Sunday, January 27, 2008

Silêncio

Onde se encontraria um desses, pensara. Um desses que completava, que partilhava e encaixava como as peças de lego das crianças que tão sábiamente pareciam saber sempre qual a peça certa para encaixar.
Se as crianças o sabiam tão bem e o encontravam, porque não o saberiam os adultos? Ou porque não as encontrariam no meio de tantas outras peças se no fundo não passavam de crianças de algum modo envelhecidas ou modificadas pelos traços ora amargos ora doces, do tempo que passava sem pedir.
Começava a perceber finalmente que apreciava o silêncio, que o prezava demais talvez. Não entendia e por vezes não aceitava que não lho respeitassem. No fundo admirava com uma certa magia quem o sabia usar, quem o preferia ao barulho ou a palavras vãs e quem o elevava na tranquilidade do que nunca precisava de se dizer, apenas de se sentir. Fascinava-a sempre como era possível que nele se dissesse tanto e como chegava a ser confortável, por vezes até apaziguador.
No chão da sala encontravam-se ainda inúmeras peças de lego espalhadas no chão, mas as crianças eram muitas e as próximas peças certas depressa eram apanhadas, esgotando-se mais depressa ainda as que encaixariam nas suas. As certas não se lhes podia retirar, já tinham sido apanhadas e nunca se tira o que pertence por esses meios a uma criança. Além de não estar certo deixa-la-ia totalmente desolada, mortificada até, havia quem dissesse.
No fim ficavam apenas espalhadas no chão algumas peças que acabavam sempre por não encaixar. E como se sabia? Tentava-se, talvez. Com a certeza apesar de infundada que talvez houvesse uma criança ao seu lado com a peça certa, não lhe cabendo a si sequer pedir para experimentá-la.
Era pecado, alguém uma vez lhe dissera... E seria?
Ocorreu-lhe então que as crianças não sabiam sequer o que o pecado era. E que talvez fosse isso um mera invenção dos adultos que preveniam que certas coisas se perpetuassem pela perda total da inocência, que era inerente das crianças.
Mas o silêncio que ficava no final das brincadeiras acabadas não era seu, não era silêncio sequer. Era um barulho ensurdecedor e mudo que lhe ecoava contra as paredes tão ocas de um crânio gasto e cansado, não de um crânio de criança mas sim um crânio de adulto que seguia porém as mesmas regras dos das crianças. Aquele silêncio que ouvia agora era um silêncio que a ensurdecia, não era o mesmo que ouvia enquanto a música tocava, as crianças dançavam e ao seu lado não se falava.
Poderia esse talvez ter vindo para ficar, mas não. Esse era peça que pertencia já a outra criança e ali não havia espaço para nem tempo para trocas. Não havia talões de compras nem recibos, logo não se faziam sequer devoluções.
Talvez fosse realmente pecado. O melhor era não pensar muito nisso e tentar sentir o silêncio da sala cheia de música e de gente, e procurar talvez outra peça. Noutro dia, noutro mês ou noutro ano. Noutra altura que se chamasse tempo e onde o tempo desse silêncio tivesse por acaso um determinado lugar.
Este novo ano trouxera-lhe silêncio, não meias palavras nem fingimentos, e que apesar de não ser seu deveria aproveitar. Afinal sempre se havia dito que o silêncio era de ouro e verdade ou não este era um silêncio que chegara para ensurdecê-la. Ao fechar os olhos como lhe haviam dito, imaginara que estava agarrada de novo entre ele e a salsa que soava entre as paredes do salão já vazio. De repente parecera-lhe ver a peça que tanto procurava no meio do salão.
Silêncio.
Imaginara que a música, os passos e os corpos eram um só. Imaginara que o silêncio se fundira e a ressuscitara. Na verdade nunca tinham falado muito, mas sabia que isso por si só bastava.
Silêncio.
Ao abrir os olhos já tudo desaparecera. Teria sido só a sua imaginação?...
A música tocava sozinha e os corpos tinham-se desvanecido.
Inquietação.
O barulho voltara, ensurdecedor. Ao olhar de novo vira então que a peça que encontrara desaparecera, encontrando-se já nas mãos de outra criança.

Silêncio...
O ouro havia-se tornado em alumínio que escorrera e estancara já frio, deixando quilos e quilos de silêncio que ela não podia tocar pelos cantos da sala, ali, sós... Bocados de silêncio completamente desfeitos, de silêncios imperfeitos espalhados pelo chão.

Silêncio.

No comments: