Sunday, January 29, 2006

Neve

Chegou de mansinho, sem previsões e sem avisos, num domingo como tantos outros depois de eu rezar tantos anos para ver nevar em Lisboa.
O ar gélido depois de almoço cheirava a neve, ela já vinha desde o norte até Santarém e diziam que nevava desde manhã em Évora. Eu sabia que tinha de chegar aqui.
Ao espreitar pela janela do quarto tornei a sentir aquele ar que levemente me cheirava a neve e após alguns segundos vi umas formações brancas microscópicas que dançavam no ar esporádicamente quase sem se ver. Tentei não começar a gritar como doida pela casa mas ao tornar a ver outro daqueles flocos brancos microscópicos já corria pelo corredor.
_ESTÁ A NEVAR, VEM À JANELA!!! Mas nem a vendo chegar de pequenina acreditaram.
Eu sabia que ela vinha e depois de estar vestida decidi voltar à janela para confirmar apenas que a neve tinha finalmente começado a cair tal como eu me lembrava.
Passado algum tempo de gritar pela casa e de a deixar cair violentamente como chuva, os flocos foram-se então tornando suaves e consistentes num misto de lembrança e alegria que deixei escorrer pela cara enquanto o branco caía do céu.
Lembrei-me de ti sem querer lembrar, lembrei-me dos snow angels e das coisas que deixámos escritas na neve. Lembrei-me das noites em que não me telefonavas e em que eu me sentava á janela a ver nevar, sem sentir o frio que fazia lá fora depois do Nicholas e do Jeremy terem guardado os trenós e termos parado as guerras que começávamos quando eles chegavam da escola. Lembrei-me dos dias em que saía cedo para o trabalho e conseguia cheirar o frio quando passava pelos caminhos cobertos de branco ao longo das ruas movimentadas. De quando os dias pequenos se tornavam enormes só na espera fria e inútil de um telefonema teu.
No entanto senti-me mais perto de onde sei que estou tão longe e lembrei-me de todos eles que lá ficaram rodeados pela neve, no calor das casas bem aquecidas onde se passeia descalço, de t-shirts vestidas e onde se comem gelados em Janeiro. E senti a neve, lembrando-me deles e esquecendo-me de ti à medida que os flocos iam caíndo formando uma leve película branca nas ervas do jardim.
Não precisei de voltar para me sentir tão perto, mas morria de saudades desse frio gélido que cobriu totalmente o meu inverno de branco e que te levou tão depressa como te aproximou de mim. E não fui capaz de voltar para dentro, apesar de sentir levemente o frio gelar-me por fora, sem conseguir porém que ele me gelasse por dentro. Assim fui ficando até que a neve parasse para me sentir cada vez mais perto com a cara virada para o céu á medida que os flocos descansavam na minha cara. As imagens trouxeram-nos ali tão perto e no fim percebi que não conseguia não lembrar-me de ti.
Porque também a tua imagem voltou e com ela voltaram as auto-estradas instransitáveis cobertas de neve no dia 11 de Dezembro e aquele aeroporto gigante que se vestiu de branco para me ver partir. Lembrei-me de ver a neve cair pelas janelas do terminal e da hora e meia que ficámos dentro do avião até a camada de gelo ser completamente derretida para podermos descolar.
Lembrei-me de todas as vezes que me fizeste chorar, tanto no quente da casa como atrás de ti ao frio pela rua. Naquela noite quem chorava e gritava era eu, mas a culpa não era minha, só tua. Agora vejo aquela tarde em que chorei durante uma hora ao lado de um estranho que me tinha ajudado a pôr a mala por cima do lugar 122A porque eu simplesmente já não tinha mais força.
Vês bem o que me fizeste?
Enquanto a neve continuava a cair lá fora, tu passeavas-te entre sorrisos no terminal do aeroporto, sem teres deixado que se viessem despedir de mim, tiveste de escolher o mesmo dia que eu para voltar para casa, em horas diferentes, descontros iguais, consequentes.. Voltavas sem rancor, nem remorsos, com alguma alegria e desprezo por esses que ali estivam contigo. Agora voltavas vitorioso para junto dos teus com toda a grandeza que não era nenhuma. Voltavas o mesmo, pior quem sabe. 3 anos e meio depois.
Quis tanto sentir essa neve, esse frio, mas não me lembrei que com ela vinha tanto de ti, mas hoje nevou em minha casa, 52 anos depois disseram. Agora só quero lembrar que quis essa neve para estar mais perto de quem ao contrário e ti nunca me tirou nada e a quem tu tiraste tanto, e quero esqueçer que com ela vieram as memórias. Foi como se tivesses vindo aqui ter comigo sem eu te ter pedido.
Não venhas. Deixa a minha neve ser aquilo que tu não foste.
Partimos há mais de um ano, 5.05 pm Eastern time, quando ainda se viam os flocos de neve cair pelas janelas do avião e hoje nevou em minha casa, assim como nevava em Toronto e onde eu pensava que nunca poderia nevar. Que saudades daquele inverno e de este ano ter voltado mais cedo, na verdade acho que estava tão longe que a neve veio até mim porque sabia que eu não podia chegar até ela.
Para me fazer esquecer de ti? Para gelar o frio que corre por mim sem neve há tanto tempo?
Não sei. O teu avião saíu uma hora depois na direcção oposta.

...5.05...

"All passengers now boarding Flight 887 Mexicana Airlines - Toronto Pearson International to Mexico City's Benito Juaréz International boarding now at gate"...

Agora já não as oiço mais. Hoje depois da neve entrei em casa e tentei não me lembrar mais de ti. Porque hoje nevou para mim, sem ti.

2 comments:

Marroky said...

bem... n será por acaso q qd aqui chego e leio o q ha de novo fico sem palavras. o texto tá lindo. só não gostei de uma coisa... nevou no algarve e eu n vi!!! bah!

beijinho grande, teresa
take good care
*****

Teresinha said...

Este custou a sair, e muito.
Mas tb aliviou a sua parte...
Pena que não nevou ao pé de ti, aqui n nevou muito mas deu pa matar um bocadinho as saudades.
espero que tejas bem! e take good care too!
beijocas gds!***