Sunday, September 30, 2007

Cause I don't think you know what I feel



Não se lembrava de muitos acontecimentos da sua vida sem que ele tivesse estado presente mesmo que escondido por trás da porta ou em expectativa do outro lado da rua.
Toda a sua vida tinha sido assim, à medida que os anos passavam, as coisas iam porém ficando diferentes e a sua presença fazia-se sentir cada vez menos. As coisas que dizia mudavam e até a maneira como ele próprio vivia não parecia a mesma.
Ás vezes dormia de porta aberta, esquecia-se das chaves no trinco do portão, deixava a porta do carro aberta à noite e até as luzes da casa inteira ligadas.
No entanto ele tinha uma estranha maneira de lhe falar mesmo estando calado. Sentia que ao seu lado podia deixar passar o tempo, sem fazer ou dizer nada. O silêncio ali era de ouro. E ali ela podia deixar que passassem horas, ficando apenas sentada no sofá enquanto olhava para ele, completamente imerso nos seus boletins, no meio do silêncio daquela divisão tão pequena e escura, trocada por uma outrora tão ampla e iluminada.
Durante muitos anos tinha gritado muito, com ela, com outros, com toda a gente. Passado um tempo tinha deixado de gritar, agora todos tinham que gritar para que ele os ouvisse, como se todos os gritos que queria dar tivessem ido para dentro e agora o barulho dentro dele fosse tanto que já nem ouvir quem lhe falava conseguia.
A ele as lágrimas conseguiam ver-se sem lhe escorrerem, mas às vezes quando lhe queria mesmo falar por estar preocupado ou confuso mexia muito a mão no ar e passava-a com força na cara mesmo por cima dos olhos e ficava uns instantes com a cara tapada a suspirar até tirar a mão e abrir muito os olhos, como se quisesse que as lágrimas lhe saltassem simplesmente para fora das órbitas sem as ter que mandar parar. Aquele era um ritual que costumava repetir umas duas ou três vezes até voltar a ficar estar estático em frente à televisão ou novamente imerso nos boletins.
Ás vezes doia-lhe a ela. Doia-lhe demais, talvez por lhe querer tão bem e nem sequer saber porquê. Por querer apenas.
Mas ao fim da noite ele ficava sempre sentado sozinho no sofá da sala, no silêncio da casa ou no meio dos berros estridentes da televisão que ele nem conseguia ouvir.
E ao fim da noite custava-lhe demasiado a dormir. Como a ela. Devia ser de familía...
Porém, de tudo o que mais lhe custava eram as horas que conseguia passar ao seu lado calada, simplesmente a olhar o que ele fazia ou deixava de fazer, e depois quando se levantava da cadeira, ver como os olhos lhe brilhavam ao dizer boa noite ao saber que ela o ia deixar novamente naquele silêncio.
No entanto a porta estalava atrás de si, e o silêncio compunha-se, ficando apenas a imagem daquele homem sentado num sofá à meia-luz no meio dos seus livros e uma mão pousada sobre a testa. Aquela era a imagem que lhe ficava sempre ao subir a rampa no escuro do quintal. E ela não sabia, nunca saberia talvez se ele imaginava sequer o quanto ela gostava dele. A enormidade e a nobreza do sentimento que nem ela sabia explicar. Aquela presença que fora única e que alguma vez tinha conhecido.
O que lhe dava alento ainda era aquela luz que ficava até ele finalmente adormecer. Os velhos precisavam de luz, pensou. Precisavam da companhia que a luz lhes dava.
Ao continuar a subir, aquela cara cansada mas tão viva que ali tinha não lhe saía da cabeça. E sorria, sorria sempre ao pensar no tanto que sentia todas as vezes que ficava impávida a olhar para ele sem dizer uma palavra, durante o tempo que fosse. Nessas alturas a alma tornava-se maior e dizia-lhe muito baixinho...

Sometimes I look at you and I just want to break down and cry.

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