Saturday, April 28, 2012

De-sor-ga-ni-za-ção

Odeio-a. Simplesmente odeio desorganização.
Sou incapaz de dormir com ela, estar calma sobre ela e pior, de agir sobre ela.
Tenho toda uma vida de pernas para o ar que grita urgentemente enquanto lateja que está ardentemente a precisar de ser organizada e de lhe ser dada um rumo.
Não lhe consigo responder aos gritos nem acalmar os latejos porque simplesmente não tenho uma resposta para lhe dar.
Tenho um quarto e uma divisão alternativa que mais parecem armazéns, já para não falar do próprio armazém em si, onde estão guardados cerca de vinte anos de história aos quais se irão juntar agora os outros seis, seis que não se lhes vêm meio de se organizarem, arrumarem e tomarem o seu rumo natural até às várias prateleiras ao fundo do quintal e acabam por se ir arrastando na mesma teia de desorganização que sinceramente já chateia de ver.
Do outro lado desta porta, tenho uma gata que só quer o meu colo para se aninhar assim que entro e me sento na cama. Uma gata que quando fico do outro lado da porta e não entro no quarto esgravata na porta do corredor até que entre para lhe fazer companhia, como se chorasse por eu estar ali mesmo ao lado, sem estar ao pé dela.
Uma gata que de mim só tem amor e que de mim só quer amor e que me parte todos os dias o coração porque sei que não vai compreender o porquê de deixar de ver, e passado um tempo o porquê de a ter abandonado. Se não o fazemos a um amigo, porquê fazê-lo a um animal indefeso que se vai ver privado do sítio onde vivia e do amor que lhe davam.
Ainda não sei para onde ela vai viver, nem a quem a confiar mas é a ela que mais me dói deixar porque é a única que não vai compreender, porque não lho posso explicar.
É como tirar o colo da mãe a um bebé. Parte-me o coração.
Deixa-me completamente apática. É como não sair nem querer estar com os amigos.
Para me desabituar, quem sabe?
Deito-me cedo, levanto-me tarde, como ou não como, coisas saudáveis ou nem tanto, muito ou pouco, tanto faz.
Há dias em que penso em trabalho, sobretudo quando vejo as notícias ou olho para o varão da roupa.
Já tenho raiva de ver as camisas penduradas, de pensar que saias e que sapatos deva escolher para levar para as entrevistas.
Mas depois paro e penso... que entrevistas?  A desorganização é tal que nem sequer sei quando vou voltar a trabalhar.
Tenho uma raiva crescente das molduras, dos bibelôts, dos sapatos e das malas espalhadas pelos quartos. Quero arrumá-los e dar ordem a toda esta desordem de uma vez por todas.
É desesperante que para fazer uma simples mala de 20 quilos, tenha que viver no lodo desta desorganização para compactar e arrumar a minha vida dos últimos 26 anos em prateleiras.
É curioso que para começar uma nova vida se deixe tudo para trás e que se vá começar com uma simples mala de 20 quilos.
Roupa de Verão ou de Inverno? Hemisfério Norte ou Hemisfério Sul?
Partir o coração a dois, três ou mais? E quando, ou durante mais quanto tempo nesta espera?
Durante mais quanto tempo no lodo da desorganização entre caixas e sacos e roupa e lixo e sapatos e coisas.
Sinceramente não sei porque sem motivação de onde nem quando nem como nem porquê, não consigo mexer uma única palha. Só o meu cérebro mexe em tudo por mim, com os olhos e as sinapses por companhia. Como quem não gosta que eu fique sem pensar durante muito tempo.
Já que não há trabalho ao menos que seja um ócio por completo. Mas podia ser, porque já estou farta de pensar em logísticas, em planos que mudam todos os dias, em coisas que acontecem e não se concretizam, noutras que entram e saem e andam dentro e fora dos timings.
É cansativo. Ele também já está farto de pensar em tanta treta e faz questão de mo dizer por não me deixar parar de pensar. Ridículo, não? Até custa a recuperar o fôlego de tão ridículo que é este novelo.
Para já vou-me deitar.
Pode ser que amanhã seja um novo dia.
No meio da desorganização seguramente, mas um novo dia.

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