios.
E é vê-los cair das vidas nos precipícios
como corpos... do nono andar.

East or West, do or die?

Lembro fotograficamente os teus olhos vidrados,
cheiamente vazios.
Lembro-me, neste momento, mais deles do que de ti.
Que será feito de ti?
Talvez, no formidável algures da vida...
Casaste. Creio que és pai. Deves ser feliz.
Porque não haverias de o ser?

Só por maldade...
Sim seria injusto...
Injusto?

(Era um eclipse pelo mundo e eu
contemplava da janela, sorrindo.)

A vida...
Branco ou tinto é o mesmo: é para vomitar.


(Poema de Fernando Pessoa)
_alterado e adaptado_

Tuesday, April 10, 2007

Tens Lume?

Perdi-te no caminho para casa
Comprei um maço de ciagarros
Sabendo que nunca os fumaria
Talvez quisesse tê-los para os dar

As mulheres não nos pedem doces
Pedem antes bebida ou tabaco
É claro que querem doces, afectos
Mas isso não pedem, oferecemos um
cigarro
Roubamos-lhes cinco minutos de vida
De cinco en cinco minutos tentamos
agarrá-las
Enfiar-lhes um cancro no coração.

Tens lume?
Tenho, tenho...


Diogo Vaz Pinto in http://omelhoramigo.blogspot.com

Friday, March 30, 2007

E entre nós e as palavras, o nosso querer falar...

"Metade dos nossos erros na vida nascem do facto de sentirmos quando devíamos pensar e pensarmos quando devíamos sentir."

Wednesday, March 28, 2007

História de Cão

eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento

tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros

entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada

depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou

ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia

estão ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar

e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo

o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória

dos lados não ficou nada

Mário Cesariny

Tuesday, March 20, 2007

E nós ambos, sem amor, lado a lado

Mais um que diz adeus, mais um que lembra os seus...

Não é Deus
Nem ilusão
É pão p’ra multidão

Em frente sem sol nascente...

Sem direcção
Na mão.

Monday, February 26, 2007

"But love left a window in the skies"

Deixei uma mão quente e outra fria
nas pedras do outro lado do rio,
rio esse que lava as pedras que tinha
para atirar nas minhas mãos,
e as ondas agitadas dos barcos que
atiram espuma suja contra as rochas.

No céu funde-se o azul dos teus olhos
que desaprece no horizonte com a imagem cega do Rei.
Desaparece...
e desaparece...

As ondas retraem-se enquanto os barcos zarpam
enquanto o sol se põe e
os comboios passam.

Levo comigo uma mão quente e outra fria.
Uma do teu toque, outra da agonia...
E os teus olhos desaparecem...
porque eu levo uma mão sempre quente,
e a outra
trago sempre fria.

Tuesday, February 20, 2007

Caravelas

Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar morto:
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!

Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...


Florbela Espanca, Livro de Soror Saudade

Saturday, February 03, 2007

"Pães"

Se deixasse passar a época das frequências com a desculpa de não ter um minuto sequer para escrever aqui o que quer que seja, poderiam ser quase dois meses até voltar a aparecer finalmente alguma coisa. Não é que muitos leiam mas a verdade é que isso não me importa pão, quem lê, lê porque quer e gosta e a verdade é que apesar de eu não perceber pão do que se tem estado a passar ultimamente, não tenho tido a minima vontade de escrever e menos ainda de publicar. Admito que me passaram pela cabeça umas mil ideias para posts novos mas como é de verificar não escrevi nenhuma.
Acho que efectivamente acabavam por não fazer qualquer sentido, senão estariam de certeza aqui escritas em vez de ter pensado duas vezes e as ter mandado para de onde elas tinham vindo.
Simplesmente sem sentido, ou seria talvez porque não tenho mesmo pão para dizer?
Felizmente há coisas que acabam sempre por correr bem e o cérebro é o mais feliz de todas essas coisas já que se tem estado a alimentar decentemente, a verdade é mesmo que diarreia mental não faz bem a ninguém, e eu fartei-me um bocadinho "assim" dela.
Imagino que não estejam a perceber pão deste post e que se estejam mesmo a perguntar se estarei meia doida ou até a razão desta repetição doentia da palavra pão.
Ora bem, eu também não sei, porque como já referi acima, não percebo pão de "tudo isto".
No entanto acho que uma vez ouvi dizer qualquer coisa como "pão é alento" e talvez seja esse chamado alento coisa que eu não tenho, ou coisa que me tem estado a faltar.
Nada grave claro, mas de certo modo confuso, talvez tenha outro nome mas foi este que encontrei agora para lhe dar e não pensei que viesse a perceber que me faltava.
Por agora pode pasar a chamar-se melhores dias de realização concreta virão. Ou apetite, foi isto agora que pura e simplesmente me apeteceu escrever. Mesmo que não tenha grande sentido.

Melhores poesias, melhores rimas e pensamentos que não tenho tido alento nem disposição para publicar virão.
Porque no fundo o alento vem assim como vem o pão.
Enquanto um verso vai e volta, um sentimento passa e um momento segue, passam e voltam as vontades para se perceberem o que são.

Tuesday, December 12, 2006

Dust in your eyes

"As pessoas são como janelas de vitrais.
Reluzem e brilham quando o sol se expõe, mas quando a escuridão se instala, a sua verdadeira beleza é apenas revelada se houver uma luz proveniente do seu interior."

He who controls the present, controls the past.
He who controls the past controls the future.
George Orwell

And yet there is nothing needing to be controlled, for there is no control of nothing at all.
Para os vitrais presentes na minha vida. Vocês que ainda brilham mais intensamente na escuridão.
Há sem dúvida muita luz aí dentro do seres únicos que são.

Saturday, December 09, 2006

Fim

Neste infinito fim que nos alcançou
guardo uma lágrima vinda do fundo
guardo um sorriso virado para o mundo
guardo um sonho que nunca chegou

Na minha casa de paredes caídas
penduro espelhos cor de prata
guardo reflexos do canto que mata
guardo uma arca de rimas perdidas

Na praia deserta dos dias que passam
Falo ao mar de coisas que vi
Falo ao mar do que conheci...

No mundo onde tudo parece estar certo
guardo os defeitos que me atam ao chão
guardo muralhas feitas de cartão
guardo um olhar que parecia tão perto

Para o país do esquecer o nunca nascido
levo a espada e a armadura de ferro
levo o escudo e o cavalo negro
levo-te a ti... levo-te a ti....
levo-te a ti para sempre comigo...

Na praia deserta dos dias que passam
Falo ao mar de coisas que vi
Falo ao mar do que nunca perdi.

Fim - Toranja

Monday, December 04, 2006

26 anos depois...

Não podia deixar de lembrar este dia. O não poder esqueçer que ainda um dia existiram homens bons neste nosso país.
Continuamos a não comemorar os nosso feriados, a não honrar os nossos feitos nem as nossas vitórias, nem a glorificar as nossas gentes, mas já houve quem pelo menos o quisesse sonhar.
Parece que quem sonha vai sempre primeiro mas deixando cá, no entanto, sempre qualquer coisa, mostra talvez que vale sempre a pena continuar a sonhar.

Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro

(Porto, 19 de Julho de 1934 - Camarate, 4 de Dezembro de 1980)

Saturday, December 02, 2006

Amor

Para quem ama, já amou, quer ou não quer amar.
Para quem ama perto, para quem ama distante, para quem ama com prazos e para quem ama cada instante.
Para quem já não ama, para quem ama sem amar.
E especialmente para quem ama, sem porquês nem dados, como diz o poema, todo o tipo de amores não pensados, simplesmente por amar.

Sempre, para sempre

Há amor amigo
Amor rebelde
Amor antigo
Amor de pele

Há amor tão longe
Amor distante
Amor de olhos
Amor de amante

Há amor de inverno
Amor de verão
Amor que rouba
Como um ladrão

Há amor passageiro
Amor não amado
Amor que aparece
Amor descartado

Há amor despido
Amor ausente
Amor de corpo
E sangue bem quente

Há amor adulto
Amor pensado
Amor sem insulto
Mas nunca tocado

Há amor secreto
De cheiro intenso
Amor tão próximo
Amor de incenso

Há amor que mata
Amor que mente
Amor que nada mas nada
Te faz contente me faz contente

