Monday, December 17, 2007

Rescisão de contrato

O deserto soprava um vento quente, incontrolável, naquelas horas e àquela temperatura, completamente insustentável.
Fazia agora mais de quatro anos que ambos se tinham perdido, cada um de um lado diferente do mesmo deserto, entre as brisas do esquecimento e os tornados da loucura, mas ambos sempre no mesmo epicentro da inconstância e daquele vento que se tinha tornado insuportável.
De um lado sopravam as mais variadas espécies e feitios de feras, todas com garras que ora saltavam ora se encolhiam, mas cravadas sempre sobre qualquer obstáculo que se lhes atravessasse no caminho. As suas mandíbulas eram geralmente podres, gastas ou até mesmo inexistentes, marca dos anos, das escolhas e consequências. Inconsequentes e feias como os vasos de barro que se deixavam partidos nos jardins espalhando à sua volta montes de terra desordenados e restos de plantas mortas e partidas junto dos cacos.
Desse deserto corria um brisa fria que essas feras sentiam no calor do dia e uma outra quente apenas sentida no frio da noite.
Era essa última que extasiava, que descontrolava e se mantinha enlouquecida ao longo da passagem dos anos, como as brisas quentes que vinham dos trópicos e que nem as chuvas, os tornados ou os tufões conseguiam arrefecer.
Ficava assim tão fácil entregar a quem nos desse um sopro desse deserto, a quem nos aquecesse a alma por tão pouco mas que parecia tanto dado por nada.
Ficava tão fácil vender o que era nosso sem saber que se vendia, que se criava um contrato de escravidão vitalícia aos grãos de areia desse deserto onde as brisas quentes não paravam nunca de soprar.
No entanto, na última linha do contrato havia uma cláusula a letras minúsculas, daquelas que nunca ninguém se lembrava de ler e analisar.
Ao apertar-lhe a mão, sentira-a fria como a da morte, putrefacta como a decadência que lhe davam as boas-vindas mascaradas de vida e aundância, alertando bem alto no passar da porta:
"Seremos cúmplices o resto da vida", afastando-se de seguida ao largar-lhe a mão.
Do outro lado da porta estava então o deserto onde se perdera repetidas vezes, onde reinavam as feras e o calor, onde o chão era feito de areias movediças e os oásis de alcatrão.
Chegara a converter-se em fera, chegara a perder-se nas poças de alcatrão e ns buracos de areia movediça. Chegara a perder-se sem saber como se encontrava sempre, e voltava sempre para perdidamente se perder até se voltar a encontrar.
No entanto no deserto os anos pareciam não passar até passarem efectivamente e nessa passagem as restantes feras da espécie não ajudavam, não construíam nem aliavam.
Um dia, quase como por engano deslizara por um dos buracos de areia movediça e fora ficando. Do outro lado as brisas eram diferentes, os desertos não tinham areias movediças nem os oásis alcatrão.
No dia que as detentoras do contrato haviam ido buscá-la, tinha apontado apenas as duas linhas quase invisíveis e a última onde deveria estar a assinatura. As duas riram-se:
"Seremos cúmplices o resto da vida"...
Apontara então apenas as duas linhas minúsculas e a última onde deveria estar a assinatura:
"Ou talvez só até amanhecer..."
Ao voltar costas sentira os seus uivos a serem absorvidos de volta ao deserto. Não tornariam a visitá-la. Aquele não era mais um contrato de escravidão vitalícia. A noite vem às vezes tão perdida, pensara. Tão descuidada e ambiciosa, sedenta de contratos vitalícios de almas perdidas. Não, mas não mais seriam cúmplices.
Aquele contrato era um que não conseguiriam.
Nem era preciso rescindi-lo...
Não o havia chegado a assinar.