Wednesday, July 22, 2009

Filhos (I)legítimos

III

Dizia-se que o casamento era uma tragédia em dois actos, ao contrário da clássica que se desenrolava em três, o casamento parecia ter um fim mais trágico e rápido, vulgarizando-se numa tragédia com lugar para apenas um acto civil e um religioso.
O que não se contava nas tragédias eram as pequenas variâncias que a maior parte descurava e que uma outra grande parte tendia por esquecer.
Ficava então sempre por contabilizar a tragédia sentimental, a tragédia pessoal, a de descendentes e por fim a tragédia do desconhecido.
O antigo melhor amigo dos homens passava agora gradualmente a ser também o melhor amigo das mulheres, embora sob outra forma o cão engarrafado podia tomar a forma de gato, de livro, de revista, de compras ou de qualquer outra coisa que cada vez mais e mais mulheres iam substituindo pela bebida, e embora a predilecção dos homens fosse o whisky, já as mulheres tanto bebiam desse novo melhor amigo, como de qualquer outra bebida, desde que contivesse a percentagem de esquecimento ilusório correcta.
No Alfa vermelho estacionado à beira da praia, de vidros completamente embaciados ainda cheirava horrivelmente a whisky apesar de já passarem das nove da manhã, mas no banco do lugar do morto estava ainda muito viva uma garrafa de rolha mal apertada que ia vertendo algumas gotas para o chão, divididas entre a passagem do tempo, numa tentativa inútil de contrariarem a lei da gravidade.
Debruçado sobre o volante dormia um homem ainda jovem de cabelo claro com as mãos estendidas ao longo do corpo, tortas no sentido do banco, uma retraída no estofo e a outra suspensa para o chão.
Parecia exausto, completamente descontextualizado e perdido naquele cenário quase idílico, não fosse a cinza espalhada pelos bancos, a dita garrafa que vertia no chão e os maços de tabaco vazios espalhados no tablier, com toda aquela sensação de cenário de tranquilidade desfeita, mesmo ali na orla da praia.
- ACORDA!
O vidro quase estalara com o soco que tinha levado.
- Acorda ainda não ouviste? Já passa das nove da manhã... Lá porque não dormes em casa não é para mandriar.
O barulho das maõs no vidro da janela do lado do condutor ainda continuaram alguns segundos, seguidos pelos gritos imperceptíveis de um homem bastante mais velho de feições completamente iradas. Tinha também cabelos claros, já mais brancos pela passagem do tempo e uns olhos igualmente muito claros.
- Já ouvi, já ouvi… Estou a caminho…
Dentro do carro, Ricardo tinha acordado atordoado, ainda cego pela bebedeira e também surdo do sono e dos gritos.
- Acho bem que sim porque os clientes não esperam. Se fizesses as coisas como te digo não andavas nestas vidas. Vamos embora, atrás de mim e é já.
Dera mais um soco no vidro e gritara-lhe que se despachasse antes de se voltar e entrar apressadamente no carro que tinha deixado estacionado do outro lado da estrada.
Ao olhar o pai atravessar a estrada e sentar-se no carro, sentiu que dentro dele pareciam ecoar murmúrios de lamento, sons imperceptíveis de cansaço e tristeza que nem ele próprio sabia distinguir por terem já sido tantas as vezes, por não ver sequer como poderia ele mudar toda aquela situação.
Já dentro do carro o Pai ainda gesticulava, soltando uns quantos gritos mudos que pela distância ele não conseguia ouvir, a não ser dentro da sua própria cabeça.
- Já sigo pai, pare lá de gritar. Estava só à procura da chave.
Custara-lhe ainda a encontrar a chave que tinha caído entre a porta e o banco, e ainda mais a fazê-la entrar na ignição. Mas lá arrancara finalmente, ainda com a cabeça meia tonta e num frenético pestanejar de olhos, na tentativa desesperada de conseguir focar a estrada que se abria à sua frente.

- Sabes ler?
- Acho que sim…
- Achas… Então será que me consegues dizer o que está escrito na folha à tua frente?
- Tu não…
- Sim, é isso mesmo.
- Onde é que pensas que vais? E que tal explicares-me o que isso quer dizer?
- É exactamente isso que está aí escrito, e é agora. Não é daqui por dois meses nem é para pensares. É só isso que quer dizer.