Há amor tão fraco
Amor não assumido
Amor de quarto
Que faz sentido

Há amor eterno
Sem nunca talvez
Amor tão certo
Que acaba de vez

Sempre Para Sempre - Donna Maria

Wednesday, November 29, 2006

Muralhas de cartão

A chuva era quente e a água escorria fria.
Escorria e voltava a escorrer.
De repente só se lembrava de ter estado presente em lugares longínquos de ninguém, sempre com chuva, neve e vento, onde se carecia da ausência de memórias, onde eram abafadas as reminiscências das histórias, e escorria bem alto o som quente da verdade.
Ali as mãos nunca se tinham dado, as peles nunca se tinham tocado e os olhares nunca se tinham cruzado.
Eram lugares onde só paravam poetas carcomidos da fome e do desejo, bêbados dos fundos das garrafas vazias e de poemas inacabados das vidas que tinham ficado por viver.
Nas ruas só se viam passar os indigentes, estes estranhos de mãos tremidas, pobres famintos de palavras mordidas, línguas ávidas de qualquer sensação.
Já eram quase onze, pensava. E ela só queria dormir. Dormir e voltar a dormir, só... para tão depressa não ter de acordar.
Já não tinha a pele carregada de sal, mas sentia os músculos embebedarem-se lentamente pela boca de uma embalagem de ácido muriático, que alguém deixara esquecido no jardim.
Coisas sem sentido, pensava. Daquelas loucuras algo lúcidas que só os outros não vêm.
A vontade de querer parar de escrever voltara a surgir-lhe na mente. A premência, a importância de saber não conseguir continuar. Era a dormência do cérebro e o peso da mão que alimentavam o ódio das canetas e o enjoo do papel.
Começava a correr-lhe nas veias aquela confusão do cérebro a precisar de escrever quando a mão queria parar.
- Gostava de voltar para casa. - dissera
- Para onde??. -
Tinha subitamente voltado a cabeça para trás, olhando-a com desdém através de uma expressão repressiva de surpresa.
- Deves estar a brincar. Não sei para que raio de casa queres tu agora voltar... Tu não moras em lugar nenhum, ou melhor, o teu problema é que tu moras em todo o lado. Talvez fosse bom deixares o medo das decisões de lado para saberes bem para onde queres voltar.
- Desta vez foste tu que não percebeste. Eu sei muito bem para onde estou a ir. Só me assusta o não ter medo absolutamente nenhum.
A imagem desvanecera-se, voltavam a ficar somente as palavras e o papel.
Lá fora deambulavam ainda as sombras mortas dos poetas enquanto a chuva caía.
Mas lá dentro estava frio e a sala continuava vazia.
Tinha-se encostado entre o guarda-roupa e o chão e deixara que o braço continuasse o seu trabalho enquanto a mão escrevia. Adormecera, rastejando depois para a cama que continuava a ter as mesmas dimensões. Ao olhar a janela vira que afinal já vinha a nascer o dia, mas voltara a adormecer no voltar de um sonho.
Era mais fácil continuar a dormir, do que ter então que acordar.

"Ainda te vejo a carregá-lo ao colo, como me carregarias a mim.
Ainda te vejo. Todos os dias nos risos e nos choros das memórias.
Vejo-te a ti que passas sempre nos desígnios das horas que ficaram.
Há dias em que me pergunto para onde deixámos fugir tantos sonhos, tantas palavras e tantos sentidos. Tantos sentimentos que passaram despercebidos.
Também eu queria parar, deixar de pensar na impossibilidade de Deus ainda um dia acordar a pensar se ainda nos há de querer juntar.
Acordo e penso em todos os sorrisos, todas as birras que perdemos, nas noites que não nos deixaria dormir e em todas aquelas outras em que não quereríamos fechar os olhos com medo de não o ver acordar.
Ás vezes ainda penso.
Lembro-me que te dei tudo aquilo que ainda resta para que o pudesses levar contigo.
Lembrei-me que afinal já nada resta.
Pensas que ninguém vê.
Cegámos. Enquanto o vento soprou as muralhas ditas tão fortes.
Afinal fui eu não quis saber.
Eram feitas de cartão..."

Tuesday, November 28, 2006

Diz-me que conversa estás a ter contigo

Queres lutar com quem?
Para doer aonde?
Para ser o quê?
Achas que ninguém vê?
E para quê fingir?
Porquê mentir e remar na dor?
Achas que ninguém vê?

Também eu queria parar...
chorar
cair... para me levantar,
para te puxar!
Te fazer sorrir...
não voltar a cair!