A estrada quase desapareceu. À sua frente já quase não havia faixas e o carro aproximava-se a um monte de pedras. Virou o volante de repente e por sorte entrou de novo na estrada sem bater em nenhum outro carro. Àquela hora a maioria das estradas naquela zona ainda estavam vazias.
Foi então que decidiu abrandar na berma da estrada. Abriu o vidro e deitou fora a garrafa de whisky pela janela. Esperou o tempo necessário para ouvir o líquido estilhaçar-se no meio dos vidros. Logo compro outra, pensou, ou não… pouco importa, arrancando depois a toda a velocidade.
Já era a segunda vez e tinha sido pior do que a primeira. Sabia ler… Se sabia ler… Era talvez a última que deixava que ela gozasse com a sua cara e fizesse dele o que queria. Casos perdidos dissimulados de importância a abusarem da sua bondade e da sua paciência. Talvez nisso o pai tivesse razão e fosse melhor não se meter com putas que vinham dissimuladas de mulheres. Mas o pai não era nenhum exemplo e a referência tinha sido escassa, daí a maior parte do tempo lhe ter parecido ter andado a viver enganado.
Daí não ter visto, nem ter acreditado. Não tinha nada para dizer, não fazia questão que nada fosse dito. Tinha sido um vazio só, uma fraqueza… Mas não pelo dinheiro. O dinheiro… era sempre e só o dinheiro que lhes interessava. Quanto mais melhor e algumas já sabiam que ele tinha muito. Ela sabia, mas ele não, e só agora se tinha capacitado que ela sempre o soubera. Talvez tivesse sido por isso. Tinha sido, mas ainda lhe custava muito a conseguir aceitar.
No entanto começava agora a pensar que talvez fosse o contrário, que talvez ele tivesse andado cego e não tivesse conseguido distinguir o interesse dissimulado das que não faziam parte do estrato do interesse puro, das que no fundo tinham muito mais a perder.
Não conseguia, não sabia ainda ver nada disso com clareza. A mãe sempre lhe dissera, filho, casa-te com alguém com quem gostes de conversar, assim um dia mais tarde vão sempre ter alguma coisa para dizer um ao outro.
E tentara fazer o que a mãe lhe pedira, se tentara. Porém, agora sabia que tudo isso não passava de uma daquelas ilusões que se mantêm. Agora sabia ele que as coisas não eram bem assim, porque os homens e as mulheres casados efectivamente não conversavam.
E os anos iam passando. Iam passando sem que houvesse muito já para dizer um ao outro, mas aqui não se prendia o não haver mas sim o facto de que nunca houvera.
A questão não era no entanto o que se dizia, mas talvez o que não se dizia, aquilo que simplesmente ficava, suspenso em tudo o que muitas e boas novas palavras não conseguiam apagar.
De tão requintado o gosto e o toque, o sublime da velocidade de raciocínio e a cadência da conversa, mais se cravava o espinho no coração.
Era fácil, todos diziam. Mas só quem dele bebia é que sabia que não.
E agora já não fazia sentido, era ele quem exigira, quem tivera necessidade de por um ponto final.

- Sabes ler?
- Desculpa… o que é que?
- Humilho-te agora como me humilhaste há tempos, como me tens humilhado até aqui… E pergunto, sabes ler?
- Sei.
- Se sabes… acho que me consegues dizer o que está escrito nessa folha.
- Tu não…
- É isso mesmo. E não tem volta atrás.
- Sabes bem que isto não é para ficar assim.
- É exactamente assim mesmo que é para ficar. E agora. Sem ameaças, sem subterfúgios. Levas o que tens direito, que nem sei ao certo o que é. Devia ter pensado nisso quando casámos mas não pensei, portanto é só isso que quer dizer.
Quero o divórcio. Agora.

Quando atendeu o telefone, a única frase que não lhe saía da cabeça era o típico “I told you so…”, mas depois de o ouvir e lhe custar a fazer sair as palavras, desligou.
"Um dia, dissera-lhe. Um dia talvez tenhamos tempo e espaço para conversar."
- Não penses mal de mim, acho que compreendes.
- Não penso, não tenho porquê. Mas um dia talvez. Agora não.



Como tinha lido uma vez, fazia agora perfeito sentido…

"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber...
(…)Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.
Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria…
(…)O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática.
O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
(…)Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço…
…Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
(…)O amor é uma coisa, a vida é outra….
…Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo.
O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. È uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra.
A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina.
O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima.
O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente.
O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.
O amor é uma coisa, a vida é outra.
A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre.
Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente.
O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.
Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra.
A vida dura a Vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

Miguel Esteves Cardoso


Não percebo, não sei se consigo perceber. Ou se quero.
Mas é assim que vivemos, a emendar os erros que cometemos instantaneamente ou há vários anos atrás.
Fiquei contente de saber que estás a emendar o teu.
Sempre soube, mas custou, ainda custa.
É triste saber que só aprendemos a bater com a cabeça com tanta força...
E dói tanto.
Mas só sei que acerto sempre, no fundo tudo faz sentido…e com esta treta toda só me ocorre e apetece dizer que realmente só não me sai o euromilhões...

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