Não me olhes assim!
Continuo a ser quem fui!
Cada vez mais aqui...
não dances tão longe..!
...que eu já te vi

Também eu queria parar...
chorar
cair... para me levantar,
para te puxar!
Te fazer sorrir...
não voltar a cair!

Cada Vez Mais Aqui - Toranja

Sunday, November 26, 2006

Levando um a um, vão contigo mortos e também vivos... A Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006)

O poeta e pintor Mário Cesariny, principal representante do surrealismo português, morreu esta madrugada em sua casa, em Lisboa, aos 83 anos.
Cesariny destacou-se pela produção artística variada, pela pintura, colagem, poesia, humor e música passaram as mãos irrequietas e experimentalistas do artista.

"Mário Cesariny é antes de tudo um ser superior, o ser mais admirável que eu conheci", comentou, comovido, o amigo Carlos Cabral Nunes.

Para Cesariny, homossexual assumido, o amor era "um desmesurado desejo de amizade", em que "o outro é um espelho sem o qual não nos vemos, não existimos", e "a única coisa que há para acreditar"."[É] o único contacto que temos com o sagrado. As igrejas apanharam o sagrado e fizeram dele uma coisa muito triste, quando não cruel. O amor é o que nos resta do sagrado", defendia.

Sobre as sessões para que o convidavam e em que o aplaudiam, o poeta comentava:
"Estou num pedestal muito alto, batem palmas e depois deixam-me ir sozinho para casa. Isto é a glória literária à portuguesa".
Em 2005, recebeu as duas únicas distinções da sua carreira: o Grande Prémio Vida Literária APE/CGD, pelo conjunto da sua obra, e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, que lhe foi entregue pelo então Presidente da República Jorge Sampaio. Nos últimos anos de vida, desenvolveu uma frenética actividade de transformação e reabilitação ou "redenção" do real quotidiano, da qual nasceram muitas colagens com pinturas, objectos, instalações e outras fantasias materiais.

"Gostava de ter daquelas mortes boas, em que uma pessoa se deita para dormir e nunca mais acorda", afirmou em "Autografia".

Ainda assim morreu em paz, como queria.
Apesar de ter afirmado que a sua escrita tinha secado, que não sentia necessidade de escrever, porque não tinha nem por quê, nem para quem, e de a sua poesia ser como dizia "um fogo muito grande que ardeu", "depois ficaram as cinzas", centelhas da sua eternidade.
Que não morra então a obra, assim não morrerá nunca o autor.
Caso para se dizer... you are welcome to eternity!
E aqui fica:

De profundis amamus
"(...)Não
faz mal abracem-me os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso."

Foi Deus

Desengana-te meu amor, que as paixões não são para ti,
foi Deus que mo disse ao ouvido, no dia em que te vi.
Desengana-te e sossega, não desintegres, nem sufoques.
Foi Deus que me disse que to dissera…
Tu não amas. Tu não sofres.

As paixões são só para escreveres,
foi para isso que nasceste, amor.
Vê que elas são só enganos, mas não penses nisso amor,
por demais ou por de menos
nós já não nos encontramos.

Desengana-te amor, já não há coisas para te fazer chorar.
Deus disse-me que te dissera:
Tens de cair para te levantar.

Disse-me também ao ouvido que não chamasses o seu nome.
Que não amasses por amar,
Que de amor ninguém tem fome.

Não soube o que lhe dizer,
Deus não costumava falar-me de ti...
Disse-lhe então que o chamaria,
que me levantei e amaria, tantas vezes quantas quisesse.

E disse-te eu que lhe disseras:
"Não se preocupe com paixões…
disso eu já me esqueci,
Eu não amo, eu não sofro,
nem eu nunca o conheci."

Saturday, November 25, 2006

Quando o tempo deixar

Andamos em voltas rectas
Na mesma esfera,
Onde ao menos nos vemos
Porque o fumo passou.

A chuva no chão revela,
Os olhos por trás.
Há que levar o que restou
E o que o tempo queimou.

Tens fios de mais
a prender-te as cordas,
Mas podes vir amanha,
Acreditar no mesmo Deus

Tens riscos demais,
A estragar-te o quadro.
Se queres vir amanha,
Acreditar no mesmo Deus ...
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços..

Andamos em voltas rectas
Na mesma esfera
Mas podes vir amanhã
Se queres vir amanhã
Podes vir amanhã...

Tens riscos de mais
A estragar-me a pedra
Mas se vieres sem corpo
À procura de luz
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços..

Toranja

Monday, November 13, 2006

Desassossego

"Já não sei escrever, dizia.
A inimiga dos corações e das vontades corroeram-me a mão e o pensamento.
Tenho frases e desejos e alentos,
tenho nadas e contentamentos,
que não passam da mão para o papel.
Porque deles só sai o teu nome.
Deles só me lembram os fios de mel que correm nos teus olhos,
e as fibras de seda que devem guardar as tuas mãos.
Já não sei escrever, dizia.
Lembrei os nomes dos reis e dos poetas
esqueci entraves e muros e metas...
e deixei a tinta escorrer nas minhas mãos."

Sunday, June 18, 2006

Direito por linhas tortas

Gostava de saber para onde foste.
Parece-me que já passou tanto tempo desde o dia que não mais foi dia, e gostava de saber agora como te chamas. Para quem e por que linhas escreves...
Se ainda escreves.
Se ainda te chamas.
Parece-me que perdes letras do teu nome todos os dias, esse acabado que em pouco tempo talvez perca o som por não ter quem o chame. Ou por quem é talvez ganhe, com tantos outros que há ainda a chamarem-te pelo nome que o trocaste.
Eu aqui para ti escrevo, para mim que já não procuro.
Escrevo para dar forma e razão às coisas que não a têm. Para me dar razão a mim e a ti que também já a sabes ter.
Para dar o nome às coisas depois de teres passado e as nombrares, desnombrando-as também para mim.

Ás vezes penso que também a ti te apetece gritar e ao mesmo tempo dizer coisa nenhuma.
Agora escrever pouco vale a pena, poupa-me o gravarem-se no papel coisas que deveriam ter sido ditas e feitas, e embora o cérebro não me deixe e fervilhe correndo mais depressa para o papel contra a vontade da mão, escrevo sem escrever o que quem escreve sabe poder sem esta maldita ilusão.
Parecem-me agora o movimento da mão e as trocas das sinapses incontroláveis, e talvez então escrever no silêncio melhor que dizer nada sobre coisa nenhuma.
Escrever para quem quiser juntar as palavras sem ordem descrita.
Escrever só.
Para mim ou para ti?
Para ninguém.
Escrever por escrever. Não há ordem, não há escrita.

As palavras são como a chuva, assim que caem fundem-se no chão, mas certas delas são também como o vento, porque levam tudo o que estiver à frente com a força e a rapidez de um tufão.
Não fica nada depois das palavras, só o vazio.
Ainda tenho que subir mais um degrau que não chega, faltam ainda três e no final quatro ou dez ou talvez quinhentos. A juventude pode realmente ser entediante e maçadora, já só se querem homens e mulheres feitos, nunca jovens ou crianças.

Um dia talvez acordes e sintas, o quão triste é dormir sozinho em camas grandes.
O dormir sozinho, o domir simplesmente, só. O sentir o tudo entrelaçado no nada.
Não tenho vontade de nada, nem falta de tudo. Tenho um vazio, um oco que ecoa o teu nome nas paredes destas salas que já não têm cores, nas minhas vontades que já não se traduzem. Em todas as coisas que de feridas passaram a tumores.
Pesa...
Cada palavra, cada pensamento.
Mas se há tumores que diminuem gradualmente todos os dias, outros crescem.
O meu não... Já pouco importa.
E não penso mais.
Tampouco te procuro porque voaste.
Porém, aqui ficaram folhas brancas à espera das palavras que me levaste, ou então que lhes desse só tinta. Aqui, nuas e ávidas de letras a beber o suor da minha mão.

E tu, Maldita...
Maldita, Maldita, Maldita.
De tantas asas que tens, bem que podias também voar.
Maldita quantas vezes sejas,
que eu não te posso matar.
Maldita porque de mim tudo queres,
e dos outros tudo desejas.
Maldita tu enfim,
por tudo aquilo que sejas
que dos outros eu não posso, nem te vou poder tirar.

Saturday, June 17, 2006

Saudade

"Saudade é o sentimento vazio do sentir,
Que sente o nada e sente tudo
na ausência do sentir,
sabendo que tu não estás